1. A fisiologia do parto nos mamíferos

Todos os mamíferos dão à luz graças à súbita libertação de um fluxo de hormonas. Uma destas hormonas, a oxitocina, desempenha um papel importantíssimo. Ela é necessária para a contracção do útero, para os bebés nascerem e as placentas saírem. Está implicada na indução do amor maternal: é o componente principal de um verdadeiro cocktail de hormonas do amor.

Todos os mamíferos podem também libertar uma hormona de emergência denominada adrenalina, cujo efeito é interromper a libertação de oxitocina. A hormona de emergência adrenalina é libertada em particular quando existe uma possibilidade de perigo.

O facto de a adrenalina e a oxitocina serem antagonistas explica que a necessidade básica de todos os mamíferos ao dar à luz é sentirem-se seguros.

Num ambiente selvagem, uma fêmea não consegue dar à luz quando houver uma possibilidade de perigo, por exemplo na presença de um predador. Nesse caso é vantajoso libertar adrenalina, que leva mais sangue aos músculos junto ao esqueleto e dá mais energia para lutar ou fugir; é também vantajoso parar de libertar oxitocina, para atrasar o processo do nascimento.

Os mamíferos libertam adrenalina quando se sentem observados. É evidente que todos confiam numa estratégia especial para não se sentirem observados ao dar à luz: a privacidade é obviamente outra necessidade básica. A hormona de emergência também está implicada na regulação térmica. Num ambiente frio, um dos papéis bem conhecidos da adrenalina é induzir o processo de vasoconstrição. Este facto explica que, para dar à luz, os mamíferos necessitam de estar num local suficientemente quente, segundo a adaptabilidade da espécie.

As três necessidades básicas da parturiente

Uma vez que os humanos são mamíferos, a perspectiva fisiológica sugere que, para dar à luz, as mulheres devem: sentir-se seguras, não se sentir observadas, e estar num local suficientemente quente.

2. As desvantagens humanas

Embora a perspectiva fisiológica possa identificar facilmente as necessidades básicas das parturientes, pode também facilitar a compreensão das desvantagens específicas dos seres humanos no período do nascimento. As desvantagens humanas estão relacionadas com o enorme desenvolvimento daquela parte do cérebro denominada neocórtex. É graças ao nosso enormemente desenvolvido neocórtex que conseguimos falar, contar e ser lógicos e racionais. O nosso neocórtex é originalmente uma ferramenta que serve a velha estrutura cerebral como forma de suportar o nosso instinto de sobrevivência.

A natureza encontrou uma solução para ultrapassar a desvantagem humana no período do nascimento: o neocórtex deve estar em descanso, para que as estruturas cerebrais primitivas possam mais facilmente libertar as hormonas necessárias. É por isto que as mulheres que dão à luz têm tendência a isolar-se do mundo, a esquecer o que leram ou aquilo que lhes ensinaram; atrevem-se a fazer o que nunca se atreveriam a fazer no dia a dia social; podem encontrar-se nas posturas mais inesperadas.

Quando uma mulher em trabalho de parto se encontra “noutro planeta”, isto significa que a actividade do neocórtex foi reduzida. Esta redução é um aspecto essencial da fisiologia do parto entre os seres humanos.

O que estimula o neocórtex — e deve ser evitado

A linguagem racional é um dos principais factores de estimulação. Quando comunicamos com a linguagem, processamos aquilo que captamos com o neocórtex. Isto implica que, se houver alguém a assistir ao parto, uma das principais qualidades deve ser a capacidade de manter um perfil baixo e permanecer silencioso, evitando em particular fazer perguntas directas.

Luzes fortes são outro factor que estimula o neocórtex humano. Os electroencefalógrafos sabem que a actividade cerebral pode ser influenciada pelos estímulos visuais. De uma perspectiva fisiológica, uma luz fraca deve em geral facilitar o processo do nascimento.

A sensação de ser observada pode também ser apresentada como outro tipo de estímulo do neocórtex. É irónico que todos os mamíferos não humanos, cujo neocórtex não está tão desenvolvido como o nosso, tenham uma estratégia para dar à luz em privacidade.

▮ O paradoxo da privacidade

Observação: Os chimpanzés, nossos parentes próximos, afastam-se do grupo para dar à luz. Os animais nocturnos têm tendência a parir durante o dia; os diurnos, durante a noite.

Leitura prática: Os humanos, dotados de um neocórtex muito mais desenvolvido, têm ainda maior necessidade de privacidade do que qualquer outro mamífero — e paradoxalmente são a única espécie que institucionalizou o parto observado.

As dificuldades mecânicas do nascimento humano

As dificuldades mecânicas do nascimento do Homo Sapiens também se relacionam com o desenvolvimento do cérebro. No final da gravidez, o diâmetro mais pequeno da cabeça do bebé é mais ou menos o mesmo que o diâmetro maior da pélvis da mãe. O processo evolucionário adoptou uma combinação de soluções para atingir os limites do que é possível.

Existe um conflito na nossa espécie porque a pélvis adaptada à postura erecta deve ser estreita para permitir que as pernas se aproximem sob a coluna vertebral. Uma postura erecta é o pré-requisito para o desenvolvimento do cérebro — e é por isso que o processo de evolução encontrou outras soluções que não uma pélvis feminina alargada para tornar possível o nascimento do “primata com o cérebro grande”.

3. Ambientes culturais

Outra diferença entre os humanos e os outros mamíferos é que os efeitos de um processo de nascimento perturbado no comportamento materno são muito mais evidentes a um nível individual em mamíferos não humanos. Inúmeras experiências confirmaram que o comportamento maternal de mamíferos não humanos pode ser dramaticamente perturbado pela anestesia geral.

▮ Experiências com anestesia e comportamento maternal

Marais (1937): Administrou clorofórmio a gamos em trabalho de parto — as mães recusaram-se a aceitar os recém-nascidos.

Krehbiel & Poindron (1987): Ovelhas que pariram com epidural não trataram dos cordeiros.

Macacos Rhesus e caranguejeiros: Após cesariana, as mães não tomam conta dos bebés; o pessoal de laboratório tem de espalhar secreções vaginais no corpo do bebé para induzir o interesse materno.

Leitura prática: Os seres humanos são especiais — os ambientes culturais compensam as alterações hormonais. Mas isso não significa que não devamos questionar o que se perde.

Os seres humanos desenvolveram formas sofisticadas de comunicar. Falam. Criam culturas. O seu comportamento é influenciado menos directamente pelo equilíbrio hormonal e mais directamente pelo ambiente cultural. Mas isto não significa que não possamos aprender com os mamíferos não humanos — as respostas comportamentais espectaculares e imediatas indicam as questões que deveríamos levantar sobre nós mesmos.

Como as culturas interferem com o nascimento

Todas as sociedades que conhecemos perturbam os processos fisiológicos que rodeiam o nascimento. Interferem através dos assistentes de nascimento que frequentemente estão activos e até invasivos. A transmissão de crenças e rituais é a forma mais poderosa de controlar o processo do nascimento.

Se os outros mamíferos não cuidam dos bebés após uma cesariana, devemos perguntar-nos: “Qual o futuro de uma civilização nascida de cesariana?”

O ambiente cultural do séc. XXI transmite as suas próprias crenças. Por exemplo, é comum comparar as parturientes com atletas como corredores de maratonas, aconselhando grandes quantidades de hidratos de carbono, proteína e fluidos antes de um grande esforço físico. Na verdade, quando a primeira fase do trabalho de parto está a avançar, é sinal de que os níveis de adrenalina estão baixos — a parturiente tem tendência a ficar imóvel, gastando muito pouca energia. Sugerir qualquer tipo de actividade muscular pode ser contraproducente, até cruel.

4. Pontos de viragem

Quais as vantagens evolucionárias deste leque de crenças e rituais que tendem a desafiar o instinto protector maternal durante um curto período de tempo considerado crítico no desenvolvimento da capacidade de amar?

Desde a altura em que a estratégia básica da sobrevivência da maior parte dos grupos humanos era dominar a Natureza e dominar outros grupos humanos, foi uma vantagem tornar os seres humanos mais agressivos e capazes de destruir a vida. Por outras palavras, foi uma vantagem moderar a capacidade de amar, incluindo o amor à Natureza.

Estamos numa altura em que a Humanidade tem de inventar estratégias de sobrevivência radicalmente novas. Precisamos mais do que nunca das energias do Amor. Temos novos motivos para perturbar os processos fisiológicos o menos possível.

Este ponto de viragem na história da humanidade ocorre numa altura em que a história do nascimento também se encontra num ponto de viragem. Até há pouco tempo, uma mulher não podia ser mãe sem libertar um fluxo de hormonas — o complexo cocktail de hormonas do amor. Hoje em dia, na fase actual do parto industrializado, a maior parte das mulheres tem bebés sem confiar neste cocktail.

Nota importante

Uma injecção de oxitocina sintética não tem efeitos a nível comportamental, porque não atravessa a barreira entre o sangue e o cérebro. A questão inspirada por estas práticas tão disseminadas tem de ser colocada em termos de civilização.

5. Um método prático

Uma vez que é urgente melhorar a nossa compreensão dos processos fisiológicos, aparece um método prático como ajuda adequada para redescobrir as necessidades básicas das parturientes. Pode ser resumido numa frase:

No que toca ao trabalho de parto, parto e nascimento, há que eliminar o que é especificamente humano e atender às necessidades do mamífero.

Eliminar o que é especificamente humano implica que o primeiro passo deve ser livrarmo-nos do resultado de todas as crenças e rituais que, durante milénios, perturbaram os processos fisiológicos em todos os ambientes culturais conhecidos. Implica ainda que a actividade do neocórtex tem de ser reduzida, e que a linguagem deve ser utilizada com muita precaução.

Atender as necessidades do mamífero significa em primeiro lugar satisfazer a necessidade de privacidade, uma vez que todos os mamíferos têm uma estratégia para não se sentirem observados quando dão à luz. Também significa satisfazer a necessidade de segurança. É significativo que, quando uma mulher em trabalho de parto tem total privacidade e se sente segura, acaba por se colocar em posturas caracteristicamente mamíferas — por exemplo, de gatas.

Em síntese

É comum alegar que o nascimento tem de ser “humanizado”. Na verdade, a prioridade deveria ser mamiferizar o nascimento. De certa forma, há que desumanizar o nascimento.

Dr. Michel Odent (1930 – 2025)
Obstetra e investigador. Fundador do Primal Health Research Centre, em Londres.Tradução: Carla Palhares para bionascimento.com

Referências

Marais, E. N. (1937). The soul of the white ant. Methuen.

Krehbiel, D., & Poindron, P. (1987). Peridural anaesthesia disturbs maternal behaviour in primiparous and multiparous parturient ewes. Physiology and Behavior, 40, 463–472.

Lundbland, E. G., & Hodgen, G. D. (1980). Induction of maternal-infant bonding in rhesus and cynomolgus monkeys after caesarian delivery. Laboratory Animal Science, 30, 913.

Odent, M. (2002). A cientificação do amor. Saint Germain.

Odent, M. (1994). Laboring women are not marathon runners. Midwifery Today, 31, 23–26.

Bloom, S. L., McIntire, D. D., et al. (1998). Lack of effect of walking on labor and delivery. New England Journal of Medicine, 339, 76–79.

Odent, M. (2003). O camponês e a parteira. Editora Ground.

Odent, M. (2004). The caesarean. Free Association Books.