Cármen, parto da Beatriz

“Indescritível todos os sentimentos que rodearam este momento. “

Estou há algum tempo para escrever e partilhar a minha experiência do parto da minha filha.

De facto sempre acreditei que ter um filho é algo de perfeitamente natural e por isso nunca consegui conceber que a minha filha nascesse num hospital de uma forma fria e impessoal… e sem que o pai fizesse parte do processo.

Quando tivemos a notícia que estávamos grávidos ficámos radiantes eu e o pai da Beatriz… começámos a pensar como é que iria ser a nossa vida dali para a frente, mas começámos também a pensar no parto em si, não nas dores nem no processo pois essa parte não me assustava mas sim no ambiente e fizemos uma pesquisa para tentar encontrar em Portugal um sítio onde pudesse-mos ter a nossa filha sem interferências mas com apoio e com a possibilidade de sermos nós a controlar todo o processo do trabalho de parto e do parto em si. Infelizmente não encontrámos. Falámos, no entanto, com algumas pessoas que tinham tido uma experiência, semelhante ao que procurávamos, em Espanha mais propriamente em Beniarbeig perto de Alicante e Valência. Na verdade todos os testemunhos que ouvimos foram tão positivos e entusiásticos que não hesitámos.

Em Agosto fomos visitar a clínica, e na verdade saímos de lá os dois com a certeza que seria alí que a nossa filha iria nascer não pela clínica em si, mas por todo o ambiente, postura e pela filosofia de todas as pessoas que lá trabalham.

Escusado será dizer que tanto a nossa família como amigos acharam que era uma loucura.. fazer uma viagem de perto de 1000km de carro às 38 semanas de gravidez para ter a criança em Espanha (!) Na verdade muitas pessoas ainda hoje acham que foi um capricho…

E assim partimos.. no final de Outubro, às 38 semanas, partimos para Beniarbeig. Acomodámo-nos num hotel em Denia (3km de Beniarbeig), em frente ao mar e esperámos que a Beatriz tivesse vontade de nascer.

Todas as semanas passava na clínica para ver se estava tudo bem com a Bea, o pessoal de enfermagem era sempre muito atencioso e colocaram-me sempre à vontade para lá ir sempre que tivesse qualquer dúvida, sem nos cobrarem absolutamente nada, para além da primeira consulta e do parto em si!

Na realidade as semanas passavam e a Bea não parecia muito interessada em sair do quentinho… eu estava muito descontraída. eu e o meu marido aproveitámos para estar juntos aquelas semanas antes da Bea nascer, o que foi óptimo para ambos e fartámo-nos de passear.. foi também muito bom para nós este tempinho que a Bea nos deu. Mas às 42 semanas eu já estava mais que muito ansiosa.

O meu marido também precisava de regressar, afinal já lá iam 4 semanas longe do emprego, e tivemos que provocar o parto, que foi para mim o mais triste de tudo….

Mesmo a forma de provocar o parto foi diferente do habitual.. mas sofrida, muito sofrida. Começaram por me dar óleo de ricio… que provoca, para além das cólicas e efeito laxante, contracções poderosíssimas. Tomei o óleo de rício no dia 16 de Novembro às 23h e às 00h de dia 17 já tinha contracções dolorosas de 3 em 3 minutos… Fomos para a clínica na certeza que seria naquela noite que a nossa menina iria nascer, mas apesar das contracções quando chegámos à clínica tinha apenas 2 cm de dilatação.. nada a fazer a não ser esperar.. Com contracções fortíssimas de 3 em 3 minutos. Pensei que não ia aguentar, mas até às 9h da manhã só tinha mais 1 cm de dilatação. Já lá iam 9 horas e apenas 3 cm… pensei que não ia aguentar.

Entretanto conheci na clínica o pai de um bebé que tinha nascido na noite anterior e ele fazia acupunctura e aparentemente ele tinha usado a acupunctura para que a dilatação da mulher acontecesse mais rapidamente… 8 cm em 2 h… como me pareceu prometedor e como não tinha nada a perder em experimentar, começámos uma sessão de acupunctura e, na verdade, as contracções eram ainda mais poderosas durante a sessão, mas quanto à dilatação mantinha-se na mesma… descobri durante a sessão que aquele era o 7º filho que a mulher dele tinha… talvez isso também tenha ajudado à rapidez com que conseguiu os 8 cm de dilatação (?).

Eram 13h e continuava com os 3cm de dilatação e com contracções dolorosas de 3 em 3 minutos… tivemos que tomar a decisão que mais me custou em tudo que foi iniciar com a oxitocina e o rompimento da bolsa para acelerar o processo… só tive vontade de chorar. Mas naquela altura já não podíamos voltar atrás e a Bea teria mesmo que nascer… Já tínhamos passado as 42 semanas e eu já tinha medo que algo pudesse estar mal com ela, apesar de estar constantemente a ser vigiada e ligada ao CTG que garantia que ela estava óptima.

A partir desta altura as contracções começaram a ser menos espaçadas e mais longas. 1 Minuto com um minuto de intervalo. Já não conseguia respirar. Tudo o que tinha aprendido nas aulas de preparação para o parto não valeu de nada pois disseram-me logo que a respiração “cão cansado” não era boa pois não estava a introduzir oxigénio suficiente no sangue e que ia até ao meu bebé. O que me ensinaram a fazer foi a deixar o meu corpo ir e não tentar controlar as contracções. Deixar que todo o processo se desse por si mesmo e respirar fundo. Não foi fácil… mas senti que era a melhor forma de ajudar a minha filha a nascer.

A sala de partos era muito agradável e acolhedora, e durante todo o processo o meu marido esteve sempre comigo, aliás estávamos apenas os dois. Eu podia tomar as posições que quisesse, andar, ficar de gatas, de cócoras, como me sentisse mais confortável. Sempre que necessário a enfermeira e a parteira estavam mesmo ao lado e podíamos chamá-las…

Entretanto estava com 6 cm de dilatação, mas sentia que a Beatriz não descia e comecei a ficar assustada… senti vontade de ir para dentro de água e prepararam tudo para que eu entrasse na banheira de partos. Estive lá dentro durante cerca de 30 minutos. Ajudou, mas naquela altura já estava com tantas dores que precisava, de facto de algum apoio, de um abraço… já estava a desesperar porque começava a acreditar que, apesar daquele esforço, já estava à perto de 19h em TP, a Bea não estava a descer e ia acabar numa cesariana… e só queria que tudo acabasse. Acho que este foi o pico de adrenalina que tanto falam em que perdi completamente o senso. O meu marido sentia-se completamente impotente pois até aquele momento eu ainda não me tinha queixado uma única vez das dores e agora chorava para que ele me ajudasse, de qualquer forma … Ainda hoje, 3 meses depois, lhe peço desculpa por aquele momento.

Neste momento foi importantíssima a intervenção da parteira Rachel Mcloud que me tranquilizou, agarrou na minha mão e disse-me que eu é que tinha que ajudar a minha filha a nascer e que tudo dependia das duas. A verdade é que acalmei e as horas seguintes passaram de uma forma muito calma.. deixei as contracções tomarem conta do meu corpo e concentrei-me da minha filha, o quanto a queria e o quanto a amava… e que tudo aquilo era necessário para poder sentir o cheiro dela e segurá-la nos braços.

Ás 22h a Rachel disse-me que estava na hora. Ainda não sei como é que ela se apercebeu primeiro que eu. Mas a verdade é que a Bea tinha descido e estava na altura de eu lhe dar a ajuda necessária..

Foi de cócoras, apoiada pelo meu marido, que tive a Bea.. Num ambiente muito acolhedor, sem anestesias, sem episotomias, sem intervenções desnecessárias… Fui eu que puxei um pouco da cabeça da minha filha, enquanto a Rachel me dizia para eu sentir a minha filha e para puxar enquanto a minha boca disse que não conseguia as minhas mãos puxaram… Às 22h e 20m a minha princesa estava cá fora de olhos abertos a olhar para nós e logo de seguida colocaram-na no meu peito para mamar…

Indescritível todos os sentimentos que rodearam este momento. O poder vivê-lo com o meu marido que teve um papel tão importante no parto da filha… porque na verdade ele não assistiu apenas. Ele viveu o parto da nossa filha com a mesma intensidade com que eu vivi porque se ele não teve as dores… de certeza que sentiu a dor de nada poder fazer para me aliviar. Mas tudo isso faz parte e é natural… e reforçou todo o amor que temos um pelo outro.

E desde o primeiro minuto estivemos sempre os 3 juntos. A minha filha dormiu a primeira noite em cima do meu peito, e nunca estivemos um único minuto separadas.

Tive que levar pontos, é verdade, mas foram apenas 4. Menos de 48 h depois estava a fazer a viagem para Portugal. 1000km de carro, e não foi nada de transcendente.

Peço desculpa por ser tão extenso este meu relato, mas foi de facto uma experiência muito rica… Muita gente me diz que “passei um mau bocado” é verdade! Mas se voltava a fazer o mesmo, sem duvida que voltava para que o meu marido pudesse voltar a estar presente e para que eu pudesse ter a liberdade de optar como o fiz, pois tenho a absoluta certeza que se fosse em Portugal teria, sem dúvida, acabado numa cesariana e não teria podido participar desta forma no nascimento da minha filha. Se podia ter pedido epidural, também podia, mas não poderia, mais uma vez, ter um papel tão activo no nascimento da Bea.. nem tê-la na posição que o meu corpo pediu na altura, de cócoras…

Guardo uma recordação muito boa do meu parto, assim como o meu marido. Guardo também um carinho muito grande pelas pessoas que me assistiram lá.. o Dr Enrique Lebrero, a Parteira ou matrona Rachel Mcloud e a enfermeira Cármen que assistiram ao parto e que se retiraram logo que se certificaram que eu e a Bea estávamos bem para que eu a Bea e o meu marido pudéssemos desfrutar do nosso primeiro momento a 3…

Foi tudo muito especial e só lamento que tenhamos tido que realizar uma viagem de 1000km para que a Bea pudesse nascer da forma que achamos natural e correcta…

2018-05-08T11:49:48+00:00