Sílvia, parto do Carlos

“Exactamente como o desejámos. Puro trabalho de casa, em casa. Foi assim o parto. Este, sim – O NOSSO PARTO.”

Apetecia-me perguntar a quem lê este meu relato se prefere a versão mais curta ou a mais longa desta história. Se quiser ser rigorosa, teria de marcar como o início de todo o processo o momento em que conheci a minha Doula para toda a vida – a Sandra Oliveira – que se atravessou no meu caminho há quase três anos. Mas não vou recuar tanto, opto pelo meio termo, a começar na véspera do nascimento.

A enfermeira obstétrica que havia de me acompanhar no parto estava contratada. A Sandra esteve cá em casa, à tarde, num encontro preparado, de propósito, com a presença da Rita (a minha filha, de três anos). A ideia era familiarizá-la com o momento do parto, embora ela já soubesse como havia de nascer o bebé. Viu e ouviu uma história de um parto, viu um filme (que ela não esquece e ainda hoje fala no bebé David), trouxe à Sandra a boneca parideira, que a mãe lhe oferecera há umas semanas atrás. Depois a Rita foi fazer a sua sesta, enquanto eu passava em revista, com a Sandra, todo o material necessário para o parto e fazia questão de me certificar de que ela conhecia bem os cantos à casa, para não ter de andar às apalpadelas, quando chegasse a hora. Logística ok. Voltámos então a sentarmo-nos, para falar calmamente nas minhas expectativas para aquele dia e no que tinha vindo a sentir nos últimos dias, física e emocionalmente. Disse-lhe que contava com o nascimento do Carlos para sexta-feira (era segunda); alertei-a para o facto de não poder contar muito com o Paulo no dia do parto, uma vez que, em situações de maior tensão, o meu marido sofre uma espécie de bloqueio, inimigo do mais elementar pragmatismo; e falei-lhe do que não tinha ainda comentado com ninguém: o papel da minha mãe no dia do parto. Era ponto assente que, com grande pena minha, a minha mãe não poderia estar presente, porque eu sabia que funcionaria como factor de bloqueio do meu trabalho de parto. Sujeitá-la-ia a uma tensão e ansiedade para ela insuportáveis. No entanto, disse à Sandra que queria muito tê-la ao pé de mim logo a seguir ao nascimento do bebé. Lembro-me de ter chorado quando fiz este pedido à Sandra. Lembro-me de lhe ter explicado como era importante o que lhe pedia, pelo valor que reconheço na minha mãe e pelo exemplo que me deu ao longo da vida sobre a importância do espírito de sacrifício e como é ilimitada a nossa capacidade para suportar a dor. A Sandra, com a segurança e serenidade que a caracterizam, garantiu-me logo que sim, que me assegurava a presença da minha mãe imediatamente após o parto. Fosse como fosse, alguém a traria até mim. Descansei. Já à porta de casa, com a Sandra aparelhada de armas e bagagens, pronta para sair – que esta mulher anda sempre como um bombeiro! – tivemos a inacreditável troca de impressões, que vou recordar sempre, incrédula, pelo que viria a acontecer no dia seguinte. Questionei-a sobre o seu papel de doula, se não se via a ir um bocadinho mais além na sua esfera de intervenção no parto, sabendo que há tantas doulas que acabaram por assumir conscientemente a função de parteiras. A Sandra mostrou-se irredutível: de forma alguma. Uma doula é uma doula, uma parteira é uma parteira. Para ela, a parteira/profissional de saúde tem uma função, a doula outra; e se é verdade que há quem acumule estas funções, ela não se revê nessa polivalência. Como é que diz o ditado? “Nunca digas desta água não beberei”… Pois é… Mal sabíamos nós… Mais adiante volto ao ditado.

Assim que a Sandra saiu, senti uma dor ao nível dos rins, que se estendia pelo meu lado esquerdo. Logo a seguir vieram umas quantas contracções que me levaram a deitar-me um pouco, ao lado da Rita, que não parecia querer acordar da sesta. A Sandra telefonou-me então, já nem sei bem porquê – parece que vive em estado de permanente premonição – mas não lhe dei conta do que sentia, por não o considerar relevante. Disse-lhe que estava só um bocadinho na ronha com a Rita, que não queria acordar – pode ser que depois deste parto tenha aprendido a avaliar melhor a relevância dos pequenos indícios… pode ser… A verdade é que o ligeiro incómodo das contracções se prolongou pela noite fora o que não me permitiu descansar convenientemente, embora me mantivesse calma e confiante num parto só para sexta-feira.

Como de costume, levantei-me por volta das 7h30 para fazer o almoço da Rita e preparar a lancheira e a roupa para a levar ao colégio. No banho, por volta das 8h30 chega a primeira evidência da relevância daquele dia: perdi o rolhão mucoso. Embora fosse para mim uma novidade, não tive dúvidas nenhumas do que se tratava – uma gelatina clara, transparente ou ligeiramente esbranquiçada, em quantidade razoável, que me preenchia a palma da mão. Estava à vista o resultado das contracções da noite, que, estranhamente, tinham passado por completo. A rotina prosseguiu: acordei a Rita, dei-lhe o biberão de leite e papa, vesti-a, levei-a a fazer xixi, escolhemos “os amigos” que iriam com ela à escola naquele dia, escondidos na mochila, vestimos casacos, pegámos na tralha e saímos. Como se tornara já hábito, lá fui recebida no colégio com um espantado “Ah! Ainda aqui anda?!”, para me obrigar a repetir: “Pois… quando deixar de andar é porque nasceu…”

Voltei a casa e entendi que era melhor deitar-me e tentar dormir um pouco, depois da noite desassossegada – embora as contracções tivessem parado, não sei porquê começava a digerir e assimilar como possível o nascimento para breve e aceitei, sem resistência, a necessidade de recuperar energia que dentro de pouco tempo me poderia ser útil… Deitei-me por volta das 10h00, sem conseguir dormir propriamente. Dormitei, apenas. Cerca de uma hora depois, praguejei para dentro um “Ai! Bolas! Não era para ser assim!…” – senti duas descargas de líquido involuntárias e em pequeno jacto. As águas! Só podia ser, pensava eu. Fui à casa de banho ver que aspecto teria. Era rosado claro. Lavei-me, estreei o pacotão de pensos king size comprados mais a pensar no pós-parto que naquela eventualidade. Nunca quis que o meu trabalho de parto tivesse início daquela forma. Se à ruptura de bolsa se seguissem verdadeiras contracções, tudo bem. O caso não me afligia nada. Mas temia que as contracções se fizessem esperar por muito tempo e que a necessidade de rumar à maternidade se impusesse. Eu sempre me disse preparada para ir para a maternidade, caso algum contratempo no trabalho de parto assim o exigisse. Estava preparada, portanto, para terminar o meu trabalho de parto num hospital. O que me custaria a aceitar era a possibilidade de lhe dar início em meio hospitalar. Acabar lá aceitava, começar é que não. Ainda recentemente o tinha comentado com a enfermeira e com a Sandra. A primeira tentou preparar-me para aceitar serenamente essa possibilidade. A Sandra, pelo contrário, julgava como pouco provável que viesse a passar por uma ruptura prematura de bolsa.

Por volta da uma da tarde telefonei ao Paulo, contando-lhe o que acontecera e sugerindo-lhe o regresso a casa, sem pressas, mas quando pudesse. Veio imediatamente. Quando chegou, fiquei com a sensação de estar eu mais calma que ele. Eu mantinha-me ocupada, como se nada tivesse acontecido, embora me entregasse a tarefas preparatórias de um parto iminente: estendi a roupa que a máquina já tinha lavado (porque sabia que não faltariam lençóis e toalhas ensanguentados para lavar brevemente); dispus no quarto, em duas banquinhas, todo o material que tinha organizado para o parto; montei o caixote do lixo de apoio; escondi o doce de abóbora que a minha mãe fez, mas que não consegui comer, não fosse vir a minha mãe ver o neto recém-nascido e dar com o doce recém-desprezado; lavei a banca da cozinha… enfim, ocupei-me. O Paulo dava algumas mostras de ansiedade, insistindo que ligasse à Sandra. Eu, embora calma, mantinha-me aborrecida na ausência de contracções. Às 14h30 liguei então à Sandra, fazendo o ponto da situação, e fiquei de voltar a dar notícias. A Sandra não estava nada crente num cenário de ruptura de bolsa. Para ela aquela perda pontual de líquido nada tinha a ver com isso, vinha simplesmente na sequência da libertação do rolhão mucoso, nada mais. Pouco depois liguei também à enfermeira. Da Sandra recordo o gritinho eufórico, do lado de lá, a alegria incontida, como se estivesse para começar a festa, como se nos preparássemos todos para um desfile de Carnaval tardio. Mas elas vieram, as contracções! E como vieram! Esperei mais uma hora, talvez, e eis que começo a senti-las, muito semelhantes ao que tivera durante a noite. Primeiro irregulares no tempo, depois certinhas: de seis em seis minutos, depois cinco, a seguir quatro… Fantástico! Às 15h30 liguei de novo à Sandra e pouco depois à enfermeira, a aproveitar um intervalo de quatro minutos. Continuavam felizes, em espírito festivo. Neste momento a dor obrigava-me já a uma respiração profunda, a fugir já muito ao meu ritmo normal, e procurava, numa estratégia de tentativas sucessivas, encontrar posições que me aliviassem o desconforto. Lembro-me que estar sentada era intolerável – uma tremenda pressão no ânus tornava ainda mais dolorosas as contracções. Tinha de estar de pé. Debruçava-me ligeiramente para a frente a cada contracção, ora apoiada à parede, ora apoiada na cómoda do quarto. Por volta das 16h00 o Paulo foi buscar a Rita ao colégio e a Sandra voltou a ligar. Combinámos que ela ia buscar a máquina fotográfica a casa e que, chegando lá, voltava a dizer alguma coisa. Vi-me dividida, hesitante – se, por um lado, queria que ela viesse com a máquina, porque a bateria da nossa estava a dar as últimas, por outro lado, sentia que podia estar a esticar demasiado a corda: um frio incontrolável tinha tomado conta de mim. Por esta altura dei início à evocação mental de todas as mães, presentes e ausentes, com as quais sentia naquele instante uma tremenda afinidade e nas quais procurei força e apoio – a minha própria mãe, as minhas avós, Maria, mãe de Cristo… Tão certa estava que tinham, todas elas, parido naquela mesma dor que eu sentia, que lhes pedi que me dessem a mão, que me dessem força, que olhassem por mim, elas que sabiam tão bem o que eu estava a passar e que o haviam superado tão bem, há anos, décadas, séculos, milhares de anos atrás. Os crentes dirão que rezei. Os ateus dirão que entrei em processo de regressão mental. A classificação é irrelevante. A verdade é que nunca senti medo ao longo do meu trabalho de parto, nem nos instantes em que estive aparentemente só. Tremia, mas de frio. Vesti o roupão e mantive-me de pé, com o aquecedor entalado entre as pernas, na tentativa de me reconfortar. Fui à sala buscar a bola de parto e ajoelhei-me, deitei o peito sobre a bola e balancei-me para a frente e para trás, braços ao abandono, caídos para a frente. Que bom! Que alívio! Cheguei a dormitar enquanto balançava. E fui assim alternando entre o aquecedor, em pé, e a bola, debruçada para a frente. Foi assim que a minha filha me veio encontrar, quando chegou do colégio. Minha querida! O cuidado com que me dava a mão, sem perguntas, sem exigências. Apertava-me a mão à medida das minhas necessidades. Como fazia ela aquilo? Como aprendeu, se eu não a orientei em nada?! – tomara eu conseguir orientar-me a mim naqueles instantes! – senti-a então como mais um elo na milenar cadeia de mulheres unidas pelo parto…

À Sandra tinha dito que fosse então a casa. Quando me voltou a ligar, às 17h00, eu já só pensava que cada contracção que passava era menos uma que tinha de enfrentar. Decidi então que queria suportar tudo o que tivesse de ser, numa perspectiva de cooperação com o meu corpo e com o meu filho. Foi nessa altura que percebi que a posição na bola, embora muito cómoda, era uma medalha de reverso menos conveniente: se era verdade que aquela posição me aliviava muitíssimo, não era menos verdade que os momentos que ali passava reclinada correspondiam a instantes de trabalho de parto em suspenso – não atrasava o processo, mas estacionava-o. Isto tornou-se para mim muito claro. De tal maneira que tomei a decisão de me disciplinar no uso da bola – optei por me manter na vertical o máximo tempo possível, tentando prever e auxiliar o caminho descendente do bebé. A partir deste momento foi tudo rapidíssimo. Já muito cansada por não me conseguir sentar e por estar permanentemente de pé, tive vontade de me deitar por uns instantes, na esperança de conseguir recuperar energia entre as contracções, que a esta altura aconteciam já de minuto em minuto. Perto das 18h00, deitada sobre o meu lado direito, à beirinha da cama, encontrava-me já em fase de transição. Tinha já iniciado uma espécie de voo – uma agitação de braços, que eu levantava ao ritmo das contracções e da respiração, para bater depois com eles contra as pernas, ou contra o Paulo, coitado. Coitado mesmo, que percebeu que as coisas se encaminhavam demasiado depressa para o seu desfecho e já se via a fazer o parto sozinho. Expliquei-lhe então como gostava que me massajasse – com as duas mãos, empurrando-me a bacia com força para baixo, a partir da zona lombar. Ai como esteve bem o meu homem! Que bom! Que alívio! Entendo perfeitamente que estivesse dorido, no dia seguinte! O Paulo ligou então à Sandra, que percebeu como as coisas tinham acelerado pelos gemidos de fundo que ouvia. Aliás, eu só comecei a gemer naquela altura e devo dizer que comecei a fazê-lo intencionalmente. Foi a forma que encontrei de comunicar com a Sandra – naquela altura sentia-me já noutra dimensão de onde não queria regressar, queria deixar-me ir, sentia-me no caminho certo. Falar obrigar-me-ia a retroceder no caminho que já tinha feito. De forma que gemi, simplesmente. Aquele gemido dizia “Vem depressa!” e eu sabia que a Sandra o entenderia à primeira. Entendeu, pois claro. Foi de quatro piscas ligados que a minha doula fez o resto do caminho até nossa casa, caminho infernal, àquela hora! – eixo Norte/Sul e Calçada de Carriche, com cheirinho de acidente e tudo!!! A Sandra ainda voltou a pegar no telemóvel para sugerir ao Paulo que eu me pusesse de gatas, inclinada com o rabo para o ar, na tentativa de conter as contracções. Mas qual quê!!! Quem é que me convencia a semelhante coisa?! Entretanto apercebi-me de que o Paulo falava com a enfermeira e tornou-se para mim claro que ela não chegaria a tempo. A minha calma e contenção sempre que falei ao telemóvel acabou por induzir em erro todos os que me acompanharam. Da mesma forma que aceitei imediatamente a ausência da enfermeira, também soube sempre que a Sandra estaria presente, eu sabia que sim. As contracções surgiam agora sem intervalo entre elas e eram de uma violência atroz! Ao invés de começarem brandamente e caminharem para um pico de dor, começavam com toda a força e tinham dois picos máximos em vez de um!

Ainda deitada, de lado, senti que talvez me tivesse sujado. Já no parto anterior tinha acontecido manter o intestino em limpeza ao longo de todo o período expulsivo, apesar do clister, que não serviu de nada. Desta vez não houve clister, claro, mas o intestino manteve-se a trabalhar quase até ele nascer. Não é nada conveniente, pois não… nada prático, mas enfim… Estava então cheia de calor, a transpirar. O Paulo ajudou-me a despir o roupão e a levantar, para ir até à casa de banho, sentar-me na sanita e limpar-me. Começa então a vontade INCONTROLÁVEL de fazer força. Lembro-me de ter dito mais tarde à Sandra que é muito mais difícil controlar esta vontade do que a dor. E é mesmo! Nos intervalos das contracções funcionava o intestino e eu aproveitava para me limpar (parecia que não havia papel higiénico que chegasse!); no decurso das contracções, apoiava-me nos braços do Paulo e fazia força. Tanta força! Ai como me estava a saber bem fazer força assim! Ai como era agradável aquela fase! Juro! Lembro-me de ter começado a sorrir para o Paulo nesta altura. Entendi tão bem quem diz sentir um prazer que ronda um orgasmo durante o parto. Ai que eu estive tão perto! Mais força e um ploc! – as águas! Tocou então a campainha. 18h15. SANDRA! Esta mulher não existe! Chegou e meteu logo mãos à obra. Sem perguntas, sem contextualizações, num ápice lá estava ela, diante de mim, panos molhados na testa, braços suportando os meus, respiração sincronizada com a minha e a pitada de humor: “Vais parir aí?” Sorri e disse-lhe que não, pouco convicta – como é que ia conseguir largar aquela sanita?! As contracções eram tão próximas, não dava tempo para nada! A Sandra perguntou-me se sentia a cabecinha do bebé cá em baixo, se tocasse com a mão. Experimentei senti-lo, mas não, ainda não sentia a cabeça, embora tivesse a certeza que estava mesmo ali. Mais uma contracção e disse feliz “Vai nascer!” Não se descreve o fenómeno avassalador de sentir um filho a atravessar-nos as entranhas! O ardor tremendo da cabeça coroando e a urgência de o pôr cá fora. Acho notável os relatos de parto em que as mães dizem ser capazes de controlar a esta altura o nascimento, por forma a evitar lacerações do períneo. Eu não consigo imaginar como é isso possível! Eu sentia-me tão bem fazendo força! Desejava tanto vê-lo que o fantasma da laceração ficou ínfimo e desapareceu… Queria lá saber se terminava esta aventura partida em duas! Eu só o queria cá fora! Voltei então a levar a mão cá a baixo e lá estava! A cabeça do meu menino! Toquei-lhe! “A cabecinha! A cabecinha! Está aqui! Sinto a cabecinha!” – disse. A Sandra saiu por instantes da casa de banho e eu, como quem mergulha de uma ponte, depois de contar até três, atirei-me ao chão e fiquei ali, de gatas. Quando a Sandra voltou só ouvi “Não, não… Assim não.” A casa de banho é um cubículo, mínimo, de facto ali não! Era impossível parir ali! Bem… impossível, impossível não seria, mas… Não sei como foi possível a Sandra arrastar-me dali para fora! Sem ela, nem uma grua me arrancaria dali! Fiz o caminho da casa de banho do quarto até à beira da cama sentindo a cabeça do Carlos entre as minhas pernas! Foi só o tempo de alcançar a cama. Fiquei numa posição de meio termo entre o de joelhos e de gatas, sobre a cama. Mais uma contracção e foi o dilúvio! Água por todo o lado, em cascata, e a cabeça dele cá fora! A Sandra, minha querida doula, que nunca havia de invadir o terreno das parteiras, ali estava para recebê-lo, sabiamente à espera da próxima contracção, que o trouxesse em definitivo ao mundo. O Paulo ainda hoje fala neste impressionante trabalho de espera. Na eternidade dos segundos que se seguiram, a Sandra ali ficou, diante daquela cabecinha inerte, arroxeada, já cá fora, à espera que a próxima contracção nos desse a conhecer um bebé de corpo inteiro. Esta mulher é assim, tem ainda este mérito, que me apetece chamar de dom da volatilidade – ela evapora-se, sabe evaporar-se, quando a sua intervenção passa a estar a mais. O Paulo ainda hoje não entende como foi que ela resistiu a segurar aquela cabeça, a auxiliar aquele corpinho no seu movimento de rotação… Nunca o fez! Esperou e assistiu ao extraordinário movimento do pequeno artista na sua chegada ao mundo. Só mais uma… PRONTO! Furioso, aos gritos, foi como ela o amparou, para o pousar logo sobre os lençóis. E foi mesmo logo – lá está, volátil de novo. Não cheguei a ver o meu filho nas mãos da Sandra, embora tenha sido ela a segurá-lo na saída e eu me tenha virado imediatamente para o ver. A minha doula nunca esteve em cena, quando o lugar não era seu. Não há medida que alcance o bom senso desta mulher! Eu, atónita: “Meu filho! Posso agarrá-lo? Meu filho!”  O quente, meu Deus! O cheiro! Aquele prolongamento de mim! O pai para a filha: “O maninho! É o maninho!” Ela também estupefacta. A Sandra mantinha-se apagada. Trouxe-a eu de novo à cena, quando lhe disse, toldada pelo efeito incontornável das hormonas: “Foi tão fácil!”  Quais hormonas, qual quê! Fácil, sim! Fácil, porque fácil, fácil é amar! E eu amei-o logo, com a mesma facilidade com que o seu cheiro se prendeu a mim. Amei-o ali, para sempre. Ali, eu e ele, imensos na nossa majestade. O resto do mundo reduzido à sua mais irrelevante insignificância. Foi preciso perguntar eu: “E a hora?! A que horas nasceu?!” Uma consulta rápida ao relógio não permitiu mais que uma estimativa. Convencionou-se as 18h35. E este pormenor diz tudo. Hoje deixo-o aqui para que a memória não nos traia nunca: O MEU FILHO DOMINOU O TEMPO, suplantou-o, abalroou-o naquele seu grito de “Deixem-me passar! Cheguei! Agora eu!”

Deste momento lembro-me muito bem de um pormenor que me pareceu tão bonito, doce, um acto de maravilhosa comunhão: de repente, sem acordo prévio, sem “Schiiiiiuuu!”, nem alertas codificados, toda a gente começou a sussurrar, nem os três anos da minha filha se evidenciavam, todos falávamos baixinho, de forma pausada, embora estivéssemos todos em estado de efervescente felicidade.

Foi neste ambiente, de templo sagrado em festa, que pela primeira vez ofereci a mama ao meu bebé, com alguma ansiedade, devo dizer, expectante, ensombrada pela experiência de amamentação mal sucedida há 3 anos atrás. Senti-me assim o mais humilde e receoso visitante do menino no presépio, aquele que vem com um queijinho, enquanto outros trazem ouro, incenso e mirra para ostentar… Mas o meu filho tratou logo de me reconhecer como o melhor dos presentes! Nunca mais quis largar a mama. Eu ali fiquei embevecida e, nem sei bem porquê, agradecida pela gratidão dele, tão claramente declarada no ritmo sôfrego daquelas bochechas.

A enfermeira chegou, entretanto… perdeu os gritos de conquista do mundo de um bebé ainda preso por um cordão ao ventre que foi seu… Ficou apenas com uma placenta por nascer e com a parte ingrata de um períneo lacerado para suturar. Eu, em tom de brincadeira, ainda lhe disse que não havia replay para ninguém. Foi tudo demasiado rápido, é verdade, mas também sem ansiedade latente, sem stress algum. Vimos este parto como mais um episódio – muito feliz, é certo – a preencher-nos o dia. Tanto que o Paulo, por exemplo, se manteve sempre com a roupa com que chegara do trabalho. Não teve tempo, preocupação, discernimento, nem vontade para seguir a sugestão da Sandra, quando, no seu espírito muito prático, ainda atirou para o ar um “Mas vocês não se querem pôr mais à vontade?…” Ele não lhe ligou nenhuma…minha querida doula… Enfim, apontamentos cómicos de um parto que não podia ser mais feliz.

Pode parecer absurdo, mas a separação definitiva custou-me, tanto que a adiei enquanto pude, mesmo depois da enfermeira chegar. Mas tinha de ser. O facto de ter sido o pai a cortar o cordão, acabou por tornar o acto menos invasivo e agressivo na minha cabeça. Com semelhante nostalgia observei a placenta, agora despejada num alguidar, de plástico, tão pouco digno para o valor que continha… Grande, pareceu-me enorme, ainda a libertar vida por todo o lado, ao rubro. Passados três dias deitámo-la fora, com grande pena nossa… tivesse eu um jardim, um quintal…

Logo após o nascimento chegámos a acreditar que este não teria deixado em mim marcas físicas dignas de reparo. No entanto, o banho que se seguiu mostrou-me logo o contrário – o ardor que senti, comparável a um banho de álcool sobre uma ferida aberta, mostrou-me logo que não escaparia ao trabalho de sutura. Levou bastante tempo. Não sei precisar quanto nem quantas voltas terá dado o fio. Na verdade, esqueci-me de querer saber. Quem é que se lembra de semelhantes miudezas, com um filho morno e húmido sobre o peito, coberto por uma toalha de praia sem serventia, choramingando enquanto não descobri que se queixava de um pezinho a descoberto? Quem é que sente dor, com uma doula como a minha à cabeceira, que me ia apertando a mão, compondo a almofada para me recostar e me dizia num beijo: “Grande mulher! Vai passar. Está quase.” (eu sei que foi isto que ela me disse, sem dizer nada)? O que são uns pontos? Nada.

A seguir sei que a casa continuou em movimento, com uma mãe que chegou para ver o neto, noite avançada; com feijoada a aquecer; com uma máquina de roupa a rodar frenética, para dar conta das marcas da nossa festa; com uma esfregona e panos cumprindo a mesma função… Mas dessa parte eu só suspeito. Dessa parte eu já não sei. A minha parte estava ali, colada a mim. Ali, os dois, temperaturas baralhando-se em processo de reconhecimento. Não me perguntem mais, que eu não sei de mais nada. A noite seguiu à minha frente.

Sandra, minha doula para toda a vida, este parto é teu, também teu, tanto teu como nosso. Sabes disso, não sabes? Sabes? Diz-me que sim, porque eu não tenho força suficiente para te apertar as mãos, junto ao peito, em agradecimento. Também tu passaste a fazer parte da cadeia de mulheres a quem sei que posso sempre pedir a mão.

Rita, muito obrigada pelo apoio, filha. Portaste-te tão bem! Ai! Aquela mãozinha que me deste!… Pena tenho eu dos teus tenros três anos… São só três anos, que me fazem recear pelo esquecimento do que passaste. Provavelmente esquecerás… mas a história fica sempre, para contar, aos dois, um dia…

Paulo, na intensidade dos acontecimentos, temo sempre estar a deixar-te para trás. Na força das tuas mãos, na resistência dos teus braços, no espaço que soubeste sempre reservar-me soube que não, não ficaste nunca para trás, soube-te sempre presente. Não to digo muitas vezes, hoje é preciso que fique escrito: obrigada.

2018-05-08T12:52:05+00:00