Rute, parto do André

“Tive o André a sorrir… estive calma, segura de mim e do que queria para ambos… queria ter um parto feliz e foi isso que consegui… “

Esta foi uma gravidez muito desejada e muito amada, eu e o Zé Miguel desejávamos ser papás há muito mais tempo, mas a vida nem sempre corre como queremos. No final do mês de Maio “deixámos” de tomar a pílula, pensando que “iríamos engravidar” lá para o verão mas logo no início de Julho “engravidámos”.

A grande notícia foi-nos dada no dia 12 de Agosto, depois de vários testes negativos e uma ecografia que não tinha mostrado nada.

Passei os nove meses de uma forma muito mágica, sem enjoos ou naúseas. Fiz questão de viver cada segundo desta gravidez intensamente e de uma forma muito apaixonada. Também fiz sempre questão de efectuar as melhores escolhas para mim, mas principalmente para o bebé que trazia dentro do meu ventre.

Li muito, pesquisei ainda mais… e inscrevi-me em várias listas de conversação sobre este tipo de assuntos.

À medida que a data do parto se aproximava e que eu ia lendo algumas das coisas que se iam escrevendo numa dessas listas, comecei a ficar deprimida porque apenas visualizava partos hospitalares nada humanizados.

Foi por algo que eu escrevi sobre a episiotomia e em como me iria sentir revoltada e violada caso ma fizessem, que a Doula Sandra Oliveira meteu conversa comigo e me disse apenas para eu ler o seu relato de parto, uma vez que tinha sido hospitalar e muito bonito.

Eu visitei o site www.BioNascimento.com, li o relato de parto e identifiquei-me muito com ele e com a força de vontade da Sandra. Como eu não conhecia alguns dos termos que ela utilizou (ex: puxar de lado) perguntei-lhe o que eram e em conversa disse-lhe que não tinha efectuado qualquer tipo de preparação para o parto, ao que ela se ofereceu para me dar algumas dicas sobre respiração.

Encontrámo-nos logo no dia seguinte, uma vez que estávamos a 30 de Março e a data prevista para o nascimento do André era 4 de Abril. O encontro foi maravilhoso, conversámos, aprendi muitas coisas e senti logo que a Sandra seria a pessoa certa para me acompanhar durante o parto.

9 de Abril de 2005 (o meu parto quase dava um filme de comédia… )

Sábado… acordei tarde… durante a manhã dei um jeito à casa, passei uma roupa a ferro e sambei… sim, eu gosto de ouvir música enquanto faço essas coisas e não resisti ao ritmo do samba! Estava muito bem disposta e queria passar toda essa energia positiva ao André.

O Zé Miguel foi trabalhar de manhã mas saía a tempo de vir ter comigo a casa para irmos almoçar com o resto da minha família paterna com o objectivo de comemorar o 82º aniversário do meu avô paterno.

Despachei-me e fiz questão de ficar muito bonita, pois algo me dizia que o meu filho ia nascer nesse dia… nesse dia também faria anos o meu bisavô (pai da minha avó paterna) faleceu há 4 anos, com 98… esse era por isso, um dia muito especial para mim porque apesar do meu bisa ser já na altura tetravô, dizia que só o seria de coração quando eu tivesse um filho… tenho muita pena que ele não possa conhecer o André apesar de sentir que será um dos seus Anjos da Guarda…

Durante a hora de almoço tive duas perdas de líquido, maiores do que as que vinha a ter desde a manhã do dia 7 e resolvi enviar uma mensagem à Sandra a contar o que estava a acontecer. Depois de almoço falei com ela ao telefone, falámos sobre as perdas de líquido, disse-lhe que às 16h30 ia fazer o CTG de rotina e que quando saísse lhe telefonava.

Às 16h30, acompanhada do meu marido e do meu irmão que se tinha apercebido das perdas de líquido, fui ao Hospital fazer o CTG, mas o mesmo só foi visto às 20h porque a médica de serviço, que por acaso era a minha, estava na sala de partos. Quando saí do Hospital o meu marido disse-me que a Sandra vinha a caminho e devia estar mesmo a chegar, disse-me que ela lhe tinha telefonado (eu tinha o telemóvel desligado) para saber como tinha corrido o CTG ao que ele lhe respondeu que achava que eu iria lá ficar, uma vez que eu nunca mais saía lá de dentro. Ao sentir que ele estava muito nervoso, a Sandra perguntou-lhe se ele precisava dela e ele… disse-lhe que sim.

A Sandra chegou por volta das 20h10 e eu disse-lhe que o Zé Miguel tinha exagerado e que apenas demorei aquele tempo todo porque a médica estava ocupada.

Para que a viagem da Sandra não fosse em vão ela propôs-nos fazermos uma caminhada ao que concordámos, até porque era algo que fazíamos diariamente nas últimas 2 semanas.

Viemos a casa mudar de roupa, fomos deixar o nosso carro junto aos deles, em frente à porta da maternidade, e por volta das 20h40 lá fomos os 4 andar… eu, o meu marido, a Sandra e o meu irmão.

Após estarmos a andar há 3 ou 4 minutos, senti a primeira contracção… veio do fundo da barriga e espalhou-se para os lados… pouco depois outra… e a Sandra disse-me “se te sentires melhor coloca-te de cócoras com as mãos dadas ao Miguel”… e assim fiz, fui andando sempre, e cada vez que sentia uma contracção baixava-me e agarrava-me ao meu marido.

Desde aí, que as contracções passaram a ser regulares e pouco espaçadas, no entanto continuámos a nossa caminhada.

Tivemos um momento muito engraçado… eu coloquei-me de cócoras, em plena baixa Setubalense, para me concentrar durante uma contracção e a Sandra pediu a uns rapazes para se calarem… lembro-me de um deles ter dito “cala-te, não vês que a senhora se está a sentir mal.”

Nenhum de nós fazia ideia de que o trabalho de parto se iria passar tão depressa.

O nosso objectivo era darmos apenas uma grande caminhada e depois irmos até minha casa para relaxar e efectuar alguns exercícios que pudessem de alguma forma ajudar o André na sua chegada.

Após duas horas de caminhada chegámos ao café onde iríamos tomar qualquer coisa para repormos as energias, eu tive de ir à casa de banho e aí senti uma contracção que me deixou com as pernas completamente dormentes… saí… fui ter com eles… na mesa fui incapaz de beber um único gole do Iced Tea que tinha pedido e senti mais duas contracções iguais à anterior. A Sandra perguntou-me se eu queria ir para casa, uma vez que lá estaria mais à vontade… poderia ouvir uma música para relaxar e fazer uns exercícios para ajudar o bebé a encaixar-se melhor. Eu disse-lhe que sim, mas senti uma outra contracção e já não fui capaz de sair do café pelo meu próprio pé. O meu irmão foi buscar o carro a pé e quando chegou tive de me apoiar no Zé Miguel e na Sandra para conseguir chegar até ele. Durante esse pequeno trajecto senti mais uma contracção e durante essa, uma vontade enorme de fazer cocó.

A Sandra apercebeu-se que eu já estava numa fase avançada do trabalho de parto e no carro perguntou-me se eu queria ir para o hospital, eu disse-lhe que sim e durante o caminho as contracções foram-se tornando mais intensas… dei por mim a fazer a respiração “do período expulsivo” e apercebi-me que a condução do meu irmão era quase de urgência.

Dei entrada no hospital por volta das 21h40, entrei para a sala de observações e ao fazer-me o toque a minha médica rebentou a bolsa de águas e disse-me “estás só com dois dedos de dilatação, mas com a bolsa rebentada já não te posso deixar sair”.

Aquela frase foi como um balde de água fria porque o meu objectivo era o de entrar com o máximo da dilatação feita… e cheguei mesmo a pensar se iria aguentar a restante dilatação sem epidural.

A minha médica sabia que eu queria um parto o mais natural possível e como as contracções eram de facto muito próximas disse para não me administrarem a oxitocina.

Fui para a sala de dilatação, colocaram-me na última cama da sala, uma vez que eu tinha pouca dilatação e iria demorar à partida muito tempo. A enfermeira ligou-me ao CTG e depois começou a preparar o soro, ao ver aquilo disse-lhe “Sra. Enfermeira, isso não é para mim, pois não? É que eu não vou levar oxitocina… a minha médica disse para não me administrarem nada.” Ao que ela me responde “Não? Mas isso… vou confirmar com a Dra….”… “Olhe Rute, o soro vou ter mesmo de colocar, apesar de não levar nenhum tipo de medicação… não sabemos quanto tempo irá estar em dilatação, o soro irá alimentá-la e se houver algum problema já está com a veia canalizada.”

Pouco depois apareceu uma outra enfermeira… com a qual tive uma conversa bastante divertida…

– “Rute, vais querer epidural, não é?”

– “Não.”

– “Não????”

– “Não.”

– “Mas não queres ao menos ler os papéis para tomar conhecimento?”

– “Não. Eu quero ter um parto o mais natural possível… é o melhor para mim e para o meu bebé… assim ele não vem “drogado”…”

– “Mas a epidural não faz nada ao bebé… estamos no século XXI, as mulheres não têm necessidade de sofrer… não queres ler o papel é que depois queres a epidural e eu não te a vou poder dar!”

– “Óptimo… assim atinjo sempre o meu objectivo.”

(claro que eu só tinha estas conversas entre contracções porque durante as mesmas passeava numa praia e as contracções eram apenas as ondas a bater na areia)

Durante esta conversa chegou a minha mãe que trabalha naquele hospital há quase 34 anos… quando soube quem eu era, a enfermeira, que conhece a minha mãe há imensos anos disse-lhe “a tua filha é louca… ela não vai aguentar e eu depois não posso fazer nada… estamos no século XXI, ela não precisa de sofrer para ter o filho.”

Eu só pensava “e quem falou em sofrer… eu vou sentir tudo, sim… vou sentir o meu filho nascer… quero viver o momento do seu nascimento da mesma forma como vivi toda a gravidez:  intensamente e apaixonada.”

No meio disto tudo eu continuava com as contracções que eram cada vez mais próximas e mais intensas… o meu corpo já fazia força para expulsar o bebé e eu a tentar controlar esse impulso.

A minha mãe apercebeu-se e disse à enfermeira “a minha filha não pode estar só com 2 dedos de dilatação… o CTG mostra as contracções muito próximas e ela já está com vontade de fazer força… faz-lhe o toque.”

Ela respondeu-lhe “ela entrou há muito pouco tempo, se não estiver com 2 está com 3…”

A minha mãe voltou a insistir: “faz-lhe o toque… eu conheço a minha filha, ela controla–se muito bem e já está a ficar “aflita” ela já está com mais dilatação…”

Ao fazer-me o toque a enfermeira diz: “ela já está com 7 dedos… vamos já para a sala de partos”.

Desligaram-me os fios do CTG e lá fui eu com um andar de “gueixa” mas muito acelerado, com o fio do soro completamente esticado e com a equipa médica e a minha mãe atrás de mim… Lembro-me que ia muito feliz por estar quase a conhecer o meu filho.

Ao chegar à sala de partos deitei-me na marquesa… a equipa preparou-se, chamaram o meu marido e a partir desse momento comecei a fazer força para que o André nascesse… não me recordo de dores nem de ali estar muito tempo, recordo-me apenas de fazer muita força… foi nesta altura que descobriram que eu tenho a vagina cepta e por isso é que a minha médica só sentiu os 2 dedos de dilatação (num canal) e a enfermeira sentiu 7 (no outro canal), ou seja, eu estava com 9 dedos de dilatação desde o inicio… lembro-me também de começar a ficar cansada porque devido a esse problema o André não conseguia descer, mas de repente… senti o meu filho nascer… foi uma sensação maravilhosa… um misto de sentimentos, de energias, sensações…

Colocaram-no em cima do meu ventre e o Zé Miguel fez as “honras” de cortar o cordão umbilical… a minha felicidade era extrema… puxei a bata para baixo de forma a destapar a zona do peito… queria sentir a pele do André junto à minha, mas a enfermeira não deixou, levou-o para dentro para ser limpo, pesado, medido, etc…

Tive o André a sorrir… estive calma, segura de mim e do que queria para ambos… queria ter um parto feliz e foi isso que consegui… estive feliz desde que soube que estava grávida e essa felicidade manteve-se durante todo o meu trabalho de parto.

O André nasceu às 23h39… finalmente pude ver o meu “feijãozinho”… foi assim que lhe chamei durante a gravidez…  sem recurso a Clister, Tricotomia, Oxitocina, Epidoral ou qualquer tipo de fármacos, como de resto era nosso objectivo desde o primeiro momento. Nasceu com APGAR 10/10, que significa que o bebé nasceu saudável e sem qualquer tipo de problemas.

O meu parto foi uma experiência maravilhosa, tão boa que não me importava de a repetir diariamente. Cada vez que recordo aqueles momentos fico com um sorriso de orelha-a-orelha. Tive um parto hospitalar, com uma equipa médica fantástica, a Sala de Partos sempre em média luz, o máximo silêncio possível e um grande respeito por mim, pelo André e pelos meus momentos de concentração.

Tendo em conta que tenho Útero Bicórneo e que na altura do parto descobriram também que tenho a Vagina Cepta, a Episiotomia era algo inevitável.

Antes de falar com a Sandra, imaginava a Episiotomia como algo horrendo e isso estava a fazer-me ponderar ter uma atitude intransigente no momento do parto.

No meu caso a Episiotomia foi a diferença entre um parto normal maravilhoso e uma Cesariana. Não me sinto revoltada nem violada, sinto-me sim uma mulher muito feliz e uma mãe muito orgulhosa.

2018-05-08T11:27:47+00:00