Relato do Pai – Zé Miguel, parto do André

“Foi o momento mais feliz da minha vida. Estava finalmente na companhia das duas pessoas que mais amo neste mundo: a Rute e agora o André.”

A gravidez da Rute correu sempre muito bem desde o início até à data do Parto. Que me lembre, apenas dois desejos: tostas mistas e caracóis (este último foi impossível de realizar dada a altura do ano em que estávamos). Ela apenas teve algumas náuseas mas sem vómitos.

Duas semanas antes do parto que estava previsto para o dia 4 de Abril, conhecemos a Sandra Oliveira através da lista de Doulas e depois de visitarmos o seu site combinámos um encontro em sua casa, para que a Rute aprendesse alguns truques a nível da respiração e posições a adoptar no momento do parto e durante as contracções, uma vez que ela não teve aulas de preparação para o parto, e conhecer o contexto hospitalar previamente ajuda. Nesse encontro conversámos muito sobre o trabalho das Doulas e verificámos que nos encontrávamos na mesma linha de como poderia ser o parto. Tenho de confessar que foi ao ler o depoimento do parto da Ritinha (a filha da Sandra) que desisti da ideia de um parto fisiológico em casa, por ser demasiado arriscado, visto a assistência para tal não existir no nosso país e por haver métodos que poderiam levar a um parto hospitalar com total ausência de fármacos. Desde esse dia a Rute ficou em contacto com a Sandra.

No dia 7 de Abril, a Rute começou a perder pequenas quantidades de líquido amniótico, pelo que resolveu telefonar à Sandra, que nos acalmou dizendo que perdas pequenas não seriam motivo para alarme, e que a Rute fosse controlando os movimentos do André, no entanto, sugeriu que, para ambos ficarmos totalmente tranquilos, no fim do dia tentássemos fazer um CTG, para comprovar que estava tudo bem, omitindo a perda de líquido, o que fizemos. Durante estes dias resolvemos andar cerca de uma hora por noite e fazer muito amor, ou seja, usar todos os métodos que pudessem desencadear o parto naturalmente, a fim de evitarmos a indução, uma vez que as 40 semanas já tinham passado.

No dia 9 fomos almoçar a Palmela para comemorar o aniversário do avô paterno da Rute e foi aí que as coisas evoluíram. Durante o almoço e enquanto estava sentada não podia fazer movimentos sem que tivesse perda de líquido, pelo que resolveu dar-me uma dica sorrindo, para que a família não se apercebesse e entrasse em pânico. A Rute telefonou à Sandra, contou-lhe o sucedido e alertou que depois de almoço iria ao hospital fazer outro CTG, uma vez que as perdas tendiam a aumentar.

Por volta das 15h dirigimo-nos à maternidade do Hospital São Bernardo (Setúbal) para fazer o CTG, mas desta vez não me deixaram acompanhar a Rute. Como tínhamos estado a “esconder” à Obstetra que ela vinha a perder líquido, resolvi convencer a Rute a contar-lhe. Perante este cenário e dado que ela já estava há tempo demais lá dentro, fiquei a pensar que era desta que ela já não saía da maternidade.

Por volta das 18h30 a Sandra telefona-me a perguntar como estavam as coisas e eu respondi que pensava que a Rute iria ficar internada devido à situação com o líquido amniótico, pelo que a Sandra me perguntou se eu queria que ela fosse ter comigo, ao que eu respondi que sim, pois assim me sentiria mais seguro.

Por volta das 20h a Rute sai finalmente da maternidade dizendo que estava tudo em ordem, que tinha apenas dois dedos de dilatação e que provavelmente ainda não seria nesse dia que o André nascia. Esse momento coincidiu com a chegada da Sandra ao hospital.

Então decidimos ir fazer uma caminhada, para que a vinda da Doula não fosse em vão. Fomos a casa buscar uns casacos, pôr calçado mais confortável e seguimos, nós os dois, a Sandra e o meu cunhado Ricardo, com os carros para o hospital que fica perto da baixa da cidade. Daí seguimos a pé para a Av. Luísa Todi onde iríamos parar para tomar café. Durante o caminho e logo que saímos do hospital, a Rute teve a sua primeira contracção. Todos parámos e começámos a sorrir. A caminhada estava a sortir efeito, a Sandra sugeriu que a Rute verificasse se a posição de cócoras, ajudaria durante a contracção. Foi a posição que a Rute, mesmo em plena rua adoptou, eu agachava-me em conjunto com ela, segurava-lhe as mãos, enquanto a Sandra apoiava-lhe as costas, e assim foi a Rute lidando com as contracções. Não sei precisar quantas contracções a Rute teve até chegarmos à avenida. Apenas me recordo da contracção em que estávamos em plena baixa e a Sandra pediu a uns miúdos que por ali andavam a fazer barulho, para fazerem silêncio.

Chegámos ao café na avenida e a Rute teve de ir à casa de banho. A Sandra começou a achar que aquela ida à casa-de-banho seria suspeita, no entanto a Rute insistia que estava bem, mas manifestou algum desconforto com o ambiente. Perante aquele cenário a Sandra perguntou à Rute se ela queria ir para casa, tomar um chá e ouvir uma música para relaxar enquanto podia fazer exercícios para ajudar o bebé a encaixar-se melhor. Ela respondeu-lhe que sim, mas uma contracção muito forte fez com que tivéssemos de ir buscar o carro, pois ela já não conseguia andar sozinha. O Ricardo foi rapidíssimo. Quando o Ricardo chegou com o carro tivemos de ajudar a Rute a andar até ele, e quando já estávamos próximos, ela teve outra contracção, baixou-se, a contracção passou e ela disse que estava com uma vontade enorme de fazer cocó. Esse era o sinal evidente que o André queria sair a qualquer momento.

Fomos imediatamente para o hospital. A Sandra foi atrás com a Rute e eu à frente, com o Ricardo a conduzir. A determinada altura a Rute começa espontaneamente a fazer a respiração superficial e rápida, como se já estivesse no período expulsivo. Acelerámos a marcha e chegámos rapidamente às urgências da maternidade.

A Rute entrou e eu e a Sandra ficámos à porta do gabinete da obstetra a ouvir o que se estava a passar. Ouvimos então a obstetra dizer: “ainda estás com dois dedos (depois verificou-se que não era verdade), mas como a bolsa agora já rebentou, não te posso deixar sair daqui”. Nesse momento pensei que os nossos objectivos não seriam alcançados, uma vez que com todas aquelas dores e tão pouca dilatação, o mais certo era a Rute pedir uma epídural, mas tal não veio a acontecer.

A certo momento, a mãe da Rute (que é telefonista lá no hospital e conhece os “cantos à casa”) apareceu e entrou para acompanhar a filha. A partir daí entrei numa pilha de nervos sem explicação. Como sabia que o hospital de Setúbal era conhecido por não deixar entrar os pais na sala de partos, fiquei com a sensação de que não poderia assistir ao nascimento do nosso filho (que era simplesmente a coisa que eu mais desejava).

Entrei pela maternidade e quando cheguei à sala de dilatação estavam a passar a Rute para a sala de partos, porque já estava com sete dedos de dilatação (dilatação essa que já trazia desde a viagem até à maternidade).Não me deixaram entrar logo. Fiquei à porta com a Sandra à espera que me deixassem entrar, mas não se passava nada. Entretanto começo a ouvir os gemidos da Rute como se já estivesse a fazer força para “expulsar” o André. Aí é que eu me comecei a passar. A Sandra lá me acalmou, mas ia sempre dizendo: “Ela já esta a ter… e não te deixam entrar? Isto é incrível…”. O facto é que, momentos depois, a parteira (Enf. Flores) saiu e disse: “O senhor é o pai?”. Eu respondi que sim e ela voltou: “Então a senhora se faz favor vai para a sala de espera, o senhor veste esta bata e vem comigo”. Fiquei em pulgas, mas muito mais descansado. Despedi-me da Sandra, ela desejou-me boa sorte, mandou um beijo para a Rute e saiu.

Quando cheguei à sala de parto, a Rute já estava deitada na marquesa, toda preparada para o nascimento do André (sabíamos que esta não era a posição ideal, mas enfim… estávamos finalmente juntos) Fui posicionar-me do seu lado esquerdo, de forma a apoiar-lhe as costas quando necessitasse de fazer força. Ao meu lado esquerdo estava a minha sogra. Do outro lado estava a Obstetra (Dr.ª Benilde Magalhães) e uma Enfermeira. À frente das “operações” (claro), a Parteira.

Não sei precisar quanto tempo estivemos na sala de parto, mas aquilo pareceu uma eternidade. A Rute (muito segura) esperava concentradamente pela chegada das contracções ao mesmo tempo que eu dizia “vamos, vamos, é agora”, como que a indicar a chegada da contracção. Nos intervalos entre as contracções a Rute pedia apenas que a deixassem descansar.

A dada altura, comecei a ouvir a parteira dizer para a obstetra: “É pena esta membrana (Vagina Cepta – problema que lhe foi diagnosticado no “toque” já na sala de dilatação), senão ele nascia já. Se não nascer na próxima temos de ir para o bloco”. Fiquei a pensar… Mau… tanto trabalho e agora vai uma cesariana? Para piorar as coisas a obstetra respondeu: “Se não sair desta pomos os fórceps ou a ventosa”. Aí é que fiquei em pânico. Já não chegava o receio da cesariana e agora a médica queria usar “ferros” para tirar o André. Como sou conhecedor dos efeitos dessas manobras no bebé, fiquei ainda mais assustado mas sempre confiante no trabalho dos profissionais que estavam naquela sala.

A parteira parou uns momentos e disse: “Não! Ela vai fazer muita força e é da próxima que ele sai!”. Fiquei mais descansado mas com receio de que o André não saísse ainda. A contracção veio, a Rute começou a fazer muita força, toda a gente começou a encorajar a mais força e… saiu. Foi lindo.

Foi o momento mais feliz da minha vida. Estava finalmente na companhia das duas pessoas que mais amo neste mundo: a Rute e agora o André.

No momento em que ele saiu e começou a chorar, eu chorei com ele de tanta emoção e de tanta felicidade pelo facto de o ter visto pela primeira vez e de ver que estava tudo bem com ele. Depois agarrei-me à Rute a chorar e a beijá-la de tanta felicidade. Estava tão concentrado neles, que nem me apercebi da Parteira a dar-me a tesoura para cortar o cordão. Enfim, lá “separei” o André da mãe. Foi também um grande momento para mim.

A Rute sempre transmitiu à sua Obstetra Dr.ª Benilde Magalhães como ela gostaria que fosse o seu parto, e a verdade é que ela felizmente também esteve presente e ajudou a que as suas vontades fossem respeitadas. Foi curioso presenciar o contentamento dos profissionais de saúde com o facto de a Rute estar decidida a não querer recorrer a qualquer tipo de fármaco e com a sua postura activa em todos os momentos.

Por tudo isto, acho que foi um parto simplesmente espectacular, tanto para a Rute (segundo ela) que não sofreu “nada”, o teve como quis, como para mim que não gostaria mesmo nada de ver os dois a sofrer.

A presença da Sandra foi muito especial, com a transmissão de conhecimentos à Rute (e a mim) sobre o parto hospitalar, passou a mensagem do que efectivamente seria bom que fosse diferente, mas transmitiu-nos que aquele não é o momento para conflitos, com o apoio que me deu na altura em que tudo parecia estar perdido e com o seu depoimento no Bionascimento sobre o seu próprio parto, pois foi aí que vimos que o parto não medicamentado em ambiente hospitalar não só era possível, como estava também muito nas nossas mãos.

2018-05-08T11:36:38+00:00