Paula, parto da Alice

“Mas tive a sorte de ter do meu lado duas mulheres muitos especiais, que fizeram sobretudo com que me sentisse calma e confiante. O meu muito obrigado à enf. Ana e à doula Sandra.”

Na sexta feira (19.05.06) fui fazer uma fluxometria, a Alice estava com P10. tinha deixado de crescer, e era necessário perceber o motivo – confirmou-se o percentil e o líquido amníotico estava a diminuir, estava no limite.

Nesse mesmo dia foi decidido que o melhor seria induzir – a Alice estava com boa vitalidade, mas seria preferível não correr riscos.

Entrei em pânico, chorei, sentia-me completamente ignorante, não sabia quais os procedimentos numa indução. .estava tudo cada vez mais fora do meu controlo.

Nessa noite, tive uma aula de preparação para o parto, a ultima e era teórica! Senti-me novamente com poder, segura.. se me tinha preparado tanto, agora só teria de adaptar essa preparação a outra realidade, à da indução.

No domingo de manha estaria um médico à minha espera, na maternidade, para provocar.. o que eu tinha imaginado ser o mais natural e animal possível..e lá estava eu! às nove da manhã, nesse domingo (21.05.06).. fiz mais uma ecografia e estavam de acordo com a indução. passei a outra sala para ser observada onde foi feito o toque.. para dar uma ajudinha!! para iniciar.. – segundo me pareceu a ‘bela’ ajuda foi descolar-me o rolhão, o que doeu. Alias nada me custava tanto quanto os toques.. especialmente quando era para dar uma ajudinha!

Tinha chegado a hora de ir negociando.. roupinha fora, e camisa do hospital no pêlo.

A minha primeira vitoria foi livrar-me do incómodo da raspagem, pois mesmo não tendo nada para tirar, há sempre quem queira lá passar com a gillete outra vez!

Do clister de rotina, não me livrei, e nem tentei.. Achei que era um pequeno espaço que ia ficar livre e que poderia servir para a Alice descer melhor..

Devia ser meio-dia quando me levaram para um quarto, fiquei ligada ao CTG e com soro. Passado algum tempo colocaram-me prostaglantina no colo do útero, fiquei horas a fio assim deitada à espera que algo acontecesse.

Depois das 18h começaram com a ocitocina – foram fazendo vários toques ao longo do dia, todos eles dolorosos.

Durante todo esse dia, precisei de utilizar a arrastadeira de 2h em 2h, por causa do soro. Eram um pouco stressante esses momentos: para além de todo o desconforto, esqueciam de trazer a arrastadeira, outras vezes de a vir buscar. Tinha que ser o meu companheiro, o Pedro a dar-me papel para me limpar – quando uma vez pedia à auxiliar papel, deu-me um penso e disse para o colocar!?

Nessa noite, ainda não tinha entrado em trabalho de parto. Tinham passado muitas horas em que estava deitada e sem comer (que era o que me tinha ocupado o pensamento o dia todo – e água, que não me deixavam beber), acharam que seria melhor desligar tudo, e ir para a enfermaria dormir. Comer e descansar essa noite para recomeçar a indução na manhã seguinte. Fiquei muito satisfeita com essas poucas horas de tranquilidade, longe do CTG. Dormi maravilhosamente bem, mais uma vez de barriga para baixo, como sempre tinha feito e que deixara de incomodar a minha pequenina logo de inicio.

Era segunda-feira (22.05.06), acordei tranquila e satisfeita – o pequeno-almoço devia estar a chegar, mas dava tempo para passar pelo duche antes de dar inicio a mais um dia de tortura!

Ia para me levantar, senti um liquido quente.. Levantei-me na mesma, mais um pouco desse liquido caiu no chão. a enfermeira mandou-me voltar para a cama, de seguida voltaram a fazer o toque e uma onda de liquido saiu de dentro de mim, estava com 2 dedos de dilatação.

Mudança de turno às 8h, e a sorte a sorrir-me!, a enfermeira Ana começava mais um dia de trabalho. Mal chegou deixo-me ir tomar banho. Depois lá voltaram o CTG e o soro.

À primeira contracção a enf. Ana percebeu que tinha feito preparação para o parto, conversamos sobre isso, – a técnica que me tinham ensinado baseava-se em dar oxigénio ao corpo e poupar energia, para isso em cada contracção não me mexia e respirava fundo. Com isso ela sabia que o melhor era nem falar para mim durante as contracções, não a iria ouvir muito menos responder. Nessas primeiras contracções percebi que só aquela técnica não ia chegar – precisava de me concentrar em alguma coisa , para me desconectrar da dor. Pensei num ponto fixo, mas sentia-me melhor de olhos fechados, então surgiu a ideia de uma imagem.. foram varias as opções, então lembrei-me de um sitio com tons de amarelo até ao castanho, algumas arvores, e um circulo feito com varias pedras enormes – tinha estado naquele lugar, em pelo alentejo, apenas uma vez mas o suficiente para ficar nítida na minha memoria. Tinha encontrado o meu ponto forte!

Ao contrario do dia anterior, não tinha fome, nem queria água.

Tinha sido o Pedro a passar o domingo comigo no quarto da urgência. e para além de me ter apercebido do cansaço dele, também sabia que não se sentia muito seguro para assistir a tudo aquilo. Então decidi comunicar com a Sandra, a doula que tinha conhecido durante a gravidez, para saber se estaria disponível para estar do meu lado naquele momento. Senti-me ainda mais tranquila por saber que no início da tarde a Sandra estaria ali comigo.

Com a visita da médica, a meio da manhã, voltei a ficar com ocitocina, – que é a única coisa que me arrependo de não ter recusado. e com um dedinho da enf. Ana, achou-se que poderia continuar na enfermaria, pelo menos até à tarde..

Também passou por lá um dos médicos que estava de serviço na urgência, – a enf. Ana referiu que eu pretendia fazer o período de expulsão na roda – ‘nem pensar! Isso é bonito mas é para aparecer na televisão’ – nem comento..

A manhã foi tranquila, com contracções, com a enf. Ana a falar comigo, ia explicando a mim e às outra grávidas do quarto o que estava a acontecer, o que se iria seguindo..

Às 14h voltaram a fazer o toque, continuava com 2 dedos de dilatação (tinham passado 6h!). Aproveitei aquele momento para pedir à enf., para desligar o CTG, e deixar-me ir à casa de banho – sempre era uma forma de andar um pouco – e sentia-me maravilhosamente bem aquando as contracções poder estar sentada na sanita!

No regresso da casa de banho, encontrei no corredor o Pedro e a Sandra. Tinha começado a hora das visitas. Falamos um pouco, e desceram para alguns familiares me verem.. Nessa altura tive duas contracções mais intensas, pensei: ‘agora sim vai começar!’. a Sandra e o Pedro voltaram a subir. a enf Ana tinha acabado o turno.

Tinha frio, voltava o calor, as contracções eram fortes. a nova enf. chegou quando estava com uma contracção – claro que nesse momento eu não falava, não ouvia, não via, tudo o que estava à minha volta deixava de existir! Não reagiu bem à minha atitude, mas também isso me passou ao lado. Acabei por lhe responder que as contracções eram cada vez mais fortes, por sua vez disse que aquilo não era nada, o CTG não estava a registar, e eu aparentemente continuava igual já que não me manifestava, quer dizer – não dizia nem ai nem ui. Meteu a ocitocina a correr mais depressa, mas com o jeitinho que dava à mão não corria mais por isso.

Voltei a desejar a sanita. Não me deixaram ir à casa de banho mas a vontade de voltar a fazer cócó (o que já tinha feito 2 vezes nessa tarde) era cada vez maior. Decidi pedir a arrastadeira, não que achasse ser capaz de o fazer ali, mas sentia-me mais tranquila.. o frio passou a tremores.. Em cada contracção mais dolorosa a Sandra ia-me esfregando a zona dos rins, ia colocando uma toalha molhada na cara quando o calor voltava. Fui pedindo para irem levantando a cabeceira da cama, fechamos as cortinas para estarmos um pouco mais à vontade, eles os 2 continuavam comigo, – estava quase sentada na cama, com a arrastadeira debaixo do rabo, nessa posição as contracções não me pareciam tão dolorosas. A vontade de fazer cócó incomodava-me.. como se não tivesse uma casa de banho por perto! e como o intervalo entre as contracções era vez menor, não me dava tempo para fazer força, e durante as contracções nem me atrevia, apesar da Sandra dizer para o fazer – era quase 18h. a enf. Foi ver como estava, voltou a dizer que ainda não era nada, que CTG não registava nada.. até que a Sandra lhe disse que tinha contracções cada vez com mais frequência, e que pareciam ser fortes. A enf. teimava que não podia ser, que o CTG ‘dizia’ que não havia contracções, então para nos convencer ou para se convencer decidiu fazer o toque (o único que não me doeu!)..

Durante a gravidez li muitos relatos de partos, e uma das ideias que me ficou era que as contracções era de tal maneira dolorosas que muitas mulheres pensavam que o trabalho de parto já estava muito avançado aquando lhes diziam que ainda estavam com 1, 2, 3 dedos de dilatação, o que era extremamente frustrante e causava algum desespero. Por isso enquanto a enf. ia calçando a luva.. estava a pensar que me ia dizer que estava com 3, no máximo 4 dedos de dilatação, iria perguntar-me se queria a epidural.. pensava.. ‘mas ainda não sei se quero! será que aguento muito mais??’, estava de tal maneira absorvida por estes pensamentos que nem ouvi o que a enf. dizia enquanto tirava a mão! – ‘acordei’ com um abraço e um beijo da Sandra a tempo de ouvir a enf. a pedir uma maca e a refilar ‘maldito CTG que não estava a registar, aqui não aparecia nada!’ virei-me para a Sandra para tentar perceber porque estava tão contente e a enf. tão lixada, – estava com 8 dedos de dilatação, a Alice estava quase a nascer!

Mudei o tipo de respiração, afinal a vontade de fazer cocó era a chegada do período expulsivo! Tive uma contracção quando estava a passar da cama para a maca, a minha imobilidade ainda deixou a enf. mais chateada!

Mais uma vez disse que queria ir para a roda. fui acompanhada, creio, por uma estagiaria, mais uma pessoa a que estou muito agradecida, pois foi de uma grande ajuda para conseguir ir para aquele quarto. Estava já na porta do quarto da roda, quando chega uma enf. que estava de serviço na urgência, e diz que não faz o parto na roda.. quando dei por mim, continuava na maca à porta do quarto, com varias pessoas ali à minha volta no corredor a dizer que não me faziam o parto, que o bebé era muito pequenino e se precisasse de ajuda não podiam usar nada ali (‘óptimo’, pensei), que ficavam com dores nas costas, que depois de lá estar sentada se houvesse problema já não me podiam tirar.. não sei como, mesmo assim fui sendo conduzida para dentro do quarto, e para a roda. Mal estava a sentar o meu rabino ouço uma voz a chegar à porta a dizer ‘não metam ai a sra!’, era o médico do ‘..isso é bonito é para aparecer na televisão!’), que quando me viu sentada virou costas e foi à sua vida.

Entrou um médico que aceitou fazer-me o parto (não são obrigados?? não fizeram um juramento??),. Quis fazer xixi, o que deixou uma enf.  atrapalhada, e a refilar, quase gritava, tentou entalar uma arrastadeira entre o meu rabo e o buraco! Da roda, claro que aquilo ia cair.. e lá uma auxiliar calçou uma luva e segurou a arrastadeira.

Tive uma contracção, fiz força, mas a respiração mal (foi a parte em que fiz batota na preparação). Olhei à minha volta: as portas totalmente abertas, cheias de gente, a parede à minha frente não a via, pois também estava tapada por pessoas, naquela sala havia enf., médicos, estagiários, mais de 10 pessoas a não fazer nada, fora os que estavam a trabalhar! Parecia que estava no circo. Mas enquanto umas pessoas continuavam contra tudo aquilo, havia também quem me piscasse o olho e sorrisse, sorrateiramente!

Tiraram da roda uma parte que me dava mais jeito para segurar, prenderam-me os pés em vez de me deixarem com eles pousados numa parte para esse efeito, não sabiam usar a roda, deram-me uma anestesia local, o médico fez-me uma episotomia – com um bebé tão pequenino, e após uma contracção no período expulsivo???! – mandou-me fazer força, perguntei porque não havia de esperar pela próxima contracção?!; na segunda contracção voltei a fazer mal a respiração, ‘calor’, a Sandra ia-me lembrando como se fazia a respiração, enquanto o medico dizia que se não fosse na seguinte iria me dar uma ajuda! ‘QuÊ?’; na terceira contracção só pensava ‘tem que sair..tem que sair..), ‘já vejo a cabeça’ disse a Sandra, olhei para a frente e tinha um leque – uma voluntária, que esteve também do meu lado naquela fase, tentava combater o calor que sentia. O médico perguntou quem ia segurar.. a Sandra respondeu a mãe.. eu..- a mãe, eu, éramos a mesma pessoa..o medico levantou a cria que acabava de ter, segurei-a pela barriga no meio das minhas pernas, estava escorregadia.. tinha medo de a deixar cair ou de apertar de mais e de lhe espetar as unhas, apertei!

Vi uns olhos enormes abertos, uma pele meio azulada com algumas coisas brancas, uma mancha vermelha entre as sobrancelhas invisíveis. O cordão foi cortado e puxei-a para a minha barriga, trouxeram uma toalha para a tampar, colocaram uma pulseira em cada uma de nós. Enquanto isso o médico ia fazendo a sua costura. E depois puxou pelo ‘gémeo’, a placenta. Quando acabou já tinham levado a minha pequenina, para fazerem não sei o quê.. para me tirarem da roda, foi um filme e daqueles bem ridículos, já que não sabiam como haviam de me passar da roda para a maca. E sabiam ainda menos utilizar o comando.. tanto que iam-me deitando ao chão! Mas tudo isto ia servindo para eu e a Sandra nos rirmos. Alias nunca pensei que um parto pudesse ser tão divertido.. de tão ridículo que era o que se passava à nossa volta. E ignorando a falta de respeito que existe para com a parturiente.

Mas tive a sorte de ter do meu lado duas mulheres muitos especiais, que fizeram sobretudo com que me sentisse calma e confiante. O meu muito obrigado à enf. Ana e à doula Sandra.

Esperei mais de 1h para voltar a ter a Alice nos meus braços.

2018-05-08T12:15:45+00:00