Luciana, parto da Luisa

“Eu, eu fiquei óptima, sem rasgões, com um períneo intacto, com uma fome de leão e uma disposição fantástica”

Este parto foi preparado conscientemente, com acompanhamento de profissionais, uma doula e uma enfermeira parteira, ao longo de toda a gravidez e nunca foi posta de parte a hipótese do trabalho de parto ter inicio em casa e poder terminar no hospital, contudo eu sempre me mentalizei de que seria capaz de dar á luz este filho o mais naturalmente possível dentro das minhas possibilidades físicas.

No dia 30 de Setembro acordei com algumas moinhas e contracções leves e irregulares, nada de novo, pois nesta gravidez desde muito cedo que tive contracções e dores no baixo-ventre. O dia decorreu sem alterações, saí à rua de tarde, fui às compras com a minha filha mais velha, fomos ao parque, fizemos biscoitos ao final da tarde e por volta das 19 horas tomei consciência de que as contracções não estavam assim tão irregulares como nos dias anteriores, mas continuei a fazer a minha vida normal, fui-me mantendo ocupada.

Deitei-me por volta da meia-noite, mas não conseguia dormir, não encontrava uma posição confortável, comecei então a controlar as contracções, com intervalos de 7/8 no máximo 10 minutos mas pouco intensas e assim continuaram durante toda a noite. Por volta das 4 da manhã enviei sms à Sandra, a minha doula, a informar a situação, liguei de seguida após resposta dela, confirmamos que estava realmente em trabalho de parto, ainda que no início. Fiquei de dar ponto da situação ao fim de uma hora, entretanto fui organizando a casa para o parto, dispus os materiais necessários, fiz gelatina, pus roupa a lavar, tomei o primeiro pequeno almoço do dia e voltei a ligar-lhe a conferir os intervalos das contracções que se mantinham iguais, mas com um pouco mais de intensidade. Ela pôs-se então a caminho e às 7:30 da manhã estava à minha porta. A minha filha mais velha que dormiu toda a noite, pareceu adivinhar que o dia prometia muita agitação e ainda não eram 8 da manhã já ela estava a pé, antes mesmo do pai sair para o trabalho, após a Sandra o tranquilizar quanto ao bom desenrolar do trabalho de parto, ele ainda fez meio dia de trabalho…

Ás nove da manhã chegava a minha querida enfermeira parteira, pronta a por mãos à obra, mas ainda estava demorado, eu sentia-me lindamente, com o mesmo ritmo de contracções, e a bebé também estava com um óptimo batimento cardíaco, durante toda a manhã falámos, rimos, vimos fotografias, brinquei com a Rita ao lego, comi, passeei por toda a casa, mantive-me sempre em movimento, fui adoptando posições que me facilitavam a suportar as contracções, usei um pouco a bola de parto, mas não me identifiquei com ela, não encontrei nela uma posição que me permitisse relaxar, sentia-me melhor na vertical, de joelhos, de gatas ou mesmo de cócoras durante as contracções e o balançar das ancas também me aliviava bastante. As massagens ainda que leves dadas pela minha filha Rita no fundo das costas faziam-se sentir também muito bem, mais psicológica do que fisicamente, via que ela estava a interagir com um grande à vontade e isso deixou-me tranquila e relaxada, não precisei preocupar-me com a minha pequena grande menina.

Por volta da hora de almoço, as contracções já estavam mais seguidas e mais intensas e exigiam de mim alguma concentração, então questionei-me da evolução do trabalho de parto e sugeri que me fosse feito um toque, pois não tinha noção através das contracções se estaria a evoluir rápida ou lentamente (consequência do 1.º parto induzido, em que a intensidade das contracções era muita, mas a dilatação não progredia da mesma forma), então muito delicadamente a enfermeira fez-me o único toque de toda esta gravidez e ficaram ambas muito satisfeitas, a dilatação estava a progredir muito bem, não percebi na altura que dilatação tinha, soube depois do parto que já tinha 5 dedos de dilatação, senti-me confiante para continuar, as dores eram suportáveis, tudo corria bem. Ainda vagueei mais um pouco pela casa quando a Sandra me sugeriu tomar um duche quente para relaxar e ajudar nas contracções. Assim fiz, entrei na banheira e com o chuveiro fui molhando as costas, a barriga e o resto do corpo, e o que isso me soube bem, ainda me soube melhor quando a enfermeira me segurou no chuveiro e me molhava durante as contracções, era bastante relaxante e eu podia concentrar-me na dor e sentir o meu corpo a trabalhar mas relaxadamente, sem inibições ou impedimentos. Estive assim algum tempo, não sei precisar, foram certamente uns largos minutos, suficientes para a Sandra me oferecer a possibilidade de se montar a piscina de parto, na qual eu poderia relaxar mais confortavelmente e encontrar posições mais confortáveis devido ao seu amplo espaço. Nunca tinha ponderado que o nascimento ocorresse dentro de água, era um cenário possível, como qualquer outro, contudo após a montagem da piscina e assim que pude entrar senti-me muito mais confortável, como um peixe na água, adoptei a posição debruçada no bordo da piscina, umas vezes de cócoras, outras de joelhos, mas sempre o mais vertical possível.

Foi assim que o Paulo me veio encontrar quando a Sandra o chamou eram umas duas e tal da tarde, soube-me muito bem ver o meu homem, deu-me a confiança e tranquilidade para continuar o meu trabalho de parto que estava já bastante avançado, pois nessa fase eu já gemia durante cada contracção, um gemido profundo e uma respiração bastante ofegante, deixei de controlar a vontade de exteriorizar através do som a dor que sentia, uma dor intensa, mas ao mesmo tempo uma dor de prazer, deixei que a dor me guiasse, descansava o que podia entre cada contracção e agarrava-me com força ás mãos ora do Paulo, ora da Sandra, ora da enfermeira durante a contracção e gemia intensamente…

Faltava no entanto a presença de uma pessoa para que eu pudesse dar á luz a minha filha, a minha irmã, a minha querida irmã, que eu sabia que estava sofrer em silêncio mais do que eu, mas que respeitou o meu espaço e foi apenas sabendo da evolução do trabalho de parto pelos sms da Sandra, a minha irmã que há dois anos atrás estava na mesma situação, mas com um desfecho diferente, num ambiente hospitalar… Chamei-a, durante as contracções falei para ela, inspirei-me nela, agarrei-me à sua força para suportar as dores finais do parto. Então a Sandra perguntou se queria que ela a chama-se, sim, sim fazia sentido, ela precisava de estar presente, eu precisava dela presente para me dar força nos momentos finais, e ela veio…

Estavam reunidas todas as condições para a Luísa vir ao mundo, então rebentou a bolsa, num “ploc” vi o liquido amniótico inundar a água da piscina e sorri, sorri bastante, como uma criança com um doce nas mãos, estava quase, mais umas contracções e senti a cabeça da minha filha, toquei na cabeça dela, consegui ter a percepção do caminho que lhe faltava percorrer dentro do meu corpo para nascer, mais umas contracções e a enorme vontade de fazer força e a cabeça dela cada vez mais próxima. Estava a arder, senti um ardor enorme e senti a minha filha a coroar nos meus lábios vaginais, está aqui, ela está aqui, que prazer enorme, calma ouvia eu dizer, com calma para não rasgar o períneo, espera pela próxima contracção, e assim fiz, inspirei e voltei a fazer força na contracção seguinte e na outra e noutra, e o ardor, sentia-me a queimar e gritei, gritei de dor, de prazer e a cabeça da Luísa apareceu, respirei fundo, mais uma forcinha e nasce, e assim foi, uma longa contracção e nasceu a Luísa, às quatro horas e três minutos, a chorar freneticamente, a enfermeira segurou nela enquanto eu recuperei o fôlego e me virei para agarrara minha filha, a minha filha perfeita, linda, coberta por uma camada de gordura branca!!!

Aconcheguei-a no meu peito e ela olhou para mim como que a confirmar a minha presença e agarrou-se a minha mama a chuchar intensamente e eu chorei, chorei, tinha conseguido, não acreditava, estava com a minha filha nos braços, na minha casa, sem recurso a instrumentalizações, sem recurso a fármacos, sem imposições, sem procedimentos rotineiros e desnecessários, sem caras estranhas, enfadonhas e cheias de pressa, só eu, a minha família e as pessoas que eu escolhi para me acompanharem!!!!!

A Rita que acompanhou todo o trabalho de parto ao meu lado, que viu a mana nascer, chorava agora, chorava de emoção do alto dos seus 4 anos…

Fiquei ainda dentro da piscina algum tempo para que a placenta nascesse também, o que demorou um pouco e só depois de sair da piscina e com a ajuda da enfermeira, saiu uma placenta inteira, perfeita e um cordão que a minha irmã teve a honra de cortar após ter terminado de pulsar.

Eu, eu fiquei óptima, sem rasgões, com um períneo intacto, com uma fome de leão e uma disposição fantástica, sem dores dignas de registo, num estado zen que demorou a passar e com uma vontade enorme de repetir a experiência, senti-me a mulher mais forte do mundo, capaz de ultrapassar qualquer obstáculo. Na manhã seguinte já estava levantada a fazer o meu pequeno-almoço, a arrumar a loiça na cozinha, fresca e com uma vontade enorme de abrir a janela e gritar ao mundo: Eu consegui!!!!!

Tenho que deixar aqui um agradecimento especial ao meu marido que acreditou em mim e na minha força, apesar de não se sentir a vontade, deu-me o seu voto de confiança e deixou que eu lhe mostra-se que era possível, que eu era capaz, obrigado meu amor, foi por isto e tudo o resto que és o homem da minha vida. Amo-te.

Á minha filha Rita, que quando souber ler vai perceber nestas palavras o quanto foi importante para mim tê-la ao meu lado, o quão importantes foram as suas massagens e a sua maturidade, apesar da sua tenra idade. Obrigado minha filha, és o amor da mãe. Amo-te muito, minha princesa!

Á minha irmã que me deu uma força extraordinária, nunca percebi pelo que passáste para dares á luz o teu filho até ter passado por este parto, foste a minha fonte de inspiração, mostraste-me sempre que eu era capaz, que nada era assim tão doloroso, que se tu conseguis-te fazer a parte mais difícil eu também o conseguia! Obrigado mana. Amo-te.

Á minha querida mãe, que sempre me apoiou na minha vontade, e respeitou a minha decisão, apesar de lá no fundo ter receios, nunca deixou transparecer uma palavra. Foste tu quem me gerou assim, quem fez de mim a mulher que sou hoje, quem deixou em mim marcas que me fizeram tomar as opções de vida que tenho tomado e das quais não me arrependo. Amo-te minha mãe.

A ti Sandra, a doula que eu não conhecia, mas que desde sempre foi a doula que eu escolhi para me acompanhar, uma mulher cheia de vida, com muito para ensinar, mas com uma humildade impressionante e uma entrega enorme, uma força da natureza, que não se sente mas está lá na altura certa, um fogo que arde sem se ver!!! Obrigado, estou eternamente agradecida por te cruzares no meu caminho, e não te quero perder o trilho nunca mais, estarás sempre presente na minha vida!

E a ti minha enfermeira parteira, a ti que com a tua simplicidade, serenidade e espontaneidade me conduziste num dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma mulher pura que me tranquilizou durante toda a gravidez e respeitou todos os meus pedidos durante o parto, sem nunca se fazer notar, sempre a acompanhar todos os momentos do trabalho de parto. Obrigado, nunca deixes de fazer o que mais gostas mesmo que tenhas que lutar contra ventos e marés!

A todas as poucas pessoas que respeitaram a nossa opção e que me apoiaram, o meu muito obrigado, a todas as pessoas que lutam diariamente pela humanização e pelo respeito e dignificação do parto e da mulher em Portugal nunca desistam!!!

2018-05-08T14:00:57+00:00