Células Estaminais: Guardar ou Deixar Chegar ao Bebé?

Quando se fala em criopreservação de células estaminais do cordão umbilical, a decisão é frequentemente apresentada de uma forma simples: guardar hoje poderá permitir tratar uma doença amanhã.

É uma possibilidade apelativa.

Mas há uma parte da informação que não pode ficar de fora desta decisão: o sangue que se pretende recolher não está simplesmente “guardado” numa placenta que deixou de ter função. No momento do nascimento, bebé, cordão e placenta ainda participam numa transição fisiológica em curso.

Por isso, antes de perguntarmos o que poderemos fazer com essas células no futuro, há uma pergunta anterior:

O que estamos a interromper no presente para as recolher?

Índice

  1. O nascimento não termina instantaneamente a circulação placentária
  2. E as células estaminais?
  3. O que acontece quando esperamos apenas 60 segundos?
  4. Então as organizações científicas recomendam guardar?
  5. Em vez de probabilidades, olhemos para o que aconteceu realmente
  6. “Mas não sabemos o que a medicina poderá fazer no futuro”
  7. A pergunta que falta fazer
  8. Conclusão
  9. Referências

1. O nascimento não termina instantaneamente a circulação placentária

Em 2026, o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) publicou o Scientific Impact Paper No. 78 — Care of the Newborn and Cord During the Third Stage of Labour.

A revisão parte precisamente da fisiologia.

Até ao nascimento, a oxigenação fetal depende da placenta. Com as primeiras respirações iniciam-se alterações profundas da circulação que permitem ao bebé passar progressivamente para a oxigenação pulmonar.

Mas essa mudança não acontece num instante.

O RCOG considera actualmente que existe muito pouca justificação para o clampeamento imediato do cordão, independentemente da idade gestacional, ressalvando naturalmente as situações clínicas específicas em que a condição da mulher ou do bebé possa justificar outra actuação.

O clampeamento não inicia a fisiologia do recém-nascido. Interrompe uma circulação que já existe enquanto outra se está a estabelecer.

2. E as células estaminais?

Também fazem parte desta transferência.

A própria American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) explica às famílias que esperar antes de clampear permite que sangue do cordão — incluindo ferro, anticorpos e células estaminais — continue a chegar ao bebé.

Portanto, quando falamos em recolher sangue do cordão para criopreservação, não estamos perante duas questões independentes — “clampeamento” de um lado e “células estaminais” do outro.

Existe necessariamente uma relação entre ambas.

3. O que acontece quando esperamos apenas 60 segundos?

A ACOG analisou especificamente o impacto do clampeamento diferido na possibilidade de recolher sangue para banco.

Num estudo realizado num banco público, a proporção de unidades que cumpriam os critérios iniciais para armazenamento foi:

Momento do clampeamento Unidades que cumpriam os critérios de armazenamento
Clampeamento imediato 39%
Clampeamento diferido 60 segundos 17%

A razão é simples: esperar reduz significativamente o volume de sangue e o número total de células nucleadas disponíveis para recolher.

Este dado é especialmente importante quando se afirma que é possível esperar 60 segundos e depois fazer a recolha.

Sim, é possível.

Mas isso não significa que os 60 segundos tornem a recolha fisiologicamente neutra.

Sessenta segundos são um intervalo de tempo. Não são o momento em que sabemos que terminou a participação da placenta na transição do bebé.

A própria ACOG conclui que, quando não existe uma indicação para doação dirigida, os benefícios para o bebé de receber volume sanguíneo adicional ao nascimento provavelmente ultrapassam os benefícios de armazenar esse volume para uma eventual utilização futura.

4. Então as organizações científicas recomendam guardar?

É fundamental distinguir duas situações muito diferentes.

Uma é a doação dirigida, quando já existe, por exemplo, um familiar com uma doença para a qual um transplante de células hematopoiéticas poderá estar indicado.

Outra é a criopreservação privada de rotina numa família saudável, guardando as células para a eventualidade de poderem vir a ser necessárias no futuro.

Entre as principais organizações científicas que consultei, não encontrei nenhuma que recomende esta segunda opção como prática de rotina.

  • A American Academy of Pediatrics (AAP), cuja posição sobre bancos de sangue do cordão foi reafirmada em Abril de 2026, privilegia a doação pública e reconhece circunstâncias específicas em que a doação familiar dirigida pode fazer sentido.
  • O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) considera que a recolha e armazenamento privados de rotina não são sustentados pela evidência disponível. Acrescenta que a recolha de sangue do cordão não deve comprometer os cuidados à mulher ou ao bebé nem alterar a prática de clampeamento diferido, salvo raras situações de indicação médica para doação dirigida.

Isto não significa que o sangue do cordão não tenha valor terapêutico. Tem. É utilizado no tratamento de determinadas doenças hematológicas, malignas, imunológicas, metabólicas e genéticas. A questão é outra: qual é a probabilidade de o sangue guardado por uma criança saudável vir efectivamente a ser utilizado por essa própria criança?

5. Em vez de probabilidades, olhemos para o que aconteceu realmente

A European Society for Blood and Marrow Transplantation (EBMT) — Sociedade Europeia de Transplantação de Sangue e Medula Óssea — publicou em 2026 os dados referentes aos transplantes realizados em 2024.

Indicador (EBMT, actividade de 2024) Valor
Transplantes de células hematopoiéticas (total) 47 204
Transplantes autólogos com sangue do próprio cordão 2
Crianças transplantadas (população pediátrica) 5 360
Procedimentos pediátricos com sangue do cordão como fonte 94 (91,5% de dadores não aparentados)
Crianças que receberam sangue do seu próprio cordão (autólogo pediátrico) 0

Ambos os transplantes autólogos com sangue do cordão ocorreram como segundo procedimento, e nenhum ocorreu na população pediátrica.

Entre os transplantes autólogos pediátricos: nenhuma criança recebeu sangue do seu próprio cordão.

Isto não demonstra que uma unidade privada nunca possa vir a ser utilizada. Demonstra algo diferente e mais rigoroso: na actividade clínica registada pela EBMT em 2024, a utilização do próprio sangue do cordão foi extraordinariamente rara.

6. “Mas não sabemos o que a medicina poderá fazer no futuro”

É verdade.

A investigação em medicina regenerativa continua e poderão surgir aplicações que hoje não existem.

Mas precisamente porque falamos de ciência, é necessário distinguir possibilidade futura de utilização de benefício clínico actualmente demonstrado.

A ACOG refere que não existe actualmente evidência que sustente a utilização autóloga do sangue do cordão em medicina regenerativa.

O futuro pode alterar o conhecimento. É assim que a medicina avança. Mas uma possibilidade futura não pode ser apresentada como se fosse uma indicação clínica presente. E muito menos sem explicar aquilo que a decisão implica no momento do nascimento.

7. A pergunta que falta fazer

Quando se propõe aos pais a criopreservação, é natural perguntar: “E se um dia o meu filho precisar destas células?” É uma pergunta legítima.

Mas deve ser acompanhada por outra:

Que razão temos hoje para interromper a circulação feto-placentária deste bebé para guardar uma parte do seu sangue para uma utilização futura que poderá nunca acontecer?

Não sabemos tudo sobre o futuro das células estaminais. Também continuamos a investigar muitos aspectos da transição fisiológica após o nascimento.

Sabemos que a circulação existe. Sabemos que o clampeamento a interrompe. Sabemos que esperar permite que mais sangue — e também células estaminais — chegue ao bebé. Sabemos que esperar reduz aquilo que fica disponível para recolher. E sabemos que a utilização autóloga observada na prática clínica actual é extremamente rara.

Não temos evidência de que interromper essa fisiologia para preservar células para uma eventual utilização futura produza, numa família saudável, um benefício que compense aquilo que decidimos não deixar chegar ao bebé no presente.

8. Conclusão

Quando escrevi Nascer Saudável, publicado em 2017, dediquei já uma parte do livro ao momento do corte do cordão e à necessidade de compreender o nascimento como uma transição, e não como um instante definido pelo relógio.

Quase dez anos depois, temos mais investigação, melhores meios para estudar esta circulação e novas revisões da evidência.

Quando mãe e bebé estão bem, porque precisamos de ter tanta pressa em interromper um processo fisiológico que ainda está a acontecer?

O essencial, para pais e profissionais:

  • O clampeamento interrompe uma circulação feto-placentária que ainda está a decorrer, não um processo já terminado
  • Esperar 60 segundos não torna a recolha fisiologicamente neutra — reduz o volume e as células nucleadas disponíveis para banco
  • Nenhuma das principais organizações científicas consultadas recomenda a criopreservação privada de rotina em famílias saudáveis
  • Nos dados de actividade da EBMT referentes a 2024, nenhuma criança recebeu sangue do seu próprio cordão num transplante autólogo pediátrico
  • Não existe actualmente evidência que sustente a utilização autóloga do sangue do cordão em medicina regenerativa
  • A doação dirigida (quando já existe indicação familiar concreta) é uma situação clínica distinta da criopreservação privada de rotina

Referências

American Academy of Pediatrics. Shearer, W. T., Lubin, B. H., Cairo, M. S., & Notarangelo, L. D. (2017). Cord blood banking for potential future transplantation. Pediatrics, 140(5), e20172695. https://doi.org/10.1542/peds.2017-2695 (Reafirmado em Abril de 2026)

American College of Obstetricians and Gynecologists. (2019). Committee Opinion No. 771: Umbilical cord blood banking. Obstetrics & Gynecology, 133(3), e249–e253. https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000003128

American College of Obstetricians and Gynecologists’ Committee on Obstetric Practice. (2020). Committee Opinion No. 814: Delayed umbilical cord clamping after birth. Obstetrics & Gynecology, 136(6), e100–e106. https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000004167

Greco, R., Sánchez-Ortega, I., et al. (2026). The 2024 EBMT activity report: Crossing one million HCTs and 20,000 CAR-T. Bone Marrow Transplantation, 61, 899–912. https://doi.org/10.1038/s41409-026-02919-9

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. (2026). Care of the newborn and cord during the third stage of labour (Scientific Impact Paper No. 78). RCOG.


Sandra Oliveira Doula e Autora do livro Nascer Saudável

NdA: Este texto foi elaborado por mim com  recurso à inteligência artificial.