1. Quando o Argumento Falha, Ataca-se a Pessoa

Existe uma experiência que quase todas as doulas e muitas mulheres grávidas conhecem bem: estar a apresentar uma questão legítima — um dado científico, um pedido de esclarecimento, uma recusa informada — e receber em resposta não uma análise do argumento, mas um ataque à pessoa que o apresentou.

“Não estudou 6 anos para poder questionar.”
“Leu isso na internet, claro.”
“Então quer parir sozinha em casa?”

Estas respostas têm nomes. São falácias lógicas: erros de raciocínio que desviam o debate da substância para terreno emocional ou hierárquico. As duas mais frequentes no contexto obstétrico são o ad hominem e a reductio ad absurdum. Conhecê-las não é um exercício filosófico — é uma forma de protecção, de clareza e de força.

1.1 O Que É Uma Falácia Lógica?

Uma falácia lógica é um erro de raciocínio que faz parecer válido um argumento que não o é. O engano pode ser involuntário — resultado de pensamento impreciso — ou deliberado, usado como estratégia retórica para ganhar uma discussão sem ter de a fundamentar. Em ambos os casos, o efeito é o mesmo: o argumento parece sólido, mas o seu interior é oco.

O estudo formal das falácias não é recente. Aristóteles catalogou-as nos Elencos Sofísticos — um texto do século IV a.C. dedicado precisamente a identificar as formas de parecer argumentar sem realmente o fazer. Séculos depois, continuamos a encontrá-las nos mesmos lugares: onde há poder a defender e questões a silenciar.

Existem dezenas de falácias catalogadas. Neste artigo focamo-nos nas duas mais frequentes no contexto obstétrico — ad hominem e reductio ad absurdum — porque são as que mais directamente servem para desqualificar quem pergunta em vez de responder ao que foi perguntado.

1.2 Literacia Crítica em Saúde

Os três níveis de Nutbeam

Nutbeam, um dos autores de referência na literacia para a saúde, distingue três níveis: funcional, que permite receber e compreender informação; comunicacional, que permite interagir e aplicar essa informação; e crítica, que permite analisar a informação, questionar as suas origens e agir sobre as estruturas de poder que a condicionam.(1) Identificar uma falácia lógica quando ela é usada contra nós é, exactamente, o que distingue a literacia funcional da literacia crítica: não basta receber informação — é preciso reconhecer quando ela é substituída por uma manobra de poder.

Porque vivo isto como doula, activista e mulher, seja na vida real, seja nas redes sociais, decidi perceber melhor a conduta. Escrevo este artigo como um exercício sobre o que são estas falácias, como funcionam, como se manifestam especificamente na relação entre profissionais de saúde, doulas e mulheres, e como responder a elas com assertividade.


2. Ad Hominem: Atacar Quem Fala para Não Responder ao que Foi Dito

2.1 Origem e Definição

Ad hominem é uma expressão latina que significa, literalmente, “contra a pessoa”. Em lógica e retórica, descreve um tipo de argumento falacioso em que, em vez de se refutar a tese apresentada pelos seus próprios méritos ou deméritos, se ataca a credibilidade, o carácter, os interesses ou a identidade de quem a defende.(2)

A validade de um argumento é independente de quem o apresenta. Um dado científico verdadeiro não deixa de o ser porque é citado por alguém sem título académico. Uma pergunta legítima não perde pertinência por ser feita por alguém fora do sistema institucional.

2.2 As Variantes Mais Comuns

Ad hominem directo

O mais simples: desqualificar a pessoa para evitar o debate.

▮ Exemplo

O que se ouve: “Não é médica, não tem formação clínica, não tens autoridade para questionar.”

O que está a acontecer: O papel da doula — que nunca foi clínico, mas de suporte contínuo e informação — é confundido deliberadamente com uma função médica, para que a ausência do título a invalide. A evidência Cochrane demonstra os benefícios do suporte contínuo independentemente da formação clínica de quem o presta.(3)

Ad hominem circunstancial

A motivação ou o interesse presumido da pessoa é usado para invalidar o que diz.

▮ Exemplo

O que se ouve: “Claro que diz isso — vive disso, interessa-lhe.”

O que está a acontecer: O argumento comercial substitui a análise dos dados. Mas pelo mesmo raciocínio, qualquer profissional de saúde remunerado poderia ser igualmente desqualificado. O critério não é aplicado com consistência — o que revela que a sua função é retórica, não lógica.

Tu quoque — “tu também”

Desacreditar alguém pela suposta inconsistência entre o que diz e o que faz.

▮ Exemplo

O que se ouve: “Ela própria fez uma cesariana, portanto não pode falar em parto natural.”

O que está a acontecer: A experiência pessoal de uma profissional é usada para minar a sua autoridade informativa. A cesariana de uma doula não invalida os dados epidemiológicos que ela cita, da mesma forma que um cardiologista que fumou não invalida o que sabe sobre tabagismo.

Apelo ao estatuto — a hierarquia como argumento

Uma das formas mais institucionalizadas de ad hominem no contexto da saúde.

▮ Exemplo

O que se ouve: “Quem és tu para questionar o protocolo? Nós estudámos anos para isto.”

O que está a acontecer: A hierarquia académica e institucional é invocada não como argumento, mas como substituto do argumento. Esta variante é particularmente eficaz para silenciar mulheres, que são frequentemente tratadas como destituídas de autoridade epistémica sobre os seus próprios corpos e processos.(4)


3. Reductio ad Absurdum: Da Ferramenta Filosófica à Arma Retórica

3.1 A Versão Legítima — Um Instrumento de Rigor

Reductio ad absurdum significa “redução ao absurdo”. Na sua forma legítima, é uma das ferramentas mais antigas e poderosas do raciocínio crítico. Consiste em levar um argumento às suas conclusões lógicas extremas para demonstrar que ele produz uma contradição ou um resultado impossível — invalidando assim a premissa de partida.

Euclides usou-a para provar a infinidade dos números primos. Sócrates usava-a constantemente nos seus diálogos para expor as incoerências dos seus interlocutores.

“Se toda a gravidez exigisse intervenção médica activa, então a espécie humana não teria sobrevivido os últimos 200 000 anos sem obstetrícia. A gravidez é fisiologicamente um processo de saúde, não de doença.”

3.2 A Versão Falaciosa — O Homem de Palha

O problema ocorre quando a reductio ad absurdum deixa de partir do argumento real do interlocutor e começa a partir de uma versão deliberadamente distorcida e exagerada desse argumento. A isso chama-se, tecnicamente, a falácia do homem de palha (straw man): constrói-se um boneco de papel — uma caricatura facilmente destruível — e destrói-se essa caricatura em vez do argumento original.

▮ Homem de palha obstétrico

O que se ouve: “Então quer dizer que as mulheres devem parir todas em casa sem qualquer apoio médico?”

O argumento original era: “A episiotomia de rotina não tem suporte na evidência para mulheres de baixo risco.”(5) A distorção é deliberada: serve para tornar o argumentante defensivo, forçando-o a justificar uma posição que nunca adoptou.

Outros exemplos frequentes do homem de palha obstétrico

  • Original: “A indução electiva antes das 39 semanas tem riscos documentados.” → Distorção: “Então é contra a indução mesmo quando salva vidas?”
  • Original: “O contacto pele-a-pele imediato após o parto tem benefícios documentados.” → Distorção: “E se a criança precisar de reanimação? Deixamos morrer por causa do bonding?”
  • Original: “A mulher tem o direito de recusar qualquer procedimento.” → Distorção: “Quer dizer que a mulher decide tudo e o médico não serve para nada?”

Em todos estes casos, o mecanismo é o mesmo: substituir o argumento real por uma versão absurda, para que pareça que quem o apresenta é radical, irresponsável ou ignorante.


4. Por Que Isto Não É Ingénuo

Seria reconfortante pensar que estas falácias são simplesmente erros de raciocínio — lapsos lógicos inconscientes cometidos em momentos de pressão. Mas a sua regularidade e consistência nos contextos de poder sugerem algo diferente.

Ad hominem e homem de palha são instrumentos de manutenção de hierarquias. No contexto do sistema de saúde materno, servem funções precisas:

  • Silenciar mulheres que questionam procedimentos sem ter título médico, tratando o conhecimento experiencial e a literacia em saúde como ilegítimos.
  • Deslegitimar activistas, doulas e outros cidadãos/profissionais de suporte que, por não serem clínicos, representam uma ameaça à hegemonia do modelo biomédico.
  • Impedir o consentimento informado real: se a pessoa que questiona pode ser facilmente desqualificada, o debate sobre o procedimento em si nunca acontece.
  • Perpetuar a violência obstétrica: o silenciamento é identificado como uma das formas mais comuns de violência institucional durante o parto.(4)

Literacia crítica bloqueada

Na tipologia de Nutbeam,(1) estas falácias operam como barreiras estruturais que mantêm as mulheres bloqueadas no nível funcional da literacia em saúde: recebem informação, mas não lhes é permitido analisá-la, questioná-la ou agir com base nela. Sempre que uma mulher começa a transitar para o nível crítico — quando questiona um protocolo, pede evidência, recusa um procedimento — a falácia é o mecanismo que a empurra de volta. Não é um acidente. É uma função.

Reconhecer estas falácias — e nomeá-las — é, portanto, um acto de clareza. A clareza argumentativa é uma precondição do consentimento informado, e o consentimento informado é uma precondição da autonomia.


5. Como Responder — Três Passos Práticos

A eficácia da resposta a uma falácia depende de três movimentos, que podem ser feitos em segundos, mesmo em contextos de tensão:

Passo 1 — Nomeia

Dar nome à falácia, sem agressividade mas com precisão, retira-lhe imediatamente força. Quem a usou fica exposto ao seu próprio raciocínio.

“Isso é um argumento ad hominem. Estás a atacar a minha posição, não os dados que apresentei.”

“Isso é um homem de palha. Nunca disse isso — o que disse foi outra coisa.”

Passo 2 — Separa

Separar claramente a pessoa do argumento, para que fique evidente que o debate é sobre substância, não sobre identidade ou credenciais.

“A questão não sou eu. A questão são os dados. Vamos focar-nos nisso.”

“A minha formação ou os meus interesses não tornam os estudos que cito verdadeiros ou falsos. As referências valem pelo que demonstram.”

Passo 3 — Redirige

Redirigir activamente a conversa para a substância do argumento, formulando uma pergunta directa que exija uma resposta de conteúdo.

“Qual é a evidência para esta prática em mulheres de baixo risco?”

“Qual é a taxa de sucesso e quais são os riscos documentados?”

“As organizações internacionais de obstetrícia e a Cochrane recomendam o quê sobre isto, especificamente?”

Este terceiro passo é o mais importante: não deixa o interlocutor sair do debate pela tangente. Exige resposta de conteúdo.


6. Conhecer o Nome das Coisas

Existe uma força especial em conhecer o nome exacto das coisas. Quando uma mulher grávida consegue dizer “isso que estás a fazer é um ad hominem” — e não apenas sentir que algo está errado mas não saber nomear o quê — a dinâmica da conversa muda.

Quando uma doula consegue identificar em tempo real o homem de palha que está a ser construído contra ela, e devolver ao interlocutor o argumento real que apresentou, retoma o controlo do debate.

Não se trata de ganhar discussões. Trata-se de não deixar que o debate seja desviado para terreno que serve a quem tem interesse em que ele não aconteça. Trata-se de proteger o espaço em que o consentimento informado pode efectivamente existir.

Isto é o que Nutbeam(1) designa por literacia crítica em saúde na sua expressão mais concreta: não a capacidade de ler uma bula ou seguir instruções, mas a capacidade de analisar informação, identificar os interesses que a estruturam e agir com base nessa análise. Para as mulheres grávidas, no contexto do parto, por exemplo, essa capacidade não é um luxo intelectual — é uma condição de segurança.

A conscientização — no sentido que Freire lhe deu(6) — começa por aqui: pela capacidade de nomear o que nos é feito, de o reconhecer como estrutura e não como destino, e de lhe responder com a clareza que ele tentou impossibilitar. A literacia crítica e a conscientização não são conceitos paralelos — são o mesmo movimento descrito em linguagens diferentes: o movimento de quem passou a ver.


Sandra Oliveira
Doula
Autora do Livro Nascer Saudável

NdA: Este texto foi escrito por mim, com  recurso à inteligência artificial. 

Referências

1. Nutbeam D. Health literacy as a public health goal: a challenge for contemporary health education and communication strategies into the 21st century. Health Promot Int. 2000;15(3):259–267.

2. Walton DN. Ad Hominem Arguments. Tuscaloosa: University of Alabama Press; 1998.

3. Bohren MA, Hofmeyr GJ, Sakala C, Fukuzawa RK, Cuthbert A. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database Syst Rev. 2017;7:CD003766.

4. Freedman LP, Ramsey K, Abuya T, Bellows B, Ndwiga C, Warren CE, et al. Defining disrespect and abuse of women in childbirth: a research, policy and rights agenda. Bull World Health Organ. 2014;92(12):915–917.

5. Carroli G, Mignini L. Episiotomy for vaginal birth. Cochrane Database Syst Rev. 2009;1:CD000081.

6. Freire P. Pedagogy of the Oppressed. Nova Iorque: Herder and Herder; 1970.

7. Organização Mundial de Saúde. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Genebra: OMS; 2018.