(Relato de Catarina, publicado com autorização. Texto revisto para publicação, mantendo a voz da autora e ajustando alguns pontos de rigor técnico.)

Perda Gestacional: o Relato da Catarina

27 de Fevereiro, 8h30 da manhã

Fui à consulta de enfermagem e, até então, tudo estava a correr lindamente. Nada fazia prever o que estava prestes a acontecer.

Quando me dirigi para o consultório número 12, disse ao meu marido: “Não tenho boas recordações deste consultório.” Mal sabia eu o que ainda vinha por aí.

A consulta começou. A médica era uma pessoa mais fechada, mas sempre respeitosa — parecia simplesmente ser a forma de ser dela. Passámos então para a ecografia. Nesse momento, ela colocou a mão no meu joelho e disse as palavras que não queremos ouvir:

“Não tenho boas notícias para si. Não ouço nem vejo batimentos do bebé. Vou chamar uma colega para confirmar.”

Naquele instante, o mundo desabou.

O meu marido estava no mesmo consultório. Ele passou a cortina e abraçou-me. Ficámos os dois ali, perdidos, abraçados um ao outro, sem saber o que dizer, sem saber como reagir.

Ao sair do consultório, ainda ouvi no corredor uma frase que me marcou profundamente:

“Alegria de uns, tristeza de outros.”

Saí do hospital em choque. A revolta tomou conta de mim. Encostei-me à parede do edifício, chorei e gritei. O meu marido abraçou-me e fomos para o carro. Eu não queria acreditar no que estava a acontecer.

Felizmente, não cometi o erro de esconder o que se passava da família mais próxima. Fizemos o telefonema e fomos para casa deles. Lá, partilharam a dor connosco. Abraçámo-nos, chorámos juntos e deram-nos colo num dos momentos mais difíceis das nossas vidas.

Mais tarde percebi que a médica queria que eu começasse logo a medicação para provocar a expulsão. Felizmente, o meu marido disse que não. Naquele momento, nós ainda nem sequer tínhamos conseguido assimilar a notícia — quanto mais tomar decisões tão imediatas.

Hoje sinto que isso não deveria ter acontecido dessa forma. Falta, muitas vezes, sensibilidade para lidar com situações como esta. Em vez de colocarem logo a questão da medicação, poderia ter existido outro tipo de abordagem: explicar com calma, dar tempo para respirar, dizer algo como:

“Temos ali um gabinete onde podem sentar-se um pouco. Temos também este folheto com informação. Quando se sentirem preparados, falamos sobre os próximos passos.”

Mas isso não aconteceu. Não houve apoio psicológico. Não houve um folheto informativo. Não houve praticamente orientação nenhuma para um momento tão difícil.

A lição que tiro desta experiência é clara: nunca devemos ir sozinhas a uma consulta. Nunca sabemos o que pode acontecer e, em momentos como estes, ter alguém ao nosso lado faz toda a diferença.

Uma vez que recusámos iniciar a medicação naquele momento, a médica informou-nos que estaria de serviço na quarta-feira seguinte para proceder ao protocolo medicamentoso. Felizmente, falei com a minha médica do privado, que trabalha nesse mesmo hospital, e ela explicou-me como poderia ser o procedimento.

Fiquei apreensiva quando percebi que a proposta seria iniciar 800 microgramas de misoprostol por via vaginal e repetir nova dose de 800 microgramas seis horas depois. Como tive uma cesariana anterior, fiquei com receio e com dúvidas sobre a forma como esse factor seria considerado no protocolo.

Mais tarde percebi, com a ajuda da minha doula, que o risco associado a uma cesariana anterior nesta fase da gravidez é considerado muito baixo, mas não é zero. Para mim, precisava de sentir que essa informação era tida em conta e explicada.

Foi então que falei com a minha doula. É muito importante termos alguém connosco que saiba, que estude e que pesquise. Disse-lhe que queria que ela viesse comigo. Sentia-me perdida. Tentei informar-me e pesquisar, mas a minha cabeça já não conseguia processar tudo, por isso pedi a ajuda dela. Confio totalmente nela e no trabalho que faz, na experiência, nos estudos e na pesquisa constante.

Depois de analisar tudo, decidimos ir para outro hospital. Fomos para um hospital que é amigo da mulher e do bebé. A forma como lidam com este tipo de situações foi completamente diferente: a abordagem foi clara, sensível e muito mais tranquila.

Ter uma doula comigo num momento tão difícil da minha vida fez toda a diferença. O cuidado emocional e físico, o apoio contínuo, a escuta, a disponibilidade total e o acolhimento trouxeram conforto num período de enorme dor. Tudo foi vivido com respeito e dignidade.

Quando uma mulher passa por uma perda, muitas vezes não tem sequer cabeça para responder, decidir ou falar. A minha doula esteve ali para apoiar, orientar e ajudar a encaminhar todo o processo. A presença dela fez-nos sentir que não estivemos sozinhos. Ela criou um espaço seguro, ofereceu o seu apoio constante desde o início, durante todo o processo e também depois, ajudando-nos a atravessar o caminho do luto.

Ela não substituiu ninguém. Foi sim o complemento que eu e o meu marido precisávamos.

Chegámos à Póvoa e fomos a uma primeira consulta. Fomos recebidos num pequeno consultório onde estavam quatro médicas e algumas enfermeiras. Os meus dois acompanhantes não foram recusados e acabámos por estar sete pessoas naquele espaço tão pequeno.

Esclareceram algumas coisas, embora não tenham conseguido explicar bem quais seriam as expectativas do processo relativamente ao tempo. Explicaram que eu iria tomar um comprimido que faria com que as hormonas da gravidez começassem a diminuir e que os tecidos no interior do útero ficariam mais moles e começariam a descolar, preparando o útero para o processo seguinte.

24 horas depois fiz a toma do misoprostol, 800 microgramas por via oral e não vaginal como é “normal”.

Cerca de 1 hora e 20 minutos depois acabei por vomitar. Apesar de alguns sintomas gerais, não senti que o processo tivesse realmente começado. Não houve sangramento, nem contracções, nem evolução clara naquele dia.

Na minha cabeça só havia um pensamento: eu queria ver o fim daquele episódio da minha vida. O sofrimento era incalculável. A minha mente não parava. O medo e o desconhecido transformaram-se num monstro na minha cabeça que não me ajudava a pensar nem a tomar decisões. Eu só queria que tudo terminasse.

A espera parecia interminável. Decidimos voltar ao hospital. Eu estava num estado de ansiedade enorme, repetindo apenas: “quero o fim disto”.

Fui recebida por uma médica que foi insensível. Senti que talvez estivesse a trabalhar no local errado, porque aquele espaço tem uma essência de cuidado e humanidade que ela não demonstrou.

Não satisfeitos com a situação, voltámos novamente ao hospital já numa troca de turno. Aí tudo foi diferente. Fui esclarecida, bem recebida e sentiram a minha situação com sensibilidade. Tiraram as dúvidas que eu tinha, explicaram as expectativas e falaram das diferentes opções no processo.

A médica que me atendeu disse que, numa situação como a minha, faria exactamente o que me tinham feito. Mas explicou também que, se após 48 horas nada acontecesse, poderia repetir-se a administração de 800 microgramas de misoprostol, dessa vez por via vaginal, para tentar novamente desencadear o processo de expulsão.

O medo continuava presente, mas eu só queria ver o fim daquele momento.

Fomos descansar. Pensei muito. Se o meu corpo tinha reagido daquela forma à medicação, talvez fosse melhor dar algum tempo. Depois de conversar muito com o meu marido e com a minha doula — que foram os meus verdadeiros braços direitos — tomei a decisão de esperar.

Disse ao “monstro” que estava na minha cabeça que ele tinha de ir embora, porque eu iria esperar. Então decidi confiar no tempo e no meu corpo.

Foi preciso um exercício psicológico muito grande. A espera foi dura emocionalmente, mas fisicamente estava muito melhor.

Tudo acabou por acontecer no sítio onde eu nunca pensei que aconteceria. Nunca imaginei ter um parto em casa. E este tive.

Mesmo sabendo que o meu bebé já não tinha vida, tive um parto e tive o meu bebé aqui, em casa, no meu lar, junto do meu marido — a pessoa que me apoiou incondicionalmente em todos os momentos.

Estivemos sempre em contacto com a minha doula por videochamada, dada a distância que nos separa. A cada momento ela dava sugestões, procurava informação, estudava e orientava-nos. O apoio foi incrível.

Quando tudo aconteceu, acalmámos. Pensei que aquele episódio tinha finalmente terminado.

Mas não.

Dias depois surgiu uma dor forte. Fui à casa de banho e senti uma enorme vontade de fazer força, como se precisasse de evacuar. A pressão era muito grande. Olhei para a minha vagina e vi algo a sair. Fiquei assustada.

Mas as pessoas que estavam comigo — o meu marido e a minha doula — deram-me força, apoiaram-me, ajudaram-me e orientaram-me.

E eu fiz força.

E puxei o meu bebé.

Sei que, em linguagem técnica, se fala em saco gestacional e tecido gestacional. Mas, para mim, naquele momento, era o meu bebé. Era assim que eu o sentia.

Nunca tinha querido nada disto. Nunca imaginei que tudo acontecesse desta forma. Mas foi assim que aconteceu, aqui, em casa.

Ainda bem que não tive pressa.

Ainda bem que não tomei a medicação após as 48 horas.

Ainda bem que decidi esperar.

Naquele momento, senti que insistir novamente na medicação poderia trazer mais contracções, mais dor e mais sangramento do que aquilo que eu estava preparada para viver, sobretudo depois de tudo o que já tinha acontecido.

Passei por um processo em que foi o meu próprio corpo a responder, no seu tempo.

Hoje sinto-me bem fisicamente, com apenas os sangramentos semelhantes aos de uma menstruação. Psicologicamente irei melhorar. Tenho as pessoas certas ao meu lado.

Aproveito para agradecer ao meu marido e à minha doula por tudo.

E neste mês, no Dia da Mulher, tive a prova de que ser mulher é ser um ser forte, capaz de ultrapassar dificuldades. Esse dia ficará para sempre no meu coração.

Deixo aqui o meu testemunho na esperança de que chegue a outras mulheres. É um assunto pouco falado, mas que poderia ajudar muitas se fosse partilhado com mais abertura e detalhe.

A recuperação também faz parte da perda

Escrevi o primeiro relato ainda muito próxima do que tinha acontecido. Mais tarde, percebi que a perda não terminava no momento da expulsão. Havia ainda um caminho físico e emocional a percorrer. Foi por isso que senti necessidade de continuar este testemunho.

Falar sobre a recuperação após um aborto retido não é fácil, e talvez seja exactamente por isso que seja tão importante dar voz a esta fase. Confesso que nem sei bem por onde começar, porque é um processo que envolve muito mais do que apenas o corpo.

Optei por uma abordagem mais suave a nível físico, ainda que soubesse que, emocionalmente, poderia ser mais exigente. Foi uma escolha consciente, feita com o coração e com aquilo que senti ser o melhor para mim naquele momento. E, apesar de tudo, não me arrependo. Sou profundamente grata pelo acompanhamento da minha doula e pelo apoio do meu marido.

Fisicamente, sinto que estou a recuperar bem. O meu corpo tem respondido de forma positiva, respeitando o seu próprio tempo e dando sinais de que está a regressar ao equilíbrio. Essa parte tem sido, de certa forma, reconfortante. Entretanto, chegou o momento da consulta de avaliação e, com ela, novas decisões. Por agora, optei por continuar a aguardar.

A nível psicológico, o caminho é diferente. Mais silencioso, mais profundo e, muitas vezes, difícil de traduzir em palavras. Há dias mais leves e outros mais pesados; momentos em que tudo parece fazer sentido e outros em que as perguntas permanecem sem resposta, embora, aos poucos, algumas comecem a encontrar lugar.

Tenho aprendido que esta recuperação não é linear. Faz-se de pequenos passos, de pausas, de aceitação e, sobretudo, de muita paciência comigo mesma. Permitir-me sentir, sem a pressa de “ficar bem”, tem sido uma das partes mais importantes deste processo.

Ao mesmo tempo, continua em mim o desejo de ter mais um filho, acompanhado por um medo profundo de que tudo volte a acontecer. Este contraste traz, por vezes, uma sensação de urgência, como se o tempo não esperasse.

Se há algo que levo comigo, é a certeza de que cada experiência é única. E que, independentemente do caminho escolhido, todas as emoções são válidas. Estou a recuperar ao meu ritmo, à minha maneira, e isso, por si só, já é um passo muito significativo.

Quando parecia que o processo já tinha terminado

Quando parecia que o processo tinha finalmente terminado, chegou a consulta de avaliação. Eu ia com esperança de ouvir que estava tudo resolvido. Mas a perda ainda não tinha acabado completamente.

Chegou o momento da avaliação médica para perceber se tinha saído tudo relativamente à minha perda gestacional. Entrei naquela consulta nervosa, com medo daquilo que poderia ouvir… e ouvi exactamente o que não queria: ainda não tinha saído tudo.

Novamente, aquele “monstro” surgiu-me na cabeça. A médica apresentou-me três opções, mas eu sabia perfeitamente que nenhuma delas era aquilo que eu queria. Tendo em conta a experiência anterior, sentia que não fazia sentido passar novamente pelo mesmo processo. Além disso, eu sabia que o sangramento que essa medicação poderia causar podia ser maior do que aquele que aconteceu quando o corpo eliminou parte dos tecidos, especialmente porque, na primeira toma, não tinha havido uma resposta uterina eficaz.

Saí do consultório sem tomar uma decisão. Com base na informação que a minha doula me ajudou a recolher e a compreender, enviei um e-mail à médica com perguntas concretas sobre a possibilidade de continuar a aguardar.

Queria perceber se, estando fisicamente bem, sem febre, sem dor persistente a agravar, sem hemorragia abundante e sem alterações preocupantes no corrimento, poderia esperar que o meu corpo completasse o processo.

Após esse contacto, a médica confirmou que, na ausência desses sinais de alerta, poderia manter uma atitude expectante durante 30 a 45 dias, aguardando pela menstruação e pela possibilidade de eliminação espontânea dos restos que ainda existiam.

Depois dessa consulta, e já mais informada sobre as opções e sinais de alerta, decidi continuar a aguardar. Não foi uma espera passiva. Foi uma espera consciente, acompanhada e atenta ao meu corpo.

E assim foi. Aos 29 dias após a perda, surgiu a primeira menstruação e, efectivamente, saiu mais tecido que ainda permanecia no meu corpo.

A primeira menstruação trouxe consigo aquilo que ainda faltava sair. Ainda assim, precisava de confirmação médica para poder fechar esta etapa do ponto de vista físico.

Depois disso, fiz uma nova consulta para confirmar se tinha saído tudo… e sim, finalmente tinha saído.

Hoje, só tenho a agradecer à minha doula: por toda a pesquisa, por todo o acompanhamento, por todo o apoio e por estar presente, mesmo com a distância que nos separa. Foi um verdadeiro porto de abrigo numa fase tão difícil e importante da minha vida.

Acredito que é muito importante termos uma doula ao nosso lado, seja em que circunstância da vida for. E, acima de tudo, mulheres: informem-se, questionem, procurem compreender o vosso corpo e as opções que têm. O conhecimento também é uma forma de cuidado.

Nota da Doula Sandra Oliveira

Este testemunho foi vivido ao longo de várias semanas. A perda não terminou no primeiro episódio de sangramento.

Para ajudar outras mulheres a compreenderem melhor o tempo real deste processo, deixo uma síntese aproximada:

  • Dia 1 — diagnóstico da ausência de batimentos cardíacos.
  • Dias seguintes — procura de informação, contacto com a Doula e ponderação das opções.
  • Entre o Dia 6 e o Dia 9 — acompanhamento presencial contínuo da Doula, com deslocação e disponibilidade exclusiva para a mulher e o casal.
  • Dia 7 — início do protocolo medicamentoso com mifepristona.
  • Dia 8 — toma única de 800 mcg de misoprostol por via oral. Cerca de 1h20 depois, ocorre vómito. Apesar de alguns sintomas gerais, não surgiram sinais de resposta uterina eficaz: sem sangramento relevante, sem contracções expulsivas e sem evolução do processo nesse dia.
  • Dia 10 — início do processo expulsivo, com dor, sangue e coágulos.
  • Dia 13 — expulsão efectiva do bebé/saco gestacional.
  • Cerca de duas semanas depois — ecografia de controlo revela que ainda existia conteúdo residual no útero.
  • Dias depois — Catarina pede esclarecimento médico sobre a possibilidade de continuar a aguardar, estando clinicamente bem e sem sinais de alarme.
  • Cerca de 40 dias após o diagnóstico — primeira menstruação após a perda, com eliminação de tecido residual.
  • Cerca de 60 dias após o diagnóstico — nova ecografia confirma que estava tudo bem.
  • Cerca de 68 dias após o diagnóstico — segunda menstruação, com intervalo regular em relação à primeira.

Este percurso mostra uma coisa importante: também numa perda gestacional, o tempo pode ter um papel. Esperar pode ser psicologicamente mais exigente, porque implica viver com incerteza, mas, quando a mulher está clinicamente bem, sem febre, sem dor a agravar, sem hemorragia abundante e sem alterações preocupantes no corrimento, a gestão expectante é uma opção válida e deve ser devidamente apresentada.

Muitas vezes não é. Muitas vezes as mulheres são encaminhadas quase automaticamente para medicação forte ou intervenção, sem que lhes seja explicado que aguardar, com vigilância e critérios claros de segurança, também pode fazer parte das opções.

Esperar não significa não fazer nada.  Significa compreender o processo, conhecer os sinais de alerta, manter vigilância e ter apoio adequado. E porque não, medicação em dosagem e via de administração numa abordagem individualizada e não “protocolada”.

Tal como no parto de termo, há situações em que o corpo precisa de tempo. E há situações em que intervir é necessário. O essencial é que a mulher receba informação clara sobre todas as opções: gestão expectante, abordagem medicamentosa ou intervenção cirúrgica, com os seus benefícios, limites, riscos e impacto emocional.

Este testemunho não pretende dizer que este é o modelo certo para todas as mulheres, nem substituir aconselhamento médico/clínico. Pretende mostrar que a individualização é fulcral, e que também uma perda gestacional pode ser vivida com informação, acompanhamento e respeito pelo tempo da mulher e do seu corpo.