Uma interrupção médica da gravidez em Portugal – a história da Alice

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Uma interrupção médica da gravidez em Portugal – a história da Alice

Alice

A tua história, meu amor, começou sem aviso. Eu tinha a vida muito desarrumada entre o curso e o trabalho.

No final de Dezembro de 2014, o cansaço tornou-se insuportável. Pedi, no trabalho, licença sem vencimento para o mês de janeiro. Eu não sabia o que é que me estava a acontecer e só dizia a todos que não estava a suportar o ritmo.

Durante o mês de janeiro, percebi que havia algo para além do cansaço. Pensei que tinha que ir ao médico e sentei-me a fazer uma lista dos meus sintomas. Oh bebé… Onde tinha eu a cabeça? Nessa tarde, percebi que podias estar comigo.

Conversei com o teu pai, fizémos um teste e apareceu a tua risquinha.

Não era muito lógico ter outro filho naquela fase das nossas vidas. Pensei até que seria irresponsável. Entrei em desespero. Mas queríamos-te tanto! Estávamos dispostos a tudo para que fosses feliz.

A gravidez foi prosseguindo comigo assustada. 4 anos antes, a tua mana tinha nascido prematura, num parto hospitalar que nos deixou numa lástima! Após o parto dela, conheci mulheres fantásticas que ampararam a minha dor e me foram ajudando a levantar. Entre elas, a doula Sandra Oliveira. Telefonei-lhe logo, precisava de ajuda para gozar a tua existência sem os fantasmas da gravidez e nascimento da tua mana. A Sandra não me deixou mais caminhar sózinha. Ajudou-me a encontrar o obstetra à medida da minha sensibilidade, começámos a delinear planos para o teu parto, de forma a contornar os meus medos. Eu queria, bebé, que nascesses de termo, no aconchego da nossa casa.

Nas semanas que se seguiram, foi como se todas as nuvens negras do nosso caminho se estivessem a afastar e a dar lugar a um céu azul! Os estudos nem estavam a correr mal eu comecei a acreditar na possibilidade de os terminar em julho, antes que nascesses, em setembro e, assim, também a situação financeira do próximo ano estaria aliviada. A gravidez estava a correr muito melhor do que a minha experiência anterior, a eco do primeiro trimestre só nos revelou coisas boas, o medo de nasceres prematura estava a desvanecer-se,… E eras uma menina, mais uma princesa! A tua mana estava, a cada dia, mais entusiasmada com a tua existência! Ela dava-te beijinhos, abraços, conversava contigo e dizia a toda a gente que ia ser a tua mana mais velha! Eu e o pai abrimos os corações à felicidade e começámos a achar que a vida nos estava a correr melhor do que o planeado.

O teu nome seria Alice. Alice, a menina que se liberta, a inconformada, a sonhadora.

Conversávamos sobre a felicidade que nos estavas a proporcionar antes de sair de casa para te ver na eco morfológica, numa 3ªfeira de maio, em que fazias 21 semanas. A tua mana mais velha também foi, como ela gostava de exibir o seu novo título!

Agora respiro fundo, querida Alice, antes de prosseguir…

Estávamos todos bem humorados. O médico derramou um gel azul na minha barriga para fazer a ecografia. A tua mana achou muito mal, porque o gel devia de ser verde, do Sporting! A primeira coisa que vimos foi a tua carinha. Tão linda! Passados uns segundos, o médico ficou com uma expressão fechada. Percebi que alguma coisa não lhe estava a agradar, mas podia ser a tua posição, o ecógrafo,… Os minutos passavam, o consultório continuava em silêncio… O médico tinha passado o tempo a ver a cabeça e a coluna, sem dizer nada. Comecei a ficar impaciente, quando olhei para o pai, ele já tinha chorado. Tive vontade de começar a fazer perguntas, mas não fiz, acho que tive medo. Aguardei que o médico falasse.

O médico explicou-nos, meu amor, que tinhas espinha bífida aberta, hidrocefalia, o desenvolvimento neurológico comprometido… são uns dói-dóis muito maus… Ele tentou mostrar-nos, mas eu só queria ver o teu corpinho de bebé, a tua carinha,… Parecias-me tão linda, Alice! Falou-se em interromper a gravidez, mas eu não consegui, naquele momento, interiorizar grande coisa. O médico sugeriu voltarmos lá passados 2 dias, para repetir a eco na presença de outros colegas.

O teu pai saiu de lá a chorar, eu estava apática, a tua mana percebeu que alguma coisa não estava bem mas pensou apenas que o exame tinha sido doloroso.  Só caí em mim e chorei algumas horas depois, quando parei e te senti mexer. Eu costumava conversar contigo sobre nós e tudo o que ias encontrar quando nascesses… “E agora o que é que eu digo?”. E percebi que as nossas conversas já não seriam iguais, percebi que podia ter que me despedir de ti.

Tentava ficar sossegada, aproveitar muito aqueles momentos em que te sentia, mas tinha dificuldade em encontrar palavras para conversar contigo, e chorarava.

Nessa noite, eu e o pai tínhamos os papéis trocados. Ele falava pelos cotovelos “E se o médico não viu bem? E se o aparelho estivesse sujo?” e eu assistia calada. Mandei mensagem à Sandra, que me perguntou se eu queria falar, mas eu não queria falar com ninguém a não ser contigo, minha filha.

Fomos para a cama, dormitar nos intervalos de choro, nessa noite como nas que se seguiram.

Na manhã seguinte, a Sandra ligou a perguntar se queríamos confirmar o diagonóstico noutro sítio. Foi-me evidente que era importante para o pai. A Sandra pediu ajuda e conseguiu marcar uma eco ainda para o final da manhã. Lá fomos. Outro profissional, de outra equipa, outro aparelho, mas o mesmo diagonóstico, a mesma recomendação.

Enquanto tua mãe, Alice, senti-me perdida. Eu não queria encomendar a tua morte, bebé… Como poderia isso enquadrar-se na maternidade? Eu queria proteger-te! Tentei perceber exactamente se as malformações poderiam ser incompatíveis com a vida, percebi as expectativas, ponderei prosseguir com a gravidez. Eu queria-te. Eu estaria disposta  a tudo, tudo para tu seres feliz! Mas fomos humildes perante a dimensão dos teus problemas, filha. Enquanto tua mãe tentei ser altruísta e ter compaixão por ti.

Nessa 4ª feira, antes de dormir, a tua mana quis dar-te os abracinhos e beijinhos do habitual. Eu senti que tinha que conversar com ela. Se eu valorizava a oportunidade de me despedir de ti, tinha que a dar à tua mana também. Foi uma conversa difícil… Ela ficou muito zangada com a situação. Chorou e gritou. Disse-nos que queria que visses a nossa casa, a rua, o parque. Disse que, mesmo que nascesses doente, ela dava-te comida para ficares forte e beijinhos para curar as feridas. Oh, meu amor, a mana já te amava tanto!

Na 5ª feira voltámos ao nosso médico. Nova ecografia, com mais 2 elementos da equipa. Todos viram e concordaram. Mas fez-me confusão que tivéssemos passado uma ecografia só a ver os teus dói-dóis. Pensei que seria a última vez que te víamos com vida, minha querida. Pedi, emocionada, para ficar com mais imagens da tua carinha. O nosso médico disse-me logo que sim e tirou umas do teu perfil. Tão fofa! Como eu me sentia apaixonada por ti!

Neste dia, também foi dia de tentar perceber o procedimento da interrupção da gravidez nesta fase de gestação. Percebemos que, num determinado tempo de gestação, havia diferenças significativas no procedimento, de uns hospitais para outros. Infelizmente, concluímos também que, ao contrário do que acontece no parto e na interrupção voluntária da gravidez, a lei não prevê que se possa escolher o hospital para se proceder a uma interrupção médica da gravidez. O sistema público limita-nos ao hospital da nossa área de residência. Nós não tínhamos dinheiro para recorrer ao privado onde a gravidez tinha sido seguida até então porque o nosso seguro cobria apenas as consultas. (Concluímos mais tarde que nem existe seguro que cubra uma IMG). A sentir-me completamente encurralada, Alice, fui ao hospital da nossa área de residência, o hospital onde eu e a tua mana tínhamos sido tão maltratadas… Enchi o peito de ar e voltei a pisar aquele chão, a lembrar o cheiro,… Sentei-me calada. Já não me recordo do que a Sandra me perguntou antes de eu desatar num pranto em que lhe dizia que não estava preparada. Quando chamaram o meu nome, lá fui atendida de forma muito fria. Responderam a algumas questões e percebi que o procedimento tinha detalhes de violência para além do que eu tinha imaginado. Para além disso, estaria sem acompanhante durante a indução e o expulsivo seria num quarto comum, na zona de triagem. Eu e o pai não teríamos oportunidade de estar a sós contigo, Alice. Recusaram-se naquele dia a mostrar-me o espaço ou a documentação inerente ao processo porque tinham mais 16 grávidas para atender (e eu ali, com uma gravidez condenada, a chatear!). Não valia a pena… Levantei-me e saí. A partir dessa tarde, comecei a tentar mentalizar-me que só se faz o que se consegue. A tua morte, meu amor, não ia ter a dignidade que eu gostaria. Eu não iria ter capacidade de estar ali, concentrada em ti.

Fiquei com uma consulta marcada para 2ªfeira da semana seguinte, na 3ª feira daria entrada no hospital para iniciar a indução. Tirei a cabeça das burocracias todas, até porque eu achava que já tinha esgotado as hipóteses todas, já não tinha energia e entrei em modo de entrega. Plano do teu parto no SNS: pedir as drogas todas a que tivesse direito e desistir!

A Sandra e o teu pai, meu amor, ficaram inconsoláveis.

Na 6ªfeira eu queria só tinha vontade de estar contigo, querida Alice. Já havia 3 dias que eu não falava contigo e isso estava a inquietar-me. Ia preparar uma fraldinha bonita onde eu pediria que te levassem embrulhada quando nascesses, fazer uma barriga de gesso,… Mas o pai esteve a dormir sobre o que se tinha passado no hospital e sobre o trauma do nascimento da tua irmã. Acordou decidido a contactar seguradoras para esgotar as hipóteses de conseguirmos que nascesses no privado. Zanguei-me com ele. Que perda de tempo! Era impossível ele ouvir algum valor compatível com as nossas possibilidades. O nosso tempo, querida Alice, era tão precioso!!! E ele queria a minha ajuda nos telefonemas para hospitais e seguradoras. Gritei com ele. Caramba! E foi quando o pai, com um olhar de medo me disse: “Eu vou tentar. Nós precisamos que saias disto inteira, capacitada.” Começou a chorar “Eu tenho medo de como possas ficar… Esta família precisa de ti.”.

No meio da confusão e dos telefonemas do pai, telefonou a Sandra. Eu expliquei, desolada, o que o pai estava a fazer… Alto e pára o baile! Vamos todos trocar as informações que já conseguimos porque a Sandra estava a fazer o mesmo.

Eu estava desorientada porque não acreditava no sucesso deles e porque sentia que estávamos em contra-relógio, eu estava impaciente para simplesmente estar contigo, continuava noutra frequência… Eu quis almoçar e ir passear contigo, querida Alice. Mas a tarde acabou com o nosso médico, no hospital privado, a pedir uma previsão de encargos para a IMG. A intenção da Sandra era angariar donativos para que conseguissemos proceder à IMG no hospital privado onde foi seguida a gravidez. Ali, teríamos condições de: absorver tudo o que pudessemos tirar dessa última vivência contigo, em família, com privacidade, que não fosse o ambiente que me levasse a pedir drogas que me alterassem a consciência nos momentos da tua partida,… Que conseguíssemos despedir-nos de ti com toda a dignidade de que tu também eras merecedora, minha linda! Mas pareceu-me utópico. A Sandra pegou-me nos braços e disse: “As mulheres, unidas, conseguem muitas coisas. E nós estamos rodeadas de mulheres fantásticas!”. E, assim, esta 6ª feira acabou com esperança.

No fim de semana, querida Alice, eu, o pai e a mana estivémos só dedicados a ti. Fomos para a casa do tio, que estava vazia, só porque ali não seríamos interrompidos pelo telefone nem pela campaínha. Foi muito importante para todos. Conversámos muito, entre nós e contigo. Conversámos sobre tudo o que mudaste nas nossas vidas, meu amor, e contei-te o que ia acontecer. Foram 2 dias de celebração da tua existência, de assimiliação e de despedida,…

Ao longo destes dias, sinto que fomos ficando apaziguados. Eu não queria que este fim de semana a quatro acabasse, Alice… Quem me dera viver eternamente nele.

Na 2ª feira começou novamente o frenesim. Fomos ao hospital receber uma previsão de encargos formal, a Sandra confirma que havia donativos suficientes para avançar… Senti um alívio tão grande e senti-me tão grata, tão pequena com a grandeza daquele gesto,… Combinámos os detalhes com o médico para dar entrada na manhã seguinte. Nessa noite levámos a tua mana para ficar uns dias seguintes com o tio. Lembrei que, quando voltássemos, eu já não estaria grávida e tu terias morrido, Alice. Antes de eu sair, ela ficou muito angustiada e disse que não tinha nada para se despedir de ti. Respondi que não fazia mal, podia dar um beijinho. A tua mana levantou a minha camisola, deu um beijinho e disse-te: “Adeus para sempre, mana Alice.”. Eu e o pai fomos para casa tentar dormir.

Na manhã da 3ª feira em que fazias 22 semanas, meu amor, precisamente uma semana depois do diagonóstico. Pusémos-nos a caminho do hospital. Tinha havido um acidente e estava um trânsito infernal. Começámos a ficar atrasadíssimos, eu fiquei mais nervosa ainda, nauseada e incapaz do que me esperava. Quando chegámos ao hospital, disseram-nos que não havia quarto disponível e pediram para voltarmos à tarde. Expliquei ao teu pai e à Sandra que não ficassem aborrecidos, foi o melhor que podia ter acontecido naquele dia. Saímos dali, fomos ver o mar, almoçar, eu pude restabelecer-me e sentir-te mais.

A seguir ao almoço, voltámos ao hospital. Todos os dias da última semana, todo o desespero, o choro, as conversas (principalmente as que tive contigo) me ajudaram a estar segura neste dia. Eu estava triste, estava nervosa, mas estava pacificada e amparada na minha decisão.

Ao longo do parto, não utilizei relógio, o tempo era nosso. A indução começou por volta das 15h ou 16h com 2 comprimidos de misoprostol no colo do útero. Foi difícil, eu estava toda contraída, principalmente porque tinha dores no coração. Depois fiquei sossegada, deitada numa cama, abraçada com o pai, a pensar em ti, Alice.

De seguida, passou-se o tempo, meu amor.

“Uma loba matou um dos seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo.”

Clarissa Pinkola Éstés, Mulheres que correm com os lobos

Passadas umas 2 horas, a minha barriga já estava bem contraída. Fui estando atenta a ti, querida Alice. A última vez que te senti mexer penso que foi por volta das 18h.

Fui sendo invadida por um sentimento de paz, que era tão intenso, que se sobrepunha a qualquer outro.

Conversámos, jantámos, conversámos… Passadas 6 horas do início, mais 2 comprimidos. Quando estes fizeram efeito, dei-me ao luxo de umas massagens carinhosas da Sandra.

A foto foi tirada pelo teu pai, Alice, por entre o sono. Mas diz que não se lembra de a ter tirado. Ele tem destas coisas…

Nessa noite o processo de indução estagnou para que descansássemos. Pela manhã, administraram-me mais 2 comprimidos. Já não era o nosso médico que estava de serviço naquele dia mas pude perceber que tinha deixado muita informação sobre nós e que tinha tudo sob controlo mesmo à distância.

Pela tarde, comecei a sentir as contrações a ir e vir, em vez de uma barriga sempre dura. Quando chegou a hora de mais misoprostol, já estávamos em trabalho de parto, pelo que acabou por não se administrar mais nada.

Quando a aflição aumentou, chamámos a enfermeira e a médica de serviço. A médica quis fazer um toque. Eu pedi que ninguém mexesse em mim, que não me mudassem de posição,… A médica fez o toque mesmo comigo deitada de lado, como estava. 6 dedos. Saíram, deixando-nos novamente em privado.

Quando sentimos que eu estava em fase de transição para o período expulsivo, vi a Sandra por a jeito as coisinhas que tinham sido preparadas para ti, para te aconchegar e fotografar. Senti-me muito triste e fiquei chorosa… Estava a chegar a nossa separação, querida Alice.

O trabalho de parto foi avançando comigo em sofrimento, com dificuldade em gerir o lado emocional e, consequentemente, tolerar a dor física. Passados mais uns minutos (1hora?) Chamámos novamente e vieram a enfermeira e a médica. Ainda pedi petidina. A Sandra, em boa hora, me encorajou a passar sem a petidina. Ela também percebeu a importância de me despedir de ti no pleno da minha consciência.

Já ninguém me tirou do quarto, para o bloco de partos, como estava previsto. Sugeriram que eu mudasse de posição mas respeitaram a minha vontade de ficar de lado. E tu estavas mesmo prestes a nascer, bebé Alice… Mas eu dei por mim a fazer força para te manter. Eu não queria, não queria fazer-te nascer naquele dia. Verbalizei o que se estava a passar, disse que não conseguia,… Mas eu tinha que conseguir, meu amor,… Fui encorajada, pedi que não houvesse choro à minha volta, tentei concentrar-me em ti, e tu apareceste.

A Sandra disse, enternecida: “Está a nascer na bolsa, Joana.”. E eu sorri. Senti-me bem, Alice, por teres nascido sem teres saído do aconchego da bolsa. Aquilo fez com que me passasse pela cabeça que viveste sempre protegida e em paz, nunca sentiste frio, nem fome,… E foi, novamente, a paz, que me invadiu. E acabei de te expulsar muito devagarinho.

Disseram-me depois que eram 18h20 quando nasceste.

A enfermeira que estava connosco foi um amor. Percebeu a importância que tudo tinha para nós. Fez muita questão de te manusear apenas de acordo com a nossa vontade. Eu pedi-lhe que colocasse a bolsa à minha frente e ali a rebentasse. Não tive vontade de ser eu a tirar-te de lá.

Assim que te vi, Alice, apaixonei-me ainda mais por ti! Tão linda, tão doce e delicada! Peguei-te ao colo. Já tinhas cabelinho, muito escuro, como a tua mana também tinha quando nasceu. O nariz do pai, os meus lábios,… Os pézinhos tinham o 2º dedo mais comprido que o 1º, como têm o pai e a mana, não eram como os meus que são em escadinha. Tentámos olhar bem, cheirar-te, sentir-te, absorver o máximo de ti.

Os dói-dóis também eram visíveis, observámos e eu senti algum consolo. Nem os beijinhos da mãe os iam fazer passar, minha querida filha.

Sem darmos por isso, disseram-me que tinha passado uma hora. Não sei mais quanto tempo passou até acharmos que era hora de te deixar. Chamámos a enfermeira, que te levou, com carinho. Foi a última vez que te vi.

Recusei, delicadamente, a medicação para evitar a subida de leite. Tenho uma relação de confiança com as minhas mamas desde que tive a tua mana internada na neonatologia e saberia resolver-me. Tive subida de leite. Fez-me mais sentido do que estar num corpo que não sentisse a tua falta, querida Alice.

Quisémos fazer-te um funeral, que foi passados 3 dias. A tua mana quis ver-te mas tivémos receio que já estivesses muito diferente, meu amor, e não deixámos ninguém ver-te. Mostrei 2 fotos tuas à tua mana, que apenas disse: “Oh, tão querida!”. Ela também quis dar vivas por ti porque disse que era a tua festa, o pai e eu achámos óptima ideia. No final da cerimónia, largou-te uns balões, porque achámos que haverias de gostar de balões.

A partir daqui, querida, continuarás sempre nos nossos corações. Já temos tantas saudades tuas! Amo-te muito, Alice Leonor. Serei sempre a tua mãe.

By | 2017-05-20T17:38:30+00:00 Maio 20th, 2017|Sem categoria|Comentários fechados em Uma interrupção médica da gravidez em Portugal – a história da Alice