Testemunhos de Parto

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Testemunhos de Parto 2017-06-14T11:08:23+00:00

“ O que mais aprecio nos testemunhos é o poder que têm de nos ensinar possibilidades, que de outra forma não conheceríamos”.

 

 

Ina May Gaskin

Testemunhos

Era uma segunda gravidez e desta vez tinha de correr tudo bem… por isso, assim que comecei a sentir aqueles sintomas desagradáveis aliados ás dores abdominais e ao cansaço, parei imediatamente de trabalhar e iniciei um período de repouso desde as 20 semanas até quase ao final da gravidez.

Nesta gravidez optei por fazer tudo diferente, comecei por planear o meu bebé no início do ano, estudando o meu ciclo menstrual, e a retirar tudo o que era informação sobre os mais diversos assuntos relacionados com grávidas e bebés nos livros e na Internet, desde os rastreios pré-natais à alimentação, passando pelos efeitos nocivos dos cigarros.

Não queria passar a gravidez no verão, e todo o meu trabalho de pesquisa deu resultado, apesar dos dois testes darem negativo eu sabia que uma vida se desenvolvia na minha barriga. E finalmente o resultado positivo a 18 de Setembro, data que decidi deixar efectivamente de fumar, achava que mais importante que qualquer dos meus vícios era o meu filho e enquanto depender de mim para respirar e se alimentar já mais tocarei num cigarro. Não importava o sexo do bebé: tinha de ser saudável embora tivesse uma preferência por um menino. E assim foi, nasceu um rapaz saudável a 18 de Maio de 2005.

Apesar de estar a ser seguida pelo particular procurei informar-me no centro de saúde sobre as aulas de preparação para o parto e de facto a aprendizagem da preparação para o nascimento começou a 29 de Março no hospital do Barreiro onde o Tiago ia nascer. Dias mais tarde uma amiga que estava grávida do mesmo tempo que eu, convidou-me a participar das aulas de preparação para o parto no centro de saúde da Quinta do Conde. Embora eu já tivesse este tipo de actividade noutro sítio, tinha muito tempo livre, a minha amiga queria companhia e era uma mais valia para os meus conhecimentos, aqui iniciei a preparação para o parto a 5 de Abril e foi numa dessas aulas que conheci a enfermeira Margarida e a Sandra, devo dizer que ao longo de toda a gravidez tive o privilégio de muitos profissionais de saúde me ajudarem. Mas sem dúvida já mais poderei esquecer o apoio que tive da Doula Sandra, quando todos me achavam maluca por não querer fazer cesariana. Pois bem, no hospital do Barreiro não fazem partos pélvicos em primeiros filhos por acharem demasiado arriscado não para a mãe mas sim para o bebé; já estava na 34ª semana de gestação e o Tiago ainda não tinha dado a volta…

Numa visita ao hospital de Almada fiquei a saber que uma obstetra tinha o conhecimento de uma prática antiga, mas que para mim era uma coisa nova que se baseia em tentar virar o bebé ainda na barriga da mãe…fiquei muito contente por haver uma possibilidade do bebé dar a volta e eu poder ter um parto normal. Mas havia algumas dificuldades em poder ter uma consulta com essa médica – Dra. Ester Casal …

Ao saber desta minha vontade a Sandra prontificou-se a ajudar-me e sem compromisso numa manhã fomos ter com a Dra. Ester e para surpresa minha numa simples conversa de alguns minutos a Sandra conseguiu que a obstetra me ajudasse imediatamente porque estava a entrar na 35ªsemana.

Fiz de tudo o que se podia imaginar…mas nem com ajuda o Tiago se virou e permaneceu sentado até ao fim. Estava triste, porque não tinha sido nada daquilo que imaginara para o meu parto – uma cesariana, apavorava-me a ideia! Havia ainda a possibilidade do bebé dar volta quando chegasse a hora, e mesmo sendo já um parto previsto por cesariana, optei por ter um trabalho de parto normalíssimo cujas contracções iniciaram pela manhã do dia 16, e depois do almoço fui caminhar com a Sandra pela praia de Sesimbra onde fui-me familiarizando com as contracções e de certo modo a controlá-las com a respiração que aprendi nas aulas. Quando fui para casa o meu marido achava que deveríamos ir logo para o hospital, mas eu achei que não. Na manhã seguinte tinha de fazer o CTG, e lá estavam as minhas amigas contracções (como eu as chamava) a marcarem o compasso e então, enviaram-me para o bloco de partos, como era definitivamente uma cesariana que tinha de fazer, possivelmente o Tiago nascesse naquele instante…Argumentei que queria um parto normal e se possível natural e toda a equipa médica ficou estupefacta a olhar para mim, porque na realidade eu queria o que ninguém quer -sentir e ver o meu filho nascer…

Restava-me a esperança que com todos aqueles turbilhões uterinos o bebé tomasse a posição cefálica…e fui para casa. Com as contracções cada vez mais regulares procurei descontrair-me ao máximo: verifiquei a minha mala e a do bebé, tomei um banho relaxante, fui jantar fora e namorar com o meu marido (e sempre acompanhada das minhas amigas contracções de 12 em 12 minutos) sabia que a hora se aproximava. Às 6 da manhã levantei-me, e preparada para ir ao hospital, senti a bolsa das águas a rebentar…mantive-me calma e até continuei a esticar o cabelo…

Quando cheguei ao bloco de partos (demorei quase 1h para ser atendida) depois de examinada, lá fui eu para a sala de cirurgia. Toda a equipa  era  óptima, muito simpáticos e puseram-me muito à vontade até brincaram comigo…Foi-me dada a epidural e ao contrário do que toda a gente diz (na realidade só falam em diminuir as dores nunca nos aspectos negativos) a anestesia não fez efeito, e eu senti tudo como se estivesse no talho (desculpem a expressão) desde o corte à difícil retirada do bebé, nesta altura, que até então eu estava a portar-me muito bem apesar das imensas dores não aguentei de tanto me conter e pedi licença para gritar:”- vocês desculpem, mas eu vou ter que gritar!”Foi um grito de desespero como se concretizasse o que na realidade sempre me assustara e foi também que uma suposta simples cesariana virou um parto de emergência porque também o bebé estava em sofrimento e então veio a anestesia geral, adormeci.

Quando acordei a primeira coisa que me veio à cabeça foi perguntar pelo meu filho e não demorou mais de 30 segundos para a enfermeira chegar com o meu bebé no colo:”- Já foi conhecer o pai e alguns familiares agora vem para junto da mãe que ele está com fominha.” Disse a enfermeira.

Foi posto na minha mama um ser pequenino com muito cabelo, todo espetado e cheio de fome,”o meu Arrepiadinho” é assim desta forma carinhosa que ainda hoje o chamo. Tinha acabado de conhecer aquele que durante 39 semanas e 3 dias encheu a minha vida de alegria e expectativa, depois de toda a gente já o ter visto e tocado…

De facto o meu parto não foi o que eu idealizei e não se tratava de ter ou não dor, o que é certo é que a epidural não fez efeito e ainda hoje tenho dores no local da picada, tive que levar uma anestesia geral e perdi o privilégio de ver o nascimento do meu filho ou pelo menos ser a primeira pessoa a ver e tocar-lhe, não esquecendo o quão dolorosa e difícil é a recuperação de uma cesariana…

Esta foi uma gravidez muito desejada e muito amada, eu e o Zé Miguel desejávamos ser papás há muito mais tempo, mas a vida nem sempre corre como queremos. No final do mês de Maio “deixámos” de tomar a pílula, pensando que “iríamos engravidar” lá para o verão mas logo no início de Julho “engravidámos”.

A grande notícia foi-nos dada no dia 12 de Agosto, depois de vários testes negativos e uma ecografia que não tinha mostrado nada.

Passei os nove meses de uma forma muito mágica, sem enjoos ou naúseas. Fiz questão de viver cada segundo desta gravidez intensamente e de uma forma muito apaixonada. Também fiz sempre questão de efectuar as melhores escolhas para mim, mas principalmente para o bebé que trazia dentro do meu ventre.

Li muito, pesquisei ainda mais… e inscrevi-me em várias listas de conversação sobre este tipo de assuntos.

À medida que a data do parto se aproximava e que eu ia lendo algumas das coisas que se iam escrevendo numa dessas listas, comecei a ficar deprimida porque apenas visualizava partos hospitalares nada humanizados.

Foi por algo que eu escrevi sobre a episiotomia e em como me iria sentir revoltada e violada caso ma fizessem, que a Doula Sandra Oliveira meteu conversa comigo e me disse apenas para eu ler o seu relato de parto, uma vez que tinha sido hospitalar e muito bonito.

Eu visitei o site www.BioNascimento.com, li o relato de parto e identifiquei-me muito com ele e com a força de vontade da Sandra. Como eu não conhecia alguns dos termos que ela utilizou (ex: puxar de lado) perguntei-lhe o que eram e em conversa disse-lhe que não tinha efectuado qualquer tipo de preparação para o parto, ao que ela se ofereceu para me dar algumas dicas sobre respiração.

Encontrámo-nos logo no dia seguinte, uma vez que estávamos a 30 de Março e a data prevista para o nascimento do André era 4 de Abril. O encontro foi maravilhoso, conversámos, aprendi muitas coisas e senti logo que a Sandra seria a pessoa certa para me acompanhar durante o parto.

9 de Abril de 2005 (o meu parto quase dava um filme de comédia… )

Sábado… acordei tarde… durante a manhã dei um jeito à casa, passei uma roupa a ferro e sambei… sim, eu gosto de ouvir música enquanto faço essas coisas e não resisti ao ritmo do samba! Estava muito bem disposta e queria passar toda essa energia positiva ao André.

O Zé Miguel foi trabalhar de manhã mas saía a tempo de vir ter comigo a casa para irmos almoçar com o resto da minha família paterna com o objectivo de comemorar o 82º aniversário do meu avô paterno.

Despachei-me e fiz questão de ficar muito bonita, pois algo me dizia que o meu filho ia nascer nesse dia… nesse dia também faria anos o meu bisavô (pai da minha avó paterna) faleceu há 4 anos, com 98… esse era por isso, um dia muito especial para mim porque apesar do meu bisa ser já na altura tetravô, dizia que só o seria de coração quando eu tivesse um filho… tenho muita pena que ele não possa conhecer o André apesar de sentir que será um dos seus Anjos da Guarda…

Durante a hora de almoço tive duas perdas de líquido, maiores do que as que vinha a ter desde a manhã do dia 7 e resolvi enviar uma mensagem à Sandra a contar o que estava a acontecer. Depois de almoço falei com ela ao telefone, falámos sobre as perdas de líquido, disse-lhe que às 16h30 ia fazer o CTG de rotina e que quando saísse lhe telefonava.

Às 16h30, acompanhada do meu marido e do meu irmão que se tinha apercebido das perdas de líquido, fui ao Hospital fazer o CTG, mas o mesmo só foi visto às 20h porque a médica de serviço, que por acaso era a minha, estava na sala de partos. Quando saí do Hospital o meu marido disse-me que a Sandra vinha a caminho e devia estar mesmo a chegar, disse-me que ela lhe tinha telefonado (eu tinha o telemóvel desligado) para saber como tinha corrido o CTG ao que ele lhe respondeu que achava que eu iria lá ficar, uma vez que eu nunca mais saía lá de dentro. Ao sentir que ele estava muito nervoso, a Sandra perguntou-lhe se ele precisava dela e ele… disse-lhe que sim.

A Sandra chegou por volta das 20h10 e eu disse-lhe que o Zé Miguel tinha exagerado e que apenas demorei aquele tempo todo porque a médica estava ocupada.

Para que a viagem da Sandra não fosse em vão ela propôs-nos fazermos uma caminhada ao que concordámos, até porque era algo que fazíamos diariamente nas últimas 2 semanas.

Viemos a casa mudar de roupa, fomos deixar o nosso carro junto aos deles, em frente à porta da maternidade, e por volta das 20h40 lá fomos os 4 andar… eu, o meu marido, a Sandra e o meu irmão.

Após estarmos a andar há 3 ou 4 minutos, senti a primeira contracção… veio do fundo da barriga e espalhou-se para os lados… pouco depois outra… e a Sandra disse-me “se te sentires melhor coloca-te de cócoras com as mãos dadas ao Miguel”… e assim fiz, fui andando sempre, e cada vez que sentia uma contracção baixava-me e agarrava-me ao meu marido.

Desde aí, que as contracções passaram a ser regulares e pouco espaçadas, no entanto continuámos a nossa caminhada.

Tivemos um momento muito engraçado… eu coloquei-me de cócoras, em plena baixa Setubalense, para me concentrar durante uma contracção e a Sandra pediu a uns rapazes para se calarem… lembro-me de um deles ter dito “cala-te, não vês que a senhora se está a sentir mal.”

Nenhum de nós fazia ideia de que o trabalho de parto se iria passar tão depressa.

O nosso objectivo era darmos apenas uma grande caminhada e depois irmos até minha casa para relaxar e efectuar alguns exercícios que pudessem de alguma forma ajudar o André na sua chegada.

Após duas horas de caminhada chegámos ao café onde iríamos tomar qualquer coisa para repormos as energias, eu tive de ir à casa de banho e aí senti uma contracção que me deixou com as pernas completamente dormentes… saí… fui ter com eles… na mesa fui incapaz de beber um único gole do Iced Tea que tinha pedido e senti mais duas contracções iguais à anterior. A Sandra perguntou-me se eu queria ir para casa, uma vez que lá estaria mais à vontade… poderia ouvir uma música para relaxar e fazer uns exercícios para ajudar o bebé a encaixar-se melhor. Eu disse-lhe que sim, mas senti uma outra contracção e já não fui capaz de sair do café pelo meu próprio pé. O meu irmão foi buscar o carro a pé e quando chegou tive de me apoiar no Zé Miguel e na Sandra para conseguir chegar até ele. Durante esse pequeno trajecto senti mais uma contracção e durante essa, uma vontade enorme de fazer cocó.

A Sandra apercebeu-se que eu já estava numa fase avançada do trabalho de parto e no carro perguntou-me se eu queria ir para o hospital, eu disse-lhe que sim e durante o caminho as contracções foram-se tornando mais intensas… dei por mim a fazer a respiração “do período expulsivo” e apercebi-me que a condução do meu irmão era quase de urgência.

Dei entrada no hospital por volta das 21h40, entrei para a sala de observações e ao fazer-me o toque a minha médica rebentou a bolsa de águas e disse-me “estás só com dois dedos de dilatação, mas com a bolsa rebentada já não te posso deixar sair”.

Aquela frase foi como um balde de água fria porque o meu objectivo era o de entrar com o máximo da dilatação feita… e cheguei mesmo a pensar se iria aguentar a restante dilatação sem epidural.

A minha médica sabia que eu queria um parto o mais natural possível e como as contracções eram de facto muito próximas disse para não me administrarem a oxitocina.

Fui para a sala de dilatação, colocaram-me na última cama da sala, uma vez que eu tinha pouca dilatação e iria demorar à partida muito tempo. A enfermeira ligou-me ao CTG e depois começou a preparar o soro, ao ver aquilo disse-lhe “Sra. Enfermeira, isso não é para mim, pois não? É que eu não vou levar oxitocina… a minha médica disse para não me administrarem nada.” Ao que ela me responde “Não? Mas isso… vou confirmar com a Dra….”… “Olhe Rute, o soro vou ter mesmo de colocar, apesar de não levar nenhum tipo de medicação… não sabemos quanto tempo irá estar em dilatação, o soro irá alimentá-la e se houver algum problema já está com a veia canalizada.”

Pouco depois apareceu uma outra enfermeira… com a qual tive uma conversa bastante divertida…

– “Rute, vais querer epidural, não é?”

– “Não.”

– “Não????”

– “Não.”

– “Mas não queres ao menos ler os papéis para tomar conhecimento?”

– “Não. Eu quero ter um parto o mais natural possível… é o melhor para mim e para o meu bebé… assim ele não vem “drogado”…”

– “Mas a epidural não faz nada ao bebé… estamos no século XXI, as mulheres não têm necessidade de sofrer… não queres ler o papel é que depois queres a epidural e eu não te a vou poder dar!”

– “Óptimo… assim atinjo sempre o meu objectivo.”

(claro que eu só tinha estas conversas entre contracções porque durante as mesmas passeava numa praia e as contracções eram apenas as ondas a bater na areia)

Durante esta conversa chegou a minha mãe que trabalha naquele hospital há quase 34 anos… quando soube quem eu era, a enfermeira, que conhece a minha mãe há imensos anos disse-lhe “a tua filha é louca… ela não vai aguentar e eu depois não posso fazer nada… estamos no século XXI, ela não precisa de sofrer para ter o filho.”

Eu só pensava “e quem falou em sofrer… eu vou sentir tudo, sim… vou sentir o meu filho nascer… quero viver o momento do seu nascimento da mesma forma como vivi toda a gravidez:  intensamente e apaixonada.”

No meio disto tudo eu continuava com as contracções que eram cada vez mais próximas e mais intensas… o meu corpo já fazia força para expulsar o bebé e eu a tentar controlar esse impulso.

A minha mãe apercebeu-se e disse à enfermeira “a minha filha não pode estar só com 2 dedos de dilatação… o CTG mostra as contracções muito próximas e ela já está com vontade de fazer força… faz-lhe o toque.”

Ela respondeu-lhe “ela entrou há muito pouco tempo, se não estiver com 2 está com 3…”

A minha mãe voltou a insistir: “faz-lhe o toque… eu conheço a minha filha, ela controla–se muito bem e já está a ficar “aflita” ela já está com mais dilatação…”

Ao fazer-me o toque a enfermeira diz: “ela já está com 7 dedos… vamos já para a sala de partos”.

Desligaram-me os fios do CTG e lá fui eu com um andar de “gueixa” mas muito acelerado, com o fio do soro completamente esticado e com a equipa médica e a minha mãe atrás de mim… Lembro-me que ia muito feliz por estar quase a conhecer o meu filho.

Ao chegar à sala de partos deitei-me na marquesa… a equipa preparou-se, chamaram o meu marido e a partir desse momento comecei a fazer força para que o André nascesse… não me recordo de dores nem de ali estar muito tempo, recordo-me apenas de fazer muita força… foi nesta altura que descobriram que eu tenho a vagina cepta e por isso é que a minha médica só sentiu os 2 dedos de dilatação (num canal) e a enfermeira sentiu 7 (no outro canal), ou seja, eu estava com 9 dedos de dilatação desde o inicio… lembro-me também de começar a ficar cansada porque devido a esse problema o André não conseguia descer, mas de repente… senti o meu filho nascer… foi uma sensação maravilhosa… um misto de sentimentos, de energias, sensações…

Colocaram-no em cima do meu ventre e o Zé Miguel fez as “honras” de cortar o cordão umbilical… a minha felicidade era extrema… puxei a bata para baixo de forma a destapar a zona do peito… queria sentir a pele do André junto à minha, mas a enfermeira não deixou, levou-o para dentro para ser limpo, pesado, medido, etc…

Tive o André a sorrir… estive calma, segura de mim e do que queria para ambos… queria ter um parto feliz e foi isso que consegui… estive feliz desde que soube que estava grávida e essa felicidade manteve-se durante todo o meu trabalho de parto.

O André nasceu às 23h39… finalmente pude ver o meu “feijãozinho”… foi assim que lhe chamei durante a gravidez…  sem recurso a Clister, Tricotomia, Oxitocina, Epidoral ou qualquer tipo de fármacos, como de resto era nosso objectivo desde o primeiro momento. Nasceu com APGAR 10/10, que significa que o bebé nasceu saudável e sem qualquer tipo de problemas.

O meu parto foi uma experiência maravilhosa, tão boa que não me importava de a repetir diariamente. Cada vez que recordo aqueles momentos fico com um sorriso de orelha-a-orelha. Tive um parto hospitalar, com uma equipa médica fantástica, a Sala de Partos sempre em média luz, o máximo silêncio possível e um grande respeito por mim, pelo André e pelos meus momentos de concentração.

Tendo em conta que tenho Útero Bicórneo e que na altura do parto descobriram também que tenho a Vagina Cepta, a Episiotomia era algo inevitável.

Antes de falar com a Sandra, imaginava a Episiotomia como algo horrendo e isso estava a fazer-me ponderar ter uma atitude intransigente no momento do parto.

No meu caso a Episiotomia foi a diferença entre um parto normal maravilhoso e uma Cesariana. Não me sinto revoltada nem violada, sinto-me sim uma mulher muito feliz e uma mãe muito orgulhosa.

 

Relato do Pai – Zé Miguel

A gravidez da Rute correu sempre muito bem desde o início até à data do Parto. Que me lembre, apenas dois desejos: tostas mistas e caracóis (este último foi impossível de realizar dada a altura do ano em que estávamos). Ela apenas teve algumas náuseas mas sem vómitos.

Duas semanas antes do parto que estava previsto para o dia 4 de Abril, conhecemos a Sandra Oliveira através da lista de Doulas e depois de visitarmos o seu site combinámos um encontro em sua casa, para que a Rute aprendesse alguns truques a nível da respiração e posições a adoptar no momento do parto e durante as contracções, uma vez que ela não teve aulas de preparação para o parto, e conhecer o contexto hospitalar previamente ajuda. Nesse encontro conversámos muito sobre o trabalho das Doulas e verificámos que nos encontrávamos na mesma linha de como poderia ser o parto. Tenho de confessar que foi ao ler o depoimento do parto da Ritinha (a filha da Sandra) que desisti da ideia de um parto fisiológico em casa, por ser demasiado arriscado, visto a assistência para tal não existir no nosso país e por haver métodos que poderiam levar a um parto hospitalar com total ausência de fármacos. Desde esse dia a Rute ficou em contacto com a Sandra.

No dia 7 de Abril, a Rute começou a perder pequenas quantidades de líquido amniótico, pelo que resolveu telefonar à Sandra, que nos acalmou dizendo que perdas pequenas não seriam motivo para alarme, e que a Rute fosse controlando os movimentos do André, no entanto, sugeriu que, para ambos ficarmos totalmente tranquilos, no fim do dia tentássemos fazer um CTG, para comprovar que estava tudo bem, omitindo a perda de líquido, o que fizemos. Durante estes dias resolvemos andar cerca de uma hora por noite e fazer muito amor, ou seja, usar todos os métodos que pudessem desencadear o parto naturalmente, a fim de evitarmos a indução, uma vez que as 40 semanas já tinham passado.

No dia 9 fomos almoçar a Palmela para comemorar o aniversário do avô paterno da Rute e foi aí que as coisas evoluíram. Durante o almoço e enquanto estava sentada não podia fazer movimentos sem que tivesse perda de líquido, pelo que resolveu dar-me uma dica sorrindo, para que a família não se apercebesse e entrasse em pânico. A Rute telefonou à Sandra, contou-lhe o sucedido e alertou que depois de almoço iria ao hospital fazer outro CTG, uma vez que as perdas tendiam a aumentar.

Por volta das 15h dirigimo-nos à maternidade do Hospital São Bernardo (Setúbal) para fazer o CTG, mas desta vez não me deixaram acompanhar a Rute. Como tínhamos estado a “esconder” à Obstetra que ela vinha a perder líquido, resolvi convencer a Rute a contar-lhe. Perante este cenário e dado que ela já estava há tempo demais lá dentro, fiquei a pensar que era desta que ela já não saía da maternidade.

Por volta das 18h30 a Sandra telefona-me a perguntar como estavam as coisas e eu respondi que pensava que a Rute iria ficar internada devido à situação com o líquido amniótico, pelo que a Sandra me perguntou se eu queria que ela fosse ter comigo, ao que eu respondi que sim, pois assim me sentiria mais seguro.

 

Por volta das 20h a Rute sai finalmente da maternidade dizendo que estava tudo em ordem, que tinha apenas dois dedos de dilatação e que provavelmente ainda não seria nesse dia que o André nascia. Esse momento coincidiu com a chegada da Sandra ao hospital.

 

Então decidimos ir fazer uma caminhada, para que a vinda da Doula não fosse em vão. Fomos a casa buscar uns casacos, pôr calçado mais confortável e seguimos, nós os dois, a Sandra e o meu cunhado Ricardo, com os carros para o hospital que fica perto da baixa da cidade. Daí seguimos a pé para a Av. Luísa Todi onde iríamos parar para tomar café. Durante o caminho e logo que saímos do hospital, a Rute teve a sua primeira contracção. Todos parámos e começámos a sorrir. A caminhada estava a sortir efeito, a Sandra sugeriu que a Rute verificasse se a posição de cócoras, ajudaria durante a contracção. Foi a posição que a Rute, mesmo em plena rua adoptou, eu agachava-me em conjunto com ela, segurava-lhe as mãos, enquanto a Sandra apoiava-lhe as costas, e assim foi a Rute lidando com as contracções. Não sei precisar quantas contracções a Rute teve até chegarmos à avenida. Apenas me recordo da contracção em que estávamos em plena baixa e a Sandra pediu a uns miúdos que por ali andavam a fazer barulho, para fazerem silêncio.

Chegámos ao café na avenida e a Rute teve de ir à casa de banho. A Sandra começou a achar que aquela ida à casa-de-banho seria suspeita, no entanto a Rute insistia que estava bem, mas manifestou algum desconforto com o ambiente. Perante aquele cenário a Sandra perguntou à Rute se ela queria ir para casa, tomar um chá e ouvir uma música para relaxar enquanto podia fazer exercícios para ajudar o bebé a encaixar-se melhor. Ela respondeu-lhe que sim, mas uma contracção muito forte fez com que tivéssemos de ir buscar o carro, pois ela já não conseguia andar sozinha. O Ricardo foi rapidíssimo. Quando o Ricardo chegou com o carro tivemos de ajudar a Rute a andar até ele, e quando já estávamos próximos, ela teve outra contracção, baixou-se, a contracção passou e ela disse que estava com uma vontade enorme de fazer cocó. Esse era o sinal evidente que o André queria sair a qualquer momento.

Fomos imediatamente para o hospital. A Sandra foi atrás com a Rute e eu à frente, com o Ricardo a conduzir. A determinada altura a Rute começa espontaneamente a fazer a respiração superficial e rápida, como se já estivesse no período expulsivo. Acelerámos a marcha e chegámos rapidamente às urgências da maternidade.

A Rute entrou e eu e a Sandra ficámos à porta do gabinete da obstetra a ouvir o que se estava a passar. Ouvimos então a obstetra dizer: “ainda estás com dois dedos (depois verificou-se que não era verdade), mas como a bolsa agora já rebentou, não te posso deixar sair daqui”. Nesse momento pensei que os nossos objectivos não seriam alcançados, uma vez que com todas aquelas dores e tão pouca dilatação, o mais certo era a Rute pedir uma epídural, mas tal não veio a acontecer.

A certo momento, a mãe da Rute (que é telefonista lá no hospital e conhece os “cantos à casa”) apareceu e entrou para acompanhar a filha. A partir daí entrei numa pilha de nervos sem explicação. Como sabia que o hospital de Setúbal era conhecido por não deixar entrar os pais na sala de partos, fiquei com a sensação de que não poderia assistir ao nascimento do nosso filho (que era simplesmente a coisa que eu mais desejava).

Entrei pela maternidade e quando cheguei à sala de dilatação estavam a passar a Rute para a sala de partos, porque já estava com sete dedos de dilatação (dilatação essa que já trazia desde a viagem até à maternidade).Não me deixaram entrar logo. Fiquei à porta com a Sandra à espera que me deixassem entrar, mas não se passava nada. Entretanto começo a ouvir os gemidos da Rute como se já estivesse a fazer força para “expulsar” o André. Aí é que eu me comecei a passar. A Sandra lá me acalmou, mas ia sempre dizendo: “Ela já esta a ter… e não te deixam entrar? Isto é incrível…”. O facto é que, momentos depois, a parteira (Enf. Flores) saiu e disse: “O senhor é o pai?”. Eu respondi que sim e ela voltou: “Então a senhora se faz favor vai para a sala de espera, o senhor veste esta bata e vem comigo”. Fiquei em pulgas, mas muito mais descansado. Despedi-me da Sandra, ela desejou-me boa sorte, mandou um beijo para a Rute e saiu.

Quando cheguei à sala de parto, a Rute já estava deitada na marquesa, toda preparada para o nascimento do André (sabíamos que esta não era a posição ideal, mas enfim… estávamos finalmente juntos) Fui posicionar-me do seu lado esquerdo, de forma a apoiar-lhe as costas quando necessitasse de fazer força. Ao meu lado esquerdo estava a minha sogra. Do outro lado estava a Obstetra (Dr.ª Benilde Magalhães) e uma Enfermeira. À frente das “operações” (claro), a Parteira.

Não sei precisar quanto tempo estivemos na sala de parto, mas aquilo pareceu uma eternidade. A Rute (muito segura) esperava concentradamente pela chegada das contracções ao mesmo tempo que eu dizia “vamos, vamos, é agora”, como que a indicar a chegada da contracção. Nos intervalos entre as contracções a Rute pedia apenas que a deixassem descansar.

A dada altura, comecei a ouvir a parteira dizer para a obstetra: “É pena esta membrana (Vagina Cepta – problema que lhe foi diagnosticado no “toque” já na sala de dilatação), senão ele nascia já. Se não nascer na próxima temos de ir para o bloco”. Fiquei a pensar… Mau… tanto trabalho e agora vai uma cesariana? Para piorar as coisas a obstetra respondeu: “Se não sair desta pomos os fórceps ou a ventosa”. Aí é que fiquei em pânico. Já não chegava o receio da cesariana e agora a médica queria usar “ferros” para tirar o André. Como sou conhecedor dos efeitos dessas manobras no bebé, fiquei ainda mais assustado mas sempre confiante no trabalho dos profissionais que estavam naquela sala.

A parteira parou uns momentos e disse: “Não! Ela vai fazer muita força e é da próxima que ele sai!”. Fiquei mais descansado mas com receio de que o André não saísse ainda. A contracção veio, a Rute começou a fazer muita força, toda a gente começou a encorajar a mais força e… saiu. Foi lindo.

 

Foi o momento mais feliz da minha vida. Estava finalmente na companhia das duas pessoas que mais amo neste mundo: a Rute e agora o André.

No momento em que ele saiu e começou a chorar, eu chorei com ele de tanta emoção e de tanta felicidade pelo facto de o ter visto pela primeira vez e de ver que estava tudo bem com ele. Depois agarrei-me à Rute a chorar e a beijá-la de tanta felicidade. Estava tão concentrado neles, que nem me apercebi da Parteira a dar-me a tesoura para cortar o cordão. Enfim, lá “separei” o André da mãe. Foi também um grande momento para mim.

A Rute sempre transmitiu à sua Obstetra Dr.ª Benilde Magalhães como ela gostaria que fosse o seu parto, e a verdade é que ela felizmente também esteve presente e ajudou a que as suas vontades fossem respeitadas. Foi curioso presenciar o contentamento dos profissionais de saúde com o facto de a Rute estar decidida a não querer recorrer a qualquer tipo de fármaco e com a sua postura activa em todos os momentos.

Por tudo isto, acho que foi um parto simplesmente espectacular, tanto para a Rute (segundo ela) que não sofreu “nada”, o teve como quis, como para mim que não gostaria mesmo nada de ver os dois a sofrer.

A presença da Sandra foi muito especial, com a transmissão de conhecimentos à Rute (e a mim) sobre o parto hospitalar, passou a mensagem do que efectivamente seria bom que fosse diferente, mas transmitiu-nos que aquele não é o momento para conflitos, com o apoio que me deu na altura em que tudo parecia estar perdido e com o seu depoimento no Bionascimento sobre o seu próprio parto, pois foi aí que vimos que o parto não medicamentado em ambiente hospitalar não só era possível, como estava também muito nas nossas mãos.

Tinha 31 anos quando engravidei. Primeiro filho, muuuuuuito desejado e programado ao pormenor. Enchi-me de informação: devorei livros, mantive o computador ligado horas a fio, ávida de saber que ia procurando na internet. Para mim, um parto natural sempre foi uma evidência tão incontornável como a do “dois e dois são quatro”. E quando digo “natural” falo de um processo em absoluta sintonia com o que a natureza manda, sem batotas.

A médica obstetra que me seguiu ao longo da gravidez já tinha dado a entender que não gostaria nada que a Rita se acomodasse por mais de 38 semanas. O mesmo é falar de indução às 39 semanas, nem mais um dia. Eu ia dizendo que sim, como quem diz “está bem, abelha”, certinha de que nada nem ninguém me faria precipitar um trabalho de parto que eu sabia muito bem que poderia iniciar-se sem qualquer risco até às 41 semanas de gestação, uma vez que a gravidez decorreu com toda a normalidade e a Rita estava muito bem: um bebé de percentil 50, muito bem posicionado, com óptima frequência cardíaca, num útero enorme e de colo muito macio, acomodado numa bacia bem larga.

Eu sabia vagamente o que era uma contracção, uma vez que as senti desde muito cedo, talvez desde os 5 meses de gravidez, e vim a confirmar mais tarde, na preparação para o parto, que aquilo que vinha sentindo eram realmente contracções: moinhas fortes, que me paralisavam por momentos e deixavam o útero muito duro e empinadíssimo. A bebé deixava de mexer durante as contracções, para logo a seguir retomar a actividade frenética que a caracterizou desde sempre. No dia 8 de Setembro de 2004, demasiado cedo – vim a sabê-lo depois – comecei a dita preparação para o parto, pelo método psico-profiláctico, com a Dra. Graça Mexia, que preparou também o meu marido.

Com 37 semanas completas, a minha inexperiência dizia-me que a Rita estava para nascer: tornou-se muito difícil andar, sentia a bebé muito baixa. Uma ida à Clínica e um “toque” muito meigo, diga-se de passagem, confirmou as minhas suspeitas: o início do trabalho de parto estava iminente. Mas a verdade é que as contracções eram as do costume, nem mais, nem menos, sem qualquer regularidade de intervalo entre elas. Às 38 semanas começou o calvário dos CTGs semanais, feitos na maternidade onde a Rita havia de nascer, facilitados por um médico conhecido.

No CTG das 40 semanas, tive o desprazer de experimentar o tão temido “toque” à séria – foi aquilo a que posso chamar uma verdadeira brutalidade, absolutamente inútil, que não fez progredir em nada o trabalho de parto tão esperado. O tal médico conhecido ainda acrescentou: “Colo do útero permeável a dois dedos. Óptimo! Isto agora vai sangrar – é natural. Amanhã estou cá. Aparece logo de manhã e ainda se dá mais um jeitinho.

Ela está mesmo para nascer.” A verdade é que ainda apareci no dia seguinte, mas o instinto disse-me que era melhor fugir. Assim fiz. Trouxe a Ritinha acomodada e sossegadinha para casa. No dia seguinte, sexta-feira, dia 26 de Novembro, às 8h30 da manhã, ainda deitada, com o meu marido ao lado (que esperava também pacientemente o sinal) senti finalmente a tal contracção, que eu tinha tanto medo de não reconhecer, temendo que passasse por uma igual às outras. Mas não! Esta era francamente diferente e logo à primeira percebi que estava na hora. Sentei-me na beira da cama e respirei como aprendera.

As minhas inspirações e expirações profundas não foram suficientes para acordar o Paulo, embora fizessem bastante barulho. Esperei pela próxima já de relógio na mão. Veio dez minutos depois. Mais uma… O intervalo de tempo era regular, sempre de dez minutos, o que me pareceu muito curto – pensava que ia começar com intervalos de vinte minutos ou meia hora.

Debrucei-me sobre o Paulo e disse-lhe baixinho ao ouvido: “Amorzinho, é agora, entrei em trabalho de parto.” Nunca o vira passar tão rapidamente do sono à vigília. Perguntou-me: “Começou?!”. Fui logo para o banho, um duche rápido, embora soubesse que deveria aguardar pacientemente em casa, até as contracções aparecerem de cinco em cinco minutos – não tinha interesse nenhum em ir fazer a dilatação para a maternidade…

Depois do banho, as contracções sucediam-se de cinco em cinco minutos. Confesso que me assustou a rapidez do processo. Já o meu marido tinha tomado banho e ainda nos debatíamos na incerteza de ir ou não para a maternidade. Às 11h00 da manhã decidimos que estava na hora de arrancar. Os dois fingíamos uma calma que não tínhamos – há coisas que as aulas não ensinam, obviamente.

Da minha ficha de admissão constava o meio dia como hora de entrada. Devia ser mais ou menos isso. Entrei sozinha. O pai tem de ficar lá fora. Deram-me um saco onde deveria colocar toda a minha roupa e objectos pessoais, incluindo o relógio – explicaram-me que, caso houvesse necessidade de me conduzir ao bloco operatório, eu não poderia ter nada comigo, para garantir a assepsia de uma eventual intervenção. Este foi o primeiro revés num processo que eu queria controlar desde o início. Deixei de controlar o tempo. Depois de tudo bem amassado dentro do saco, até as botas de cano alto, segui para observação.

Confirmava-se o trabalho de parto em curso, com três dedos de dilatação. Fiquei desapontada, porque achei pouco, contava com cinco dedos pelo menos, tendo em vista as contracções já tão fortes e próximas. Assim sendo, perguntei se me deixavam voltar a sair par ir dando umas voltas a pé. A médica foi peremptória: Não! Já nem sequer ficava ali na dilatação, ia imediatamente para a box. Desde este momento passei a sentir-me como um cãozinho acuado, sem coragem para reagir. Pensava: se reajo, tenho medo que me tratem menos bem. É melhor deixar de parte as minhas convicções em nome da minha filha. É melhor não arranjar problemas. Mal sabia eu que, justamente em nome dela, era hora de reagir! São coisas que a vida nos vai ensinando assim…

Ainda na sala de observação, a médica perguntou, sem tirar os olhos da ficha que preenchia, como se fosse uma mera formalidade: “Vai querer epidural, não é verdade?” Só a minha resposta a fez tirar os olhos do papel: “Não.” Felizmente, o que disse então não teve sobre mim qualquer efeito, ou melhor, até teve – tornou-me ainda mais convicta na decisão de não querer epidural. Disse-me sorrindo: “Ah! Não quer agora, mas vai querer depois!”

Dali passei ao átrio de saída, por onde tinha entrado, para entregar ao meu marido o saco com as minhas coisas. Expliquei-lhe que já não me deixavam sair e despedimo-nos tristes por termos de nos separar, mas eu garanti que o chamavam quando chegasse a hora. Pedi-lhe por tudo que fosse almoçar, comer qualquer coisa, mas disse-me que não conseguia, ficaria à espera de ouvir o meu nome aos microfones da sala de espera.

Voltei a entrar. Encaminharam-me para uma casa de banho onde teria de ser depilada e me aplicariam um clister. A auxiliar de enfermagem, muito simpática, fez de tudo para me deixar à vontade, mas já não era possível. A verdade é que me sentia cada vez mais pequenina e desamparada. Segui então para a box e deitaram-me numa mesa de parto, com as costas levantadas, felizmente! Não suportaria ficar completamente deitada!

 

Comecei a tremer incontrolavelmente com frio. Supliquei uma manta vezes sem conta, mas as caras que me atendiam eram tantas, que eu já não sabia a quem me tinha dirigido e ia repetindo o meu pedido a cada vulto que mexia em meu redor. O trabalho de parto foi rápido, para um primeiro filho, mas passaram por mim, ao longo de quatro horas, pelo menos três equipas médicas! Uns iam almoçar e vinham outros; uns iam ao cafezinho e lá vinha outra cara nova; a parturiente do lado gritava e lá ficava eu sozinha, entregue a mim… e o corrupio nunca mais acabava! Mas o pior não era a agitação. Pior mesmo era sentir que tudo voltava ao zero a cada cara nova que chegava: novo “toque” e nova exclamação: “Ela está sem epidural???!!! E lá respondia a enfermeira que mais tempo vi ao pé de mim, em ar de troça: “Pois… o que é que se há-de fazer?! Diz que quer assim, que no tempo da mãezinha também não havia disso e as mulheres tinham filhos!!!” Pouco tempo depois de ter chegado à box, insistiram comigo para me manter deitada de lado, o que foi desastroso! Não me sentia bem assim e não fui preparada para esta posição de trabalho de parto. A enfermeira continuava a dizer-me que aquilo seria rápido, que estava para muito breve, com o colo do útero completamente apagado e a dilatação a progredir maravilhosamente.

Então percebi que se tinham esquecido do Paulo! E lembrei: “Não se esqueceram de chamar o meu marido, não?!” A enfermeira gritou: “Ah! Quer o pai?! Chamem depressa o marido desta senhora! Depressa!!!” O Paulo chegou logo a seguir. Foi tão bom vê-lo! A enfermeira decidiu romper-me a bolsa quando já estava com oito dedos de dilatação. Avisei assim que comecei a ter vontade de fazer força e logo que me deram sinal verde, voltei a pôr em prática o que aprendi. Nesta fase, já o clister que me administraram se revelava absolutamente inútil: por três vezes tive de pedir para me virem limpar – isto porque me deixavam imenso tempo sozinha, mesmo em período expulsivo, a tal ponto que o meu marido acabou por concluir: “É melhor gritares como fazem as outras, se não ninguém te liga!”

Aquela posição de lado deixava-me numa grande atrapalhação, não era assim que queria estar! Não foi nada daquilo que aprendi! Lá ia fazendo força, como achava que estava certo, a cada nova contracção. Esta fase, que deveria ser a mais rápida e fácil, prolongou-se por uma eternidade e ninguém me dizia nada. Ao fim de um tempo vejo outro médico junto de mim (mais um!) que, depois de exclamar “Sem epidural??!!” me diz simplesmente: “Está exausta. O esforço que está a fazer já não está a servir de nada. Vamos dar-lhe uma ajuda, sim?” Eu acenei que sim com a cabeça, já desesperada e sem me atrever à teimosia, com medo que a minha filha não estivesse bem. A enfermeira, enquanto descia a garrafa de soro para a maca, ia dizendo baixinho, como se me pedisse desculpa: “Alguma coisa se passa, não sabemos o quê… cordão curto, talvez…”

Deste momento guardo a recordação mais marcante do meu parto: a cara do Paulo, de braços caídos, lágrimas escondidas, a ver-me sair. Se não estivesse presa sei que tinha arranjado força não sei onde para lhe dar um beijo.

O maqueiro lá me levou a uma velocidade estonteante, que me deixou assustada e me fazia levar as mãos às portas com medo de cair. À porta do bloco operatório ouvi uma médica que falava a dois estagiários: “É um processo menos evasivo e que não comporta os riscos de uma cesariana”. Fiquei assim mais calma, porque percebi que falavam do auxílio com recurso a ventosa, não de cesariana. Não teria o parto com que sempre sonhei, mas sempre ficava mais próximo. Assim que aproximaram a maca da mesa de operação disseram-ma: “Vá! Passe para lá!” E eu só pensei: “Como??!! Não sou capaz! Não consigo!” Pensei mas não disse… sempre o tal receio de vir a ser mal tratada, limitava-me a acatar ordens, muito obediente. Só pedi: “Um momento. Estou com uma contracção, eu passo já.” Nisto ouvi: “Vamos! Não temos o dia todo!” E passei imediatamente. Alguém exclamou ainda: “Mas está sem epidural!!!” Neste instante voltei a ver o médico que me tinha falado na box e que dizia para o grupo de estagiários: “Temos aqui uma mãe exemplar! Com um autocontrole impressionante! Isto vai ser rápido.”

Confesso que estas palavras foram milagrosas e não sei se foi por isso que foram ditas, ou se eram francas. Sei que fiz força duas vezes: da primeira senti uma tesourada e à segunda a Rita nasceu! Ouvi: “Pronto! Nasceu!” Eram 18h04. Nove horas e meia depois da primeira contracção, às 8h30 da manhã, ali estava ela! 3,440 Kg; 49,5 cm; índice de Apgar 10. Ansiosamente olhei para a ver e agarrar, recordando a imagem gravada em mente, tantas vezes vista em filmes e documentários, da mãe que finalmente pode serenar com o seu bebé encostado ao peito. Não. Nada disso.

Pude vê-la, sim, mas nas mãos da médica que operou a ventosa e que se preparava para a aproximar de mim, quando o médico das palavras doces gritou: “Não! Não estique o cordão!” E pronto… levaram-ma.

A médica massajava-me a barriga e rolava suavemente o cordão entre os dedos, procurando facilitar a expulsão da placenta, enquanto comentava com os estagiários: “Até meia hora é normal, é fisiológico” Senti uma ligeira dor e vi que a médica estranhava o comportamento do cordão que parecia desfazer-se, esfarelava. Perguntou pela colega responsável pelas cesarianas e pediu-lhe ajuda. A tal colega explicou-me que ia dormir uns dez minutos, que até me ia saber bem. Percebi que a dequitadura seria manual. Antes do efeito da anestesia se começar a fazer sentir, ainda perguntei: “A minha filha?” e adormeci. Quando acordei virei-me automaticamente para o lado onde a tinha visto pela última vez e perguntei de novo: “A minha filha?” Trouxeram-ma, finalmente!

Fiquei com ela embrulhadinha ao meu lado, mas por muito pouco tempo. À saída do bloco lá estava o Paulo, ansioso, com todos os disparates a passarem-lhe pela cabeça para justificar a demora da nossa chegada. Um enfermeiro pegou então na Rita, pô-la ao colo do pai e eu segui para o recobro, de novo sem filha. Na sala de recobro perguntava por ela e se podia dar-lhe de mamar. O enfermeiro dizia que sim, mas só depois, quando descesse para a enfermaria, o que só aconteceu às 22h30! Tanto tempo sem mim! Eu tanto tempo sem ela! Porquê?! Não entendo! Que foi que me aconteceu de facto? O que foi que motivou o auxílio da ventosa? Que aconteceu à minha placenta? Porquê a dequitadura manual? Nunca tive resposta para estas perguntas… Nunca mais voltei a ver a infinidade de caras que passaram por mim a voar. Não tinha a quem fazer perguntas.

E fiquei assim, até hoje, nesta frustração, que só posso comparar à de um aluno que passa um ano inteiro a estudar, a preparar-se o melhor possível para um exame, para depois chumbar. É assim que me sinto ainda hoje, afogada nas minhas dúvidas. Resta-me o orgulho de ter escapado à cesariana, com um parto vaginal, sem epidural. E a quem me disse: “Vá! Diz lá agora. Para a próxima queres a epidural, não é?!” – posso dizer: Não! O próximo será de novo sem epidural e correrá exactamente como eu quiser!

É com o pensamento nas futuras mães, sobretudo as de primeiro filho, que aqui deixo este relato, para que possam viver o seu parto como SEU DE FACTO.

“O quê, vais dar peito? Que horror, parecem umas vacas!” assim tal-qual, uma das minhas melhores amigas e mãe de duas garbosas raparigas! “Sempre para ali a pingar…” o nojo era evidente. E eu, tão calma, estava segura de que ía dar peito, sim. Achava era que com as maminhas pequeninas como são as minhas, a coisa não ía ser nada de especial…

O Nuno nasceu no Verão, num parto muito mais complicado do que a deliciosa gravidez tinha prometido, e por isso teve de ir para incubadora. Na Alfredo da Costa ajudaram-me a ir-lhe mostrando como era que a coisa humana funcionava, a encostá-lo ao peito, a convencê-lo que dali vinha coisa boa. Milagre concretizado, no dia seguinte era eu que tinha leite para dar e vender – e as enfermeiras pacientemente lá me ensinaram a tirá-lo com a bomba, que eu que fosse paciente também, que ele havia de aprender. Aprendeu. E o leite transformou-se num deleite, num momento único, como nunca mais iremos ter, de cumplicidades, ternura (essa sim, escorria)… bocadinhos só nossos, como não volta a haver. Teremos sempre muitas coisas boas, fisicamente entre nós, porque aqueles foram momentos absolutamente maravilhosos.

E o estado em que a Natureza me deixou, que Graça, um busto que só de ver nas fotografias hoje em dia acredito! As maminhas funcionavam, sim senhores, e estavam enormes!

Até para a auto estima, nestes momentos em que deixamos de ser o centro do Mundo para que eles sejam…

Mas desenganem-se os cientificamente estanques: a sabedoria popular tem razão, sim. Habituei-me à cerveja preta sem álcool, e como adoro salmão e bacalhau, abusei do pretexto antigo de que dão bom leite, e fui comendo sempre que podia. Mas sabia, lá no fundo, que provavelmente aquilo era só conversa antiga, e que eu estava era a aproveitar uma boa ideia… Até ao dia em que, alheada dos ditos populares, fui com uns amigos à “chinchada” a uma figueira conhecida, recheadinha de figos, fruto do meu mais profundo prazer. Nessa tarde e noite, alarvei em figos como se não houvesse amanhã. Adorava aquilo, e mal não me faria. Acordei a meio da noite, antes da hora da mamada (ele tinha 3 meses nessa altura): Agora sim, parecia uma vaca leiteira! Estava cheia até mais não, deitava por fora, literalmente, sem controlo possível. A produção NUNCA foi tão profícua, nunca foi tão abundante. Tirei, tirei, tirei com a bomba, e no fim de tirar, tirar, tirar, ele acordou e mamou, mamou, mamou até já não poder mais…

De qualquer forma, em geral, eu tinha leite a mais. Tirava em casa, com bomba manual, e congelava, para se um dia eu não estivesse e houvesse uma emergência.

Funcionava tudo como previsto: Antes dele acordar, subia-me o leite…. Ou se a voz dele chamava. Maquinal, perfeito. Tive um caroço grande e chato, e fiz tudo o que nos ensinam os pediatras e as enfermeiras e os livros, mas parecia que era inabalável. E que o bebé não tinha fome que chegasse nunca. É só uma questão de paciência, de cabeça, de saber dizer que não às visitas (eu nessa altura ainda não sabia…), de não querer ser super-mulher. Ajuda muito, a cabeça.Até para fazer leite, ou para o ajudar a não ser desperdício.

O Nuno mamou exclusivamente até às papas serem alternativa diurna e eu ir trabalhar. Mas continuou a mamar sempre, de manhãzinha e à noite, cinco meses. Até um dia, quando já era só mais por mimo meu do que por ele, em que tive um desgosto terrível, dolorosíssimo. Nessa noite quando lá cheguei, á boca dele, já só havia hábito, leite nem vê-lo. E ele achou muito natural…

O bebé seguinte veio a jacto, e um bocadinho depois de nascer, também na MAC, quando a enfermeira me perguntou se o queria pôr ao peito, eu disse “hum, podemos tentar, mas eu ainda não tenho leite nenhum…” já não tinha dúvidas que ía ter, que ía ser bom, mas achava que só mais lá para o dia seguinte… Foi só pô-lo a jeito. Agarrou-se logo à maminha, e o leite, ou o que o anunciava, apareceu. Novo milagre.

Mas desta vez ele mamava tanto, eu gostava tanto, e a coisa era tão boa em geral, que claro que a produção excedeu a procura, e formei dois enormes caroços. Foi aí que uma amiga belga me disse “ põe couves portuguesas. A sério, põe-nas à volta das mamas, como se fosse um soutien, por dentro do soutien. Á hora da mamada elas já estarão cozidas, lavas bem o peito, dás o leite e depois pões couves novas. Pode ser lombarda…. Vais ver, vais parecer a Gina LoloBrigida!!!”. Adorei a ideia, e sobretudo a hipótese de me safar daquele tormento sem estragar nada, sem ele dar por isso, sem haver rasto que me escurecesse aquela memória.

Minhas Senhoras (sim, e Meus Senhores), Viva a Couve! Não há melhor. Tive outro caroço mais tarde e voltei a fazer o mesmo, e recomendei ao longo dos anos a mais amigas – e não há que enganar! Parece que há um qualquer efeito da couve na pele que ajuda a amaciar tecidos, e a fluir o que quer que seja que os compõe e alimenta, facilitando que tudo o resto se passe em paz. É “a” receita do aleitamento, o meu top of the pops, não pode ser melhor (tirando o nosso aspecto, entre a dita Gina LoloBrigida e a Jane do Tarzan…).

O Zé mamou seis meses, e depois foi a passagem de ano. Fui cinco dias para fora, de bomba atrás, de carro, sem ele. Fui tendo cada vez menos, esforçava-me por não tirar muito para ver se não crescia mais (que típica!). Chegou o dia do regresso, dez horas de carro de volta a Portugal. É mesmo verdade: à medida que nos aproximávamos, o leite foi voltando. Achei que era só impressão, que era eu com saudades (muitas) do que sabia que nunca mais ía ter na vida – em princípio. Mas não, era mesmo, pura e simplesmente, leite. Porque estava a chegar-me a ele. Que mamou deliciado na minha maminha, depois de uma semana a papas e fruta… Só durou uma semana, mas foi dos Milgares mais bem conseguidos que já vi.

Como o nosso, de todos os dias. Como a vida. Como esta bênção, que não deveríamos descurar e de que deveríamos poder falar mais, mais vezes, com maior prazer ainda. Fomentar, criar condições, sorrir à passagem por uma mãe que amamenta num banco de jardim, comovermo-nos com um anúncio (não há) em que o único som fosse aquele delicioso, animal, baixinho e tãããão ritmado “glup, … glup, … glup” que eles fazem com mestria.

Não há NADA igual.

Eu só soube já crescida e mãe de filhos, que nunca tive peito. Pelos vistos não me fez falta, cresci saudável, correu tudo bem com a minha relação com os biberons, o corpo, a minha mãe.

Mas o que eu ganhei com o aleitamento dos meus filhos não tem nome, nem tempo e espaço para contar, é maior que eu, é a própria vida. E a sensação de escorrer ternura, vou levá-la comigo para sempre, em cada sorriso que lhes devolver.

Margarida Pinto Correia

Estou há algum tempo para escrever e partilhar a minha experiência do parto da minha filha.

De facto sempre acreditei que ter um filho é algo de perfeitamente natural e por isso nunca consegui conceber que a minha filha nascesse num hospital de uma forma fria e impessoal… e sem que o pai fizesse parte do processo.

Quando tivemos a notícia que estávamos grávidos ficámos radiantes eu e o pai da Beatriz… começámos a pensar como é que iria ser a nossa vida dali para a frente, mas começámos também a pensar no parto em si, não nas dores nem no processo pois essa parte não me assustava mas sim no ambiente e fizemos uma pesquisa para tentar encontrar em Portugal um sítio onde pudesse-mos ter a nossa filha sem interferências mas com apoio e com a possibilidade de sermos nós a controlar todo o processo do trabalho de parto e do parto em si. Infelizmente não encontrámos. Falámos, no entanto, com algumas pessoas que tinham tido uma experiência, semelhante ao que procurávamos, em Espanha mais propriamente em Beniarbeig perto de Alicante e Valência. Na verdade todos os testemunhos que ouvimos foram tão positivos e entusiásticos que não hesitámos.

Em Agosto fomos visitar a clínica, e na verdade saímos de lá os dois com a certeza que seria alí que a nossa filha iria nascer não pela clínica em si, mas por todo o ambiente, postura e pela filosofia de todas as pessoas que lá trabalham.

Escusado será dizer que tanto a nossa família como amigos acharam que era uma loucura.. fazer uma viagem de perto de 1000km de carro às 38 semanas de gravidez para ter a criança em Espanha (!) Na verdade muitas pessoas ainda hoje acham que foi um capricho…

E assim partimos.. no final de Outubro, às 38 semanas, partimos para Beniarbeig. Acomodámo-nos num hotel em Denia (3km de Beniarbeig), em frente ao mar e esperámos que a Beatriz tivesse vontade de nascer.

Todas as semanas passava na clínica para ver se estava tudo bem com a Bea, o pessoal de enfermagem era sempre muito atencioso e colocaram-me sempre à vontade para lá ir sempre que tivesse qualquer dúvida, sem nos cobrarem absolutamente nada, para além da primeira consulta e do parto em si!

Na realidade as semanas passavam e a Bea não parecia muito interessada em sair do quentinho… eu estava muito descontraída. eu e o meu marido aproveitámos para estar juntos aquelas semanas antes da Bea nascer, o que foi óptimo para ambos e fartámo-nos de passear.. foi também muito bom para nós este tempinho que a Bea nos deu. Mas às 42 semanas eu já estava mais que muito ansiosa.

O meu marido também precisava de regressar, afinal já lá iam 4 semanas longe do emprego, e tivemos que provocar o parto, que foi para mim o mais triste de tudo….

Mesmo a forma de provocar o parto foi diferente do habitual.. mas sofrida, muito sofrida. Começaram por me dar óleo de ricio… que provoca, para além das cólicas e efeito laxante, contracções poderosíssimas. Tomei o óleo de rício no dia 16 de Novembro às 23h e às 00h de dia 17 já tinha contracções dolorosas de 3 em 3 minutos… Fomos para a clínica na certeza que seria naquela noite que a nossa menina iria nascer, mas apesar das contracções quando chegámos à clínica tinha apenas 2 cm de dilatação.. nada a fazer a não ser esperar.. Com contracções fortíssimas de 3 em 3 minutos. Pensei que não ia aguentar, mas até às 9h da manhã só tinha mais 1 cm de dilatação. Já lá iam 9 horas e apenas 3 cm… pensei que não ia aguentar.

Entretanto conheci na clínica o pai de um bebé que tinha nascido na noite anterior e ele fazia acupunctura e aparentemente ele tinha usado a acupunctura para que a dilatação da mulher acontecesse mais rapidamente… 8 cm em 2 h… como me pareceu prometedor e como não tinha nada a perder em experimentar, começámos uma sessão de acupunctura e, na verdade, as contracções eram ainda mais poderosas durante a sessão, mas quanto à dilatação mantinha-se na mesma… descobri durante a sessão que aquele era o 7º filho que a mulher dele tinha… talvez isso também tenha ajudado à rapidez com que conseguiu os 8 cm de dilatação (?).

Eram 13h e continuava com os 3cm de dilatação e com contracções dolorosas de 3 em 3 minutos… tivemos que tomar a decisão que mais me custou em tudo que foi iniciar com a oxitocina e o rompimento da bolsa para acelerar o processo… só tive vontade de chorar. Mas naquela altura já não podíamos voltar atrás e a Bea teria mesmo que nascer… Já tínhamos passado as 42 semanas e eu já tinha medo que algo pudesse estar mal com ela, apesar de estar constantemente a ser vigiada e ligada ao CTG que garantia que ela estava óptima.

A partir desta altura as contracções começaram a ser menos espaçadas e mais longas. 1 Minuto com um minuto de intervalo. Já não conseguia respirar. Tudo o que tinha aprendido nas aulas de preparação para o parto não valeu de nada pois disseram-me logo que a respiração “cão cansado” não era boa pois não estava a introduzir oxigénio suficiente no sangue e que ia até ao meu bebé. O que me ensinaram a fazer foi a deixar o meu corpo ir e não tentar controlar as contracções. Deixar que todo o processo se desse por si mesmo e respirar fundo. Não foi fácil… mas senti que era a melhor forma de ajudar a minha filha a nascer.

A sala de partos era muito agradável e acolhedora, e durante todo o processo o meu marido esteve sempre comigo, aliás estávamos apenas os dois. Eu podia tomar as posições que quisesse, andar, ficar de gatas, de cócoras, como me sentisse mais confortável. Sempre que necessário a enfermeira e a parteira estavam mesmo ao lado e podíamos chamá-las…

Entretanto estava com 6 cm de dilatação, mas sentia que a Beatriz não descia e comecei a ficar assustada… senti vontade de ir para dentro de água e prepararam tudo para que eu entrasse na banheira de partos. Estive lá dentro durante cerca de 30 minutos. Ajudou, mas naquela altura já estava com tantas dores que precisava, de facto de algum apoio, de um abraço… já estava a desesperar porque começava a acreditar que, apesar daquele esforço, já estava à perto de 19h em TP, a Bea não estava a descer e ia acabar numa cesariana… e só queria que tudo acabasse. Acho que este foi o pico de adrenalina que tanto falam em que perdi completamente o senso. O meu marido sentia-se completamente impotente pois até aquele momento eu ainda não me tinha queixado uma única vez das dores e agora chorava para que ele me ajudasse, de qualquer forma … Ainda hoje, 3 meses depois, lhe peço desculpa por aquele momento.

Neste momento foi importantíssima a intervenção da parteira Rachel Mcloud que me tranquilizou, agarrou na minha mão e disse-me que eu é que tinha que ajudar a minha filha a nascer e que tudo dependia das duas. A verdade é que acalmei e as horas seguintes passaram de uma forma muito calma.. deixei as contracções tomarem conta do meu corpo e concentrei-me da minha filha, o quanto a queria e o quanto a amava… e que tudo aquilo era necessário para poder sentir o cheiro dela e segurá-la nos braços.

Ás 22h a Rachel disse-me que estava na hora. Ainda não sei como é que ela se apercebeu primeiro que eu. Mas a verdade é que a Bea tinha descido e estava na altura de eu lhe dar a ajuda necessária..

Foi de cócoras, apoiada pelo meu marido, que tive a Bea.. Num ambiente muito acolhedor, sem anestesias, sem episotomias, sem intervenções desnecessárias… Fui eu que puxei um pouco da cabeça da minha filha, enquanto a Rachel me dizia para eu sentir a minha filha e para puxar enquanto a minha boca disse que não conseguia as minhas mãos puxaram… Às 22h e 20m a minha princesa estava cá fora de olhos abertos a olhar para nós e logo de seguida colocaram-na no meu peito para mamar…

Indescritível todos os sentimentos que rodearam este momento. O poder vivê-lo com o meu marido que teve um papel tão importante no parto da filha… porque na verdade ele não assistiu apenas. Ele viveu o parto da nossa filha com a mesma intensidade com que eu vivi porque se ele não teve as dores… de certeza que sentiu a dor de nada poder fazer para me aliviar. Mas tudo isso faz parte e é natural… e reforçou todo o amor que temos um pelo outro.

E desde o primeiro minuto estivemos sempre os 3 juntos. A minha filha dormiu a primeira noite em cima do meu peito, e nunca estivemos um único minuto separadas.

Tive que levar pontos, é verdade, mas foram apenas 4. Menos de 48 h depois estava a fazer a viagem para Portugal. 1000km de carro, e não foi nada de transcendente.

Peço desculpa por ser tão extenso este meu relato, mas foi de facto uma experiência muito rica… Muita gente me diz que “passei um mau bocado” é verdade! Mas se voltava a fazer o mesmo, sem duvida que voltava para que o meu marido pudesse voltar a estar presente e para que eu pudesse ter a liberdade de optar como o fiz, pois tenho a absoluta certeza que se fosse em Portugal teria, sem dúvida, acabado numa cesariana e não teria podido participar desta forma no nascimento da minha filha. Se podia ter pedido epidural, também podia, mas não poderia, mais uma vez, ter um papel tão activo no nascimento da Bea.. nem tê-la na posição que o meu corpo pediu na altura, de cócoras…

Guardo uma recordação muito boa do meu parto, assim como o meu marido. Guardo também um carinho muito grande pelas pessoas que me assistiram lá.. o Dr Enrique Lebrero, a Parteira ou matrona Rachel Mcloud e a enfermeira Cármen que assistiram ao parto e que se retiraram logo que se certificaram que eu e a Bea estávamos bem para que eu a Bea e o meu marido pudéssemos desfrutar do nosso primeiro momento a 3…

Foi tudo muito especial e só lamento que tenhamos tido que realizar uma viagem de 1000km para que a Bea pudesse nascer da forma que achamos natural e correcta…

Tive uma gravidez normal, desejada, aos meus 34 anos, primeiro filho, (uma menina). Pelo menos até às 35 semanas, não tive qualquer problema físico, apenas muitas “neuras” e dúvidas que devem ser comuns a todas mamãs. Numa dessas “neuras” tive o privilégio e a felicidade de conhecer através da internet a Sandra e a Rute, as minhas duas “amigas virtuais” como as costumo tratar, a quem ficarei eternamente grata pelo apoio, informação, paciência, sensibilidade e carinho com que me mimaram durante a gravidez, sem as quais tudo teria sido muito mais complicado de ultrapassar, não me canso de o dizer a toda a gente!

Às 35 semanas, em Novembro, fui parar ao centro de Saúde onde fazia o acompanhamento, com umas dores fortes mas suportáveis, (tanto é que fui a pé para o Centro, embora parasse bastante no caminho para respirar) que fiquei eu a saber quando lá cheguei eram contracções, estava a dar início ao trabalho de parto, tinha já quase 2 dedos de dilatação. A data provável do parto era para 6 de Dezembro, faltava praticamente 1 mês. Deixei imediatamente de trabalhar com recomendações de repouso absoluto, para aguentar a bebé até pelo menos as 37 semanas. Na manhã seguinte perdi o famoso “rolhão”, o que me levou a acreditar que estava mesmo para breve e imaginei logo o pior, como toda a mãe de primeira viagem, suponho! Felizmente a enfermeira que me acompanhou durante a gravidez, no Centro de Saúde, sossegou-me, dizendo que mesmo assim ainda poderia demorar semanas, para continuar com o repouso, não fazer esforços e ter calma. Tudo correu bem, felizmente, e a pressa de a bebé nascer não passou de um enorme susto, visto que se aguentou até às 41 semanas e meia! No entanto, a partir das 38 semanas passei a fazer os CTG e embora estivesse normal, começaram (designadamente a enfermeira que me acompanhava) a falar de me fazer um descolamento da placenta para “dar uma ajudinha”. Mais uma vez tive sorte, porque fui-me esquivando, na última Sexta-feira que fiz o CTG, (tinha passado a d.p.p. apenas 4 dias) ela disse-me “Segunda-feira faço-te o descolamento, anda ter comigo ao meio-dia” e na Segunda, dia 12 de Dezembro, ao fim de manhã a bolsa rebentou! Entrei em contacto com ela que me aconselhou a ir para o Hospital onde ia ter a bebé durante a tarde, não precisava de ir a correr, uma vez que o líquido era “limpo” mas para me ir dirigindo para lá. Foi o que fiz.

Tomei um copo de leite ao almoço com qualquer coisa leve e lá fui com o meu marido, deviam ser umas 2h da tarde. Dei entrada nas Urgências do Hospital, como me tinham aconselhado, uma vez que não tinha feito lá o acompanhamento. Tinha questionado no Centro de Saúde se não devia ir lá fazer uma consulta para terem dados meus quando fosse a altura do parto, mas disseram-me que não valeria muito a pena porque era pouco provável que o médico que me atendesse para consulta fosse o que me iria fazer o acompanhamento do parto, só com muita sorte isso poderia acontecer!

Nas urgências passei pela triagem, tudo relativamente rápido e fui parar a obstetrícia, aí aguardei, (após entregar o documento que trazia das urgências a dizer qualquer coisa tipo atendimento prioritário) pelo menos 45 minutos. Não me preocupei, estava bem, tinha já uns indícios de contracções, coisa leve, comparando com as que tinha sentido às 35 semanas e fiz/recebi ainda alguns telefonemas enquanto aguardava. Sentia-me feliz, só de pensar que dali a umas horinhas já ia ver a nossa bebé! Então fui recebida, fizeram-me o toque meio à bruta, quando me retraí instintivamente e disse ai, recebi um: “-então “menina” Comporte-se!” ainda mais bruto como resposta. Fiquei logo com os olhos cheios de água e assustou-me aquele tratamento. Depois puseram-me a fazer o CTG, durante pelo menos uma hora e o meu marido (João) cá fora sem saber mim, embora eu o prevenisse de que isso podia acontecer. Durante esse tempo o pessoal hospitalar, nomeadamente o médico que me consultou e uma enfermeira, entravam na sala, olhavam para o papel da máquina e saíam. Comecei a perguntar se estava tudo bem e lá me iam respondendo que sim. No fim do CTG, novo toque, desta vez doeu-me ainda mais e disseram-me que iam provocar o parto porque já me tinham rebentado as águas há muito (nesta altura deviam ser umas 6 da tarde) e tínhamos que “acelerar” o processo. Tinha, segundo percebi pela conversa do médico com a enfermeira, 2 dedos de dilatação. Fiquei para morrer, porque uma amiga minha que teve um parto provocado disse-me horrores e eu estava sentir-me tão bem, tão calma e se só tinha 2 dedos de dilatação então estava para demorar, enfim, tive medo, imaginei logo a bebé a sofrer lá dentro e pensei o pior. Perante isto e a sensação de abandono que tinha sentido na última hora e meia, ali sozinha, sem me dizerem nada, sem ninguém conhecido para falar, fiquei mesmo assustada.

Fui finalmente ter com o João, fomos buscar os sacos ao carro e só me apetecia vir embora com ele e ter a bebé em casa ou numa clínica particular, onde tivesse os mimos todos! Infelizmente não temos posses para tal, daí eu ter recorrido a um hospital público. O João ainda entrou comigo, logo para sala de partos, nem fui deixar o saco ao quarto onde iria ficar, nem nada, tudo muito à pressa porque segundo esta outra enfermeira tínhamos que acelerar. Troquei a minha roupa pela bata hospitalar, separei a minha camisa de noite e a 1ª roupinha para a bebé, puseram-me o soro, achei tudo muito normal. Logo de seguida um outro frasco ao lado a dizer oxitocina, para “acelerar a dilatação”, segundo me disse a enfermeira quando a questionei. Aí o João veio a casa jantar e dar notícias aos familiares e fiquei completamente sozinha. Lá vinha uma contracção de longe a longe, outra enfermeira passou pela minha sala e deu-me alguns conselhos para respiração, (uma vez que eu não tinha feito preparação para o parto, porque me disseram no Centro de Saúde que não seria muito útil (“na hora esqueces-te de tudo e a pessoa que te der as aulas não vai estar contigo”), além de que no Centro de Saúde não as faziam e a título particular ficavam muito dispendiosas). Fui-me valendo da respiração e fui andando pelo quarto, agarrada ao suporte do soro e ia suportando bem as dores. De vez em quando lá vinha uma mais forte, abaixava-me, dobrava-me, ou até mesmo a andar em círculos, à volta do suporte de soro, respirava e assim passava até vir outra. Até me aparecer a primeira enfermeira que me prendeu às cintas para ir acompanhando o estado da bebé. E foi-se embora.

As dores intensificaram-se, comecei a não suportá-las, na altura pensei que era por estar deitada, não me conseguia mexer muito e era muito mais difícil aguentar a contracção até ela passar. Gemi, chamei, não apareceu ninguém, ouvi vozes lá fora, mas como havia mais salas de parto deduzi que estava toda a gente ocupada e lá fui aguentando, a gemer cada vez que vinha uma contracção. Quando finalmente apareceu a enfermeira eu estava a ficar de rastos, queixei-me bastante, ela perguntou se queria epidural, eu acedi de imediato, embora não fosse essa a forma como idealizei o meu parto, mas nada estava a correr como esperava, sentia-me sozinha, abandonada e cheia de dores, só que queria que aquilo acabasse, já nem a respiração me ajudava, pedi para me deixar andar a pé, respondeu-me que tinha que estar com as cintas, pedi para ir à casa de banho e aquele bocadinho, embora me sentisse praticamente a desmaiar na casa de banho, aguentei muito melhor as dores, mas lá tive que voltar para a cama e para as cintas. Nessa altura deviam ser aí umas 8 da noite e após vários toques que eu continuava a achar muito dolorosos, perguntei se faltava muito e tinha só 4 dedos de dilatação! Fiquei de novo sozinha a gemer, quando o meu marido apareceu eu estava literalmente a atirar-me abaixo da cama, de lado, agarrada ao suporte do soro, a gemer. Estranhou eu estar completamente sozinha, porque na sala de entrada, tipo “sala de estar” tinha lá enfermeiras sentadas, enfim, lá me queixei, contei-lhe da epidural e mal apareceu a enfermeira perguntei-lhe se sempre me iam dar a epidural ao que ela me respondeu que a doutora/anestesista estava a acabar uma cirurgia e que já vinha. Fui gemendo e fomos perguntando pela anestesista e a resposta sempre a mesma, que já vinha, isto durou praticamente 2 horas e meia, sempre a dizer que ela já vinha, a uma determinada altura gemia tanto que me desligaram o tal frasco da oxitocina e me puseram a oxigénio, o meu marido falava para mim e eu nem conseguia responder, só pensava: “não posso desmaiar, tenho que respirar, não posso desmaiar”, porque me sentia mesmo a desfalecer, zonza, nem conseguia ver direito. E fiquei só com o soro.

Passados uns 10m de desligarem a oxitocina, ou por causa disso ou por causa do oxigénio, comecei a sentir-me logo muito melhor. Fizeram-me novo toque, não me disseram nada, mas como este já não me doeu, nem me importei! Então lá para as 23:30h a anestesista chegou, mandaram-me levantar, muito depressa porque a Drª não podia esperar e fui a pé, (ainda bem que me sentia melhor, senão acho que não teria conseguido!) até ao fundo do corredor, para uma sala gelada que na altura me soube muito bem, mas fiquei lá sentada, à espera ainda uns 15m, mais uma vez sozinha porque não deixaram o meu marido acompanhar-me, à espera da Drª. Quando ela chegou eu disse até que enfim, em tom de desabafo ao que ela me perguntou, “porquê? Tá à espera há muito tempo?”, eu respondi, “talvez aí há 2 horas”. Ficou chocada, respondeu-me: “Mas a mim ninguém me disse nada! Podiam ter chamado há mais tempo!” Nem respondi, de tão desanimada que estava, só queria que aquilo tudo acabasse. Então a enfermeira veio ajudar a dar a anestesia, começaram as duas a discutir, eu só pedi á enfermeira que me desse a mão e não me deixasse sozinha, fazia-me muita impressão a anestesia. Ela ficou mas a discutir com a Drª. Depois regressei à sala de partos, começaram a preparar tudo, apareceu o médico que me internou e mais uma nova enfermeira que disse ao João que podia assistir mas só até o médico dizer, porque a determinada altura teria que sair para o corredor. Não percebemos nada, mas como era praticamente meia-noite e ele por norma do hospital teria que vir embora a essa hora, só o deixaram ficar porque o parto estava mesmo eminente, concordámos. “Prepararam-me”, puseram-me de novo o oxigénio, falavam entre eles, a mim só me diziam” respire, respire para oxigenar o bebé”, perguntei se estava tudo bem, só me diziam para respirar e ouvi-os a mandar chamar uma pediatra e nessa altura fiquei com a sensação de que algo estava errado, porque olhavam muito para a máquina da CTG e uns para os outros e falavam baixinho, até que comecei a sentir muita vontade de fazer força e disse isso, e o médico respondeu-me: “vai fazer força quando eu mandar”, então fiz força umas 3/4 vezes, agarrada ao meu marido primeiro e depois aos ferros laterais da cama, depois chegou a tal pediatra e mais umas quantas pessoas que nem imagino quem fossem e continuei com a sensação de que algo não estava bem, até que fiz força mais umas 3 vezes, mandaram o meu marido sair da sala, (mas passado 5 minutos estava lá outra vez ao pé de mim, não percebi nada, nem ele!), senti a cortarem-me, (a esse respeito ninguém me perguntou nada, deduzo que seja um procedimento normal) e vi o médico com uma ventosa na mão e disse-me: “quando eu disser vai fazer toda a força que conseguir! Vamos lá!” Nem era preciso, ele disse para fazer e eu estava mesmo com vontade de fazer força nessa altura e senti uma sensação esquisita da minha barriga a ir abaixo, tipo a esvaziar e ouvi um choro! A partir daí não quis saber de mais nada, só queria vê-la! Todos sorriam, fiquei mesmo feliz! Levantaram-na um bocadinho para eu ver porque o cordão umbilical era mesmo muito curto, ainda ouvi o médico dizer” Cordão mesmo muito curto, nunca tinha visto curto assim curto, daí as …“lacerações””, ou outra palavra assim parecida. Depois de cortar o cordão puseram-na em cima da minha bata ainda toda roxinha, achei-a tão gordinha! Perguntei logo se era perfeita e ficamos ali a babar, eu e o pai, uns 5 minutos! Depois levaram-na, o pai foi com ela ver a lavar, a vestir e isso tudo, até deixaram que lhe tirasse fotografias!

E enquanto isso estavam a cozer-me e a lavar-me, o médico e a tal pediatra e a falar da vida deles, nem me ligaram nenhuma, mas nessa altura eu estava embrenhada a pensar na bebé! Só perguntei quantos pontos tinha levado, 7 exteriores, os interiores não se contam, responderam. Antes de se despedir o médico desculpou-se pela demora da anestesista, mas que o pessoal dele a tinha chamado, ela é que não veio porque tinha mau feitio e não se entendia com eles e mais não sei o quê, eu lá queria saber disso para alguma coisa! E desculpou-se também pela marquinha que a bebé tinha na cabeça, provocada pela ventosa, mas que aquilo ia desaparecer, eu nem vi nada, achei-a tão perfeitinha! E lá veio mais pessoal que me vestiram a minha camisa de noite e me passaram para a maca e ao sair da sala de partos, tinham-se passado aí uns 15m, o meu marido já trazia a bebé no colo, lavadinha e vestidinha e deu-ma, mandaram-no sair, nem foi comigo ao quarto, dado o adiantado da hora, despediu-se e foi-se embora todo babado.

Mal cheguei ao quarto veio nova enfermeira ter comigo, mandar por a bebé ao peito, viu-me o peito, apertou-o e disse logo: “Óptimo! Tem colostro, tem um bom peito, é pô-la já a mamar!” Ela pegou logo no bico de peito, é impressionante como os bebés nascem a saber estas coisas! A enfermeira ainda me deu umas dicas para ajudar a ajustar a posição e lá fiquei a dar de mamar à minha menina! E a olhar para ela! Escusado será dizer que não dormi nada, mas não foi com dores, nem de tristeza, nem de alívio, foi mesmo de fascinada que estava a olhar para a bebé! Fiquei horas assim! Ela nasceu às 24:45h, com 3,620 kg e 51,50 cm e um índice de Apgar 8 ao 1º minuto e 9 aos 5º minuto.

Dos 3 dias que fiquei internada não tenho razão de queixa, a bebé esteve sempre ao pé de mim, na minha cama, tínhamos um bercinho ao lado mas ela esteve sempre ao pé de mim, o pessoal hospitalar era mais atencioso naquela parte do Hospital, embora estranhasse alguns procedimentos, do género darem-me comprimidos para tomar ao lanche para as dores, (eu não os pedi!) e às minhas 2 colegas de quarto não, a do meu lado direito tinha uma enfermeira que lhe ia falar e dar informações sobre cuidados a ter com o bebé e era já o seu 2º filho e a mim e à outra colega não nos diziam nada! Ainda nos rimos à custa disso! Mas no meio de tudo isto, ficou-me uma angústia tão grande do dia do parto que já sonhei (tive pesadelos!) com isso várias vezes, com aquela sensação de dor insuportável e eu a sofrer sozinha.

Daquelas horas só recordo com alegria a partir do minuto que vi a bebé, até lá nem gosto de me lembrar, dá-me uma angústia, uma raiva, por toda aquela sensação de abandono e de falta de informação, de medo por não saber o que fazer e o que se está a passar!

Eu entendo que os profissionais estejam lá para fazer o serviço deles mas também deviam informar, até por uma questão de acalmar as pacientes, não ajuda eles agirem desta forma, tipo: “Nós sabemos o que estamos a fazer e você limite-se a ficar aí e a fazer o que lhe mandam”. A discussão que tiveram na minha frente também revelou uma falta de coordenação dos serviços e falta de respeito, quer pelos colegas, quer pelas pacientes, numa altura em que estas requerem cuidados. No meio de tudo isto, tenho, apesar de tudo, de ficar grata por terem deixado o meu marido assistir, apesar de já passar da hora permitida, e o facto de me terem praticamente abandonado fez com que ele ficasse comigo, a dar-me apoio, porque a ideia inicial dele não era assistir ao parto, mas ao chegar ao pé de mim e ao ver-me assim sozinha a sofrer não teve coragem de me deixar! Ter uma sala de partos só para mim também suponho que foi bom, pelo que sei não é esta a realidade da maioria dos nossos hospitais públicos, mas isso acabou por se voltar contra mim, parecia que se tinham esquecido de que estava lá! Quanto à tricotomia, embora eu já levasse a depilação feita, pensava eu que me iam fazer o toque quando senti a raspar e a enfermeira de lâmina na mão, mas ela estava tão entretida a falar com a colega do lado e eu a suportar as contracções que nem disse nada. A episiotomia, também, no desespero da hora, só senti uma tesourada e uma dor fininha, naquela altura eu já estava por tudo, doeu-me mais propriamente depois a coser e o incómodo dos dias seguintes do que o corte na hora. Também me questiono se à hora a que levei a anestesia esta seria mesmo necessária, já não senti o ultimo toque (antes da anestesia), sinal de que já devia estar bem dilatada ou tão prestes a desfalecer que nem senti! Quando me pararam a oxitocina e me senti logo melhor, foi quando resolveram administrar a anestesia e mal cheguei de novo à sala de partos, passado nem ½ hora a bebé estava cá fora! Tenho as minhas dúvidas se cheguei a sentir o efeito, porque sentia vontade de fazer força, senti a bebé a escorregar, a barriga a “esvaziar”, o corte e a coserem-me os pontos no final. Pelo menos de um lado do corpo sentia tudinho! Se já tinha passado por tudo até ali, seria mesmo necessário administrarem-ma àquela hora? Se calhar foi para justificarem a deslocação do 1º ao 4º piso da Srª Drª anestesista!

Em jeito de conclusão, queria apenas dizer que tendo a minha gravidez decorrido tão bem e tendo eu idealizado o meu parto de outra forma, só me resta esperar que numa situação futura os métodos hospitalares tenham já tomado outro rumo, de forma a permitir um melhor acompanhamento das mulheres num momento tão especial, do qual só se devia guardar boas lembranças, o que não foi, certamente o meu caso. Compensa-me a felicidade de a minha bebé ter nascido perfeita e saudável. Perante isto tudo o resto passa a ter menos importância.

Olá, sou a Maria João e tive o Nuno com 29s de gestação. Às 23s senti um líquido a correr, e como já tinha sofrido um aborto espontâneo fui logo ao hospital de Leiria. Como também lia muito as revistas de mamãs, e nesta fase de gestação muitas mulheres sofrem de incontinência, devido ao peso do bebé na bexiga, mal cheguei ao hospital, mandaram-me fazer xixi para um copinho para fazer análises, e a médica de serviço observou-me e disse “ISTO NÃO É LÍQUIDO AMNIÓTICO”, mandou-me vestir, ao vestir-me espirrei, estávamos no inverno, a médica perguntou-me fez xixi?, respondi: “não”, diz ela: “Então não é incontinência”. Fiquei a pensar então o que seria já que ainda agora tinha despejado a bexiga.

Fui para casa, e foi aqui que eu errei, já que não devia ter ido para casa sem saber o que era aquilo que corria por mim abaixo.

As análises estavam bem, estive durante 3 semanas a fazer a minha vida quotidiana a subir e a descer escadas, ia trabalhar, por aí fora, e ás 26s quando fui à minha consulta de rotina com a minha ginecologista, mal ela introduz o bico de pato encheu-se de líquido amniótico, mandando-me logo ser internada na Bissaya Barreto em Coimbra. Tinha ruptura de membranas, fiquei internada durante 3 semanas, sem me poder mexer, todos os dias me faziam análises ao sangue para ver se tinha contraído alguma infecção, e tinha.

Nuno a beber leite materno pela sonda às 29s tiveram de fazer nascer o Nuno via cesariana, porque a infecção estava a chegar a ele. Nasceu com 1.475kg, mal nasceu chorou mas, apagou-se logo, tiveram de o reanimar e de o entubar, e esteve internado na UCIN – Unidade Cuidados Intensivos Neonatais durante 1 mês e meio, fez uma transfusão de sangue, levou surfactante p/ ajudar os pulmões a amadurecerem, muita medicação, fez fototerapia por causa da icterícia, teve uma infecção urinária, esteve tão doentinho que quando voltaram a pesá-lo já com 1 semana de vida, pesava 1.100kg.

Os médicos acreditam que o que o salvou foi o meu leite ser bom, depois teve de pôr o CPAP pois os pulmões ficaram feridos por ter levado muito oxigénio, teve várias apneias (esquecer-se de respirar) e braquicardias (alteração do ritmo cardíaco), até que um dia foi o Nuno que “pediu” para lhe tirarem o CPAP, irritando-se e passando a mãozinha na cara.

Passado uma semana passou para o berço, do berço foi para o Hospital de Leiria onde permaneceu mais um mês para fazer o desmame total do oxigénio, como não havia meio de largar aquele cheirinho de oxigénio veio para casa com o oxigénio até que mais uma vez foi ele que “pediu” para não fazer mais irritando-se e virando a cabecinha quando lhe punha a máscara, não foi preciso mais, e não voltou mais para o hospital, e os médicos dizem o que o tem feito estar afastado do hospital foi o leite materno.

O Nuno passou por muito, e sofreu muito e ainda hoje as mãozinhas dele têm as cicatrizes das picadelas das agulhas que levou, mas as maiores ajudas foram o leite, a esperança, coragem, o pensamento positivo, apoio familiar, e especialmente muita fé.

É um pequeno grande lutador.

Fiz tudo por tudo para manter o leite com a bomba pois sei que é muito difícil não perder o leite, quando se é mamã de um grande prematuro, mas não é impossível, ao fim de dois meses deixou a sonda, e passou para o biberão, (sempre a beber leite materno, que extraía com a bomba no hospital e mais tarde em casa de 3 em 3 horas) eu perguntava ás enfermeiras se podia pôr o Nuno ao peito elas diziam que sim mas também encolhiam os ombros como quem diz, pode, mas não vale a pena. Aqui é que está mamãs, valeu a pena porque um dia (já o Nuno tinha tido alta) em que eu não estava em casa o meu Nuno bebeu o leite todo que havia no biberão, e queria mais, e eu não tinha ali mais, não tive outro remédio senão oferecer-lhe o peito e se ele se regalou a mamar, nunca mais tirei leite com a bomba, nem nunca voltei a ter que esterilizar biberões, nem aquecê-los durante a noite, e principalmente tem-no mantido longe dos hospitais, porque o leite da mamã tem-no protegido, coisa que os médicos também não estavam á espera devido ao historial clínico tão complicado que ele teve.

Quando fui à consulta de seguimento, á maternidade onde nasceu, perguntaram-me que leite é que ele bebia, eu respondi: “leite materno”, ficaram espantados, e disseram que era o segundo caso que conheciam de um grande prematuro ser amamentado ao peito porque muitas mães perdem o leite ou desistem ou não estimulam o suficiente, ou porque os bebés não pegam. O Nuno passou do biberão para o peito aos 3 meses e até aos 7 meses amamentei-o em exclusivo, hoje com 12 meses (9meses e meio de idade corrigida) e bem de saúde ainda o amamento e já come sopinhas, e não há nada mais gratificante de que o sorriso que o Nuno me dá quando termina de mamar.

Mamãs espero que o meu testemunho vos ajude de alguma forma. Só vos aconselho NUNCA DESISTAM PORQUE É TÃO BOM E POSSÍVEL.

Obrigada

Maria João Silva + Nuno Silva (12m/10m idade corrigida)

Na sexta feira (19.05.06) fui fazer uma fluxometria, a Alice estava com P10. tinha deixado de crescer, e era necessário perceber o motivo – confirmou-se o percentil e o líquido amníotico estava a diminuir, estava no limite.

Nesse mesmo dia foi decidido que o melhor seria induzir – a Alice estava com boa vitalidade, mas seria preferível não correr riscos.

Entrei em pânico, chorei, sentia-me completamente ignorante, não sabia quais os procedimentos numa indução. .estava tudo cada vez mais fora do meu controlo.

Nessa noite, tive uma aula de preparação para o parto, a ultima e era teórica! Senti-me novamente com poder, segura.. se me tinha preparado tanto, agora só teria de adaptar essa preparação a outra realidade, à da indução.

No domingo de manha estaria um médico à minha espera, na maternidade, para provocar.. o que eu tinha imaginado ser o mais natural e animal possível..e lá estava eu! às nove da manhã, nesse domingo (21.05.06).. fiz mais uma ecografia e estavam de acordo com a indução. passei a outra sala para ser observada onde foi feito o toque.. para dar uma ajudinha!! para iniciar.. – segundo me pareceu a ‘bela’ ajuda foi descolar-me o rolhão, o que doeu. Alias nada me custava tanto quanto os toques.. especialmente quando era para dar uma ajudinha!

Tinha chegado a hora de ir negociando.. roupinha fora, e camisa do hospital no pêlo.

A minha primeira vitoria foi livrar-me do incómodo da raspagem, pois mesmo não tendo nada para tirar, há sempre quem queira lá passar com a gillete outra vez!

Do clister de rotina, não me livrei, e nem tentei.. Achei que era um pequeno espaço que ia ficar livre e que poderia servir para a Alice descer melhor..

Devia ser meio-dia quando me levaram para um quarto, fiquei ligada ao CTG e com soro. Passado algum tempo colocaram-me prostaglantina no colo do útero, fiquei horas a fio assim deitada à espera que algo acontecesse.

Depois das 18h começaram com a ocitocina – foram fazendo vários toques ao longo do dia, todos eles dolorosos.

Durante todo esse dia, precisei de utilizar a arrastadeira de 2h em 2h, por causa do soro. Eram um pouco stressante esses momentos: para além de todo o desconforto, esqueciam de trazer a arrastadeira, outras vezes de a vir buscar. Tinha que ser o meu companheiro, o Pedro a dar-me papel para me limpar – quando uma vez pedia à auxiliar papel, deu-me um penso e disse para o colocar!?

Nessa noite, ainda não tinha entrado em trabalho de parto. Tinham passado muitas horas em que estava deitada e sem comer (que era o que me tinha ocupado o pensamento o dia todo – e água, que não me deixavam beber), acharam que seria melhor desligar tudo, e ir para a enfermaria dormir. Comer e descansar essa noite para recomeçar a indução na manhã seguinte. Fiquei muito satisfeita com essas poucas horas de tranquilidade, longe do CTG. Dormi maravilhosamente bem, mais uma vez de barriga para baixo, como sempre tinha feito e que deixara de incomodar a minha pequenina logo de inicio.

Era segunda-feira (22.05.06), acordei tranquila e satisfeita – o pequeno-almoço devia estar a chegar, mas dava tempo para passar pelo duche antes de dar inicio a mais um dia de tortura!

 

Ia para me levantar, senti um liquido quente.. Levantei-me na mesma, mais um pouco desse liquido caiu no chão. a enfermeira mandou-me voltar para a cama, de seguida voltaram a fazer o toque e uma onda de liquido saiu de dentro de mim, estava com 2 dedos de dilatação.

Mudança de turno às 8h, e a sorte a sorrir-me!, a enfermeira Ana começava mais um dia de trabalho. Mal chegou deixo-me ir tomar banho. Depois lá voltaram o CTG e o soro.

À primeira contracção a enf. Ana percebeu que tinha feito preparação para o parto, conversamos sobre isso, – a técnica que me tinham ensinado baseava-se em dar oxigénio ao corpo e poupar energia, para isso em cada contracção não me mexia e respirava fundo. Com isso ela sabia que o melhor era nem falar para mim durante as contracções, não a iria ouvir muito menos responder. Nessas primeiras contracções percebi que só aquela técnica não ia chegar – precisava de me concentrar em alguma coisa , para me desconectrar da dor. Pensei num ponto fixo, mas sentia-me melhor de olhos fechados, então surgiu a ideia de uma imagem.. foram varias as opções, então lembrei-me de um sitio com tons de amarelo até ao castanho, algumas arvores, e um circulo feito com varias pedras enormes – tinha estado naquele lugar, em pelo alentejo, apenas uma vez mas o suficiente para ficar nítida na minha memoria. Tinha encontrado o meu ponto forte!

Ao contrario do dia anterior, não tinha fome, nem queria água.

Tinha sido o Pedro a passar o domingo comigo no quarto da urgência. e para além de me ter apercebido do cansaço dele, também sabia que não se sentia muito seguro para assistir a tudo aquilo. Então decidi comunicar com a Sandra, a doula que tinha conhecido durante a gravidez, para saber se estaria disponível para estar do meu lado naquele momento. Senti-me ainda mais tranquila por saber que no início da tarde a Sandra estaria ali comigo.

Com a visita da médica, a meio da manhã, voltei a ficar com ocitocina, – que é a única coisa que me arrependo de não ter recusado. e com um dedinho da enf. Ana, achou-se que poderia continuar na enfermaria, pelo menos até à tarde..

Também passou por lá um dos médicos que estava de serviço na urgência, – a enf. Ana referiu que eu pretendia fazer o período de expulsão na roda – ‘nem pensar! Isso é bonito mas é para aparecer na televisão’ – nem comento..

A manhã foi tranquila, com contracções, com a enf. Ana a falar comigo, ia explicando a mim e às outra grávidas do quarto o que estava a acontecer, o que se iria seguindo..

Às 14h voltaram a fazer o toque, continuava com 2 dedos de dilatação (tinham passado 6h!). Aproveitei aquele momento para pedir à enf., para desligar o CTG, e deixar-me ir à casa de banho – sempre era uma forma de andar um pouco – e sentia-me maravilhosamente bem aquando as contracções poder estar sentada na sanita!

No regresso da casa de banho, encontrei no corredor o Pedro e a Sandra. Tinha começado a hora das visitas. Falamos um pouco, e desceram para alguns familiares me verem.. Nessa altura tive duas contracções mais intensas, pensei: ‘agora sim vai começar!’. a Sandra e o Pedro voltaram a subir. a enf Ana tinha acabado o turno.

Tinha frio, voltava o calor, as contracções eram fortes. a nova enf. chegou quando estava com uma contracção – claro que nesse momento eu não falava, não ouvia, não via, tudo o que estava à minha volta deixava de existir! Não reagiu bem à minha atitude, mas também isso me passou ao lado. Acabei por lhe responder que as contracções eram cada vez mais fortes, por sua vez disse que aquilo não era nada, o CTG não estava a registar, e eu aparentemente continuava igual já que não me manifestava, quer dizer – não dizia nem ai nem ui. Meteu a ocitocina a correr mais depressa, mas com o jeitinho que dava à mão não corria mais por isso.

Voltei a desejar a sanita. Não me deixaram ir à casa de banho mas a vontade de voltar a fazer cócó (o que já tinha feito 2 vezes nessa tarde) era cada vez maior. Decidi pedir a arrastadeira, não que achasse ser capaz de o fazer ali, mas sentia-me mais tranquila.. o frio passou a tremores.. Em cada contracção mais dolorosa a Sandra ia-me esfregando a zona dos rins, ia colocando uma toalha molhada na cara quando o calor voltava. Fui pedindo para irem levantando a cabeceira da cama, fechamos as cortinas para estarmos um pouco mais à vontade, eles os 2 continuavam comigo, – estava quase sentada na cama, com a arrastadeira debaixo do rabo, nessa posição as contracções não me pareciam tão dolorosas. A vontade de fazer cócó incomodava-me.. como se não tivesse uma casa de banho por perto! e como o intervalo entre as contracções era vez menor, não me dava tempo para fazer força, e durante as contracções nem me atrevia, apesar da Sandra dizer para o fazer – era quase 18h. a enf. Foi ver como estava, voltou a dizer que ainda não era nada, que CTG não registava nada.. até que a Sandra lhe disse que tinha contracções cada vez com mais frequência, e que pareciam ser fortes. A enf. teimava que não podia ser, que o CTG ‘dizia’ que não havia contracções, então para nos convencer ou para se convencer decidiu fazer o toque (o único que não me doeu!)..

Durante a gravidez li muitos relatos de partos, e uma das ideias que me ficou era que as contracções era de tal maneira dolorosas que muitas mulheres pensavam que o trabalho de parto já estava muito avançado aquando lhes diziam que ainda estavam com 1, 2, 3 dedos de dilatação, o que era extremamente frustrante e causava algum desespero. Por isso enquanto a enf. ia calçando a luva.. estava a pensar que me ia dizer que estava com 3, no máximo 4 dedos de dilatação, iria perguntar-me se queria a epidural.. pensava.. ‘mas ainda não sei se quero! será que aguento muito mais??’, estava de tal maneira absorvida por estes pensamentos que nem ouvi o que a enf. dizia enquanto tirava a mão! – ‘acordei’ com um abraço e um beijo da Sandra a tempo de ouvir a enf. a pedir uma maca e a refilar ‘maldito CTG que não estava a registar, aqui não aparecia nada!’ virei-me para a Sandra para tentar perceber porque estava tão contente e a enf. tão lixada, – estava com 8 dedos de dilatação, a Alice estava quase a nascer!

Mudei o tipo de respiração, afinal a vontade de fazer cocó era a chegada do período expulsivo! Tive uma contracção quando estava a passar da cama para a maca, a minha imobilidade ainda deixou a enf. mais chateada!

Mais uma vez disse que queria ir para a roda. fui acompanhada, creio, por uma estagiaria, mais uma pessoa a que estou muito agradecida, pois foi de uma grande ajuda para conseguir ir para aquele quarto. Estava já na porta do quarto da roda, quando chega uma enf. que estava de serviço na urgência, e diz que não faz o parto na roda.. quando dei por mim, continuava na maca à porta do quarto, com varias pessoas ali à minha volta no corredor a dizer que não me faziam o parto, que o bebé era muito pequenino e se precisasse de ajuda não podiam usar nada ali (‘óptimo’, pensei), que ficavam com dores nas costas, que depois de lá estar sentada se houvesse problema já não me podiam tirar.. não sei como, mesmo assim fui sendo conduzida para dentro do quarto, e para a roda. Mal estava a sentar o meu rabino ouço uma voz a chegar à porta a dizer ‘não metam ai a sra!’, era o médico do ‘..isso é bonito é para aparecer na televisão!’), que quando me viu sentada virou costas e foi à sua vida.

 

Entrou um médico que aceitou fazer-me o parto (não são obrigados?? não fizeram um juramento??),. Quis fazer xixi, o que deixou uma enf.  atrapalhada, e a refilar, quase gritava, tentou entalar uma arrastadeira entre o meu rabo e o buraco! Da roda, claro que aquilo ia cair.. e lá uma auxiliar calçou uma luva e segurou a arrastadeira.

Tive uma contracção, fiz força, mas a respiração mal (foi a parte em que fiz batota na preparação). Olhei à minha volta: as portas totalmente abertas, cheias de gente, a parede à minha frente não a via, pois também estava tapada por pessoas, naquela sala havia enf., médicos, estagiários, mais de 10 pessoas a não fazer nada, fora os que estavam a trabalhar! Parecia que estava no circo. Mas enquanto umas pessoas continuavam contra tudo aquilo, havia também quem me piscasse o olho e sorrisse, sorrateiramente!

Tiraram da roda uma parte que me dava mais jeito para segurar, prenderam-me os pés em vez de me deixarem com eles pousados numa parte para esse efeito, não sabiam usar a roda, deram-me uma anestesia local, o médico fez-me uma episotomia – com um bebé tão pequenino, e após uma contracção no período expulsivo???! – mandou-me fazer força, perguntei porque não havia de esperar pela próxima contracção?!; na segunda contracção voltei a fazer mal a respiração, ‘calor’, a Sandra ia-me lembrando como se fazia a respiração, enquanto o medico dizia que se não fosse na seguinte iria me dar uma ajuda! ‘QuÊ?’; na terceira contracção só pensava ‘tem que sair..tem que sair..), ‘já vejo a cabeça’ disse a Sandra, olhei para a frente e tinha um leque – uma voluntária, que esteve também do meu lado naquela fase, tentava combater o calor que sentia. O médico perguntou quem ia segurar.. a Sandra respondeu a mãe.. eu..- a mãe, eu, éramos a mesma pessoa..o medico levantou a cria que acabava de ter, segurei-a pela barriga no meio das minhas pernas, estava escorregadia.. tinha medo de a deixar cair ou de apertar de mais e de lhe espetar as unhas, apertei!

Vi uns olhos enormes abertos, uma pele meio azulada com algumas coisas brancas, uma mancha vermelha entre as sobrancelhas invisíveis. O cordão foi cortado e puxei-a para a minha barriga, trouxeram uma toalha para a tampar, colocaram uma pulseira em cada uma de nós. Enquanto isso o médico ia fazendo a sua costura. E depois puxou pelo ‘gémeo’, a placenta. Quando acabou já tinham levado a minha pequenina, para fazerem não sei o quê.. para me tirarem da roda, foi um filme e daqueles bem ridículos, já que não sabiam como haviam de me passar da roda para a maca. E sabiam ainda menos utilizar o comando.. tanto que iam-me deitando ao chão! Mas tudo isto ia servindo para eu e a Sandra nos rirmos. Alias nunca pensei que um parto pudesse ser tão divertido.. de tão ridículo que era o que se passava à nossa volta. E ignorando a falta de respeito que existe para com a parturiente.

Mas tive a sorte de ter do meu lado duas mulheres muitos especiais, que fizeram sobretudo com que me sentisse calma e confiante. O meu muito obrigado à enf. Ana e à doula Sandra.

Esperei mais de 1h para voltar a ter a Alice nos meus braços.

No dia 01 de Março de 2005 fui internada no Hospital Garcia de Orta (às 36s e 6d) com uma pré-eclâmpsia.

O objectivo era controlar tensão e atrasar o nascimento do bebé. Contudo, sabia que havia alta probabilidade de indução do parto a qualquer altura que os parâmetros se mostrassem menos controlados.

No dia 2, os médicos optaram pela indução – a tensão estava bastante alta, já acusava 3 cruzes de proteína na urina e o edema da face quase me impedia de abrir os olhos! Colocaram-me gel às 10 da manhã… e nada…

Às 3h da tarde, nova dose – sempre cerca de 1mg apenas pois o meu bebé acusava apenas percentil 5.

Às 8 da noite apresentava quase 3 dedos de dilatação mas com as dores, a tensão começou a subir (16/10) e administraram-me petidina endovenosa. As dores pararam e as contracções também. Dormi que nem um anjo nessa noite!

Mas no dia seguinte tinha voltado “à estaca zero”. Nova dose de gel.

Às 15.40, com 3 dedos ainda, rebentaram-se as águas. E tive dores a sério!!!

Desci para o bloco de partos cerca de meia hora mais tarde com 4 para 5 dedos e indicação urgente de epidural, por causa da tensão.

Contudo, um desalinho na coluna neutralizou o efeito da analgesia… Muitas dores e muito, muito sono.

Ainda fizeram 2 repicagens da epidural mas não surtiram efeito.

Entretanto a tensão subiu a 17/12…

Quando entrei no bloco de partos estimou-se que daria à luz pelas 04 da manhã. Mas a coisa “correu bem” e às 20h20 já tinha a minha bebé comigo.

A parteira que me assistiu foi extraordinária. Deu-me segurança e isso foi determinante para que me sentisse tranqüila. Disse-me que não ia fazer episiotomia, massajou-me o períneo, fiz força de lado, e ela dizia “Isto está a correr bem, Patrícia! No máximo são 3 pontos!”

Quando a cabeça da bebé coroou, cortou-lhe um bocadinho de cabelo deu-me e disse: “Está quase!” e de repente senti-me cheia de forças!

No puxão seguinte nasceria a minha filha.

Hoje, tenho uma perspectiva muito diferente sobre o que aconteceu.

Ainda que não tenha ficado traumatizada com o parto – pois aquilo que pretendia na altura era um parto rápido – hoje entendo as coisas de outra forma. Tenciono em breve levantar o meu processo de parto no Hospital onde tive bebé. Quero saber como as coisas se passaram ao certo…

A maternidade trouxe-me a capacidade de confiar no meu corpo (ainda amamento ao fim de 17meses!) e na Natureza – que tb é mãe 🙂 e quero aproveitar isso da próxima vez…

Lembro-me que alguns minutos depois da Raquel nascer (após um prolongadissimo trabalho de parto que terminou com forceps… uups pois é! a única coisa de que ainda me arrepio…), me trouxeram a minha princesa e a sra enfermeira me disse pode tentar dar mama… a minha resposta foi “mas eu não tenho leite!”  Acreditem ou não, na minha gravidez andava tão nas nuvens que nunca me lembrei da parte da amamentação! – a sério!

A sra enfermeira disse-me para tentar porque tinha o colostro e já estava tudo preparado! e a partir desse minuto começou algo que iria desde esse maravilhoso dia 17/08/04 (o primeiro dia do resto da minha vida, como diz a música!!!!) até ao passado dia 25/07/06, inicei o desmame um pouco forçado há cerca de 15 dias. A fotografia que envio é de agosto de 2005, a raquel tinha quase 1 ano! Por incrivel que pareça não tenho muitas fotografias connosco nesta acção de partilha tão intensa, penso que foi sobretudo porque para nós lá em casa foi algo tido como muito natural e como fazendo parte da nossa rotina diária.

Passa-vos pela cabeça que se calhar eu estive em casa durante este tempo todo ou que a raquel está todo o dia próxima do meu local de trabalho… esqueçam não é nada disso! E acreditem tenho um trabalho muito exigente que me toma longas horas no local de trabalho ou em casa para finalizar trabalhos de análise económico financeira com timings muito apertado (é numa direcção de corporate finance num banco de investimentos). A raquel está num infantário no Pinhal de Frades e eu estou em lisboa. o pós parto do ponto de vista físico foi complicado, tive que ficar 4 dias no hospital, fazer uma raspagem porque tinham ficado restos de placenta, não me conseguia sentar (estive assim quase um mês), fiquei e permaneço com dores no coxis.

Para mim amamentar sempre foi algo natural e de que gostei verdadeiramente, confesso que já começo a ter saudades!

A raquel nasceu no Hospital Garcia de Orta e de facto não é à toa que é chamado “maternidade amiga da amamentação”, lá ela é fomentada e é-nos ensinado como colocar a mama na boca do bébé quando eles não estão a agarrar… só tenho maravilhas a dizer sobre isso, tal como aliás já tive oportunidade de transmitir à minha maravilhosa médica, a Drª Teresa Avillez.

Nos quatro meses que estive de licença de maternidade sempre dei de mamar à raquel o tempo que ela queria, às horas que ela queria, onde quer que fosse! Desde sempre os momentos de amamentação foram de trocas de sorrisos, música, carinho e até gargalhadas… sim tinhamos uma brincadeira que consistia em eu tirar-lhe a mama da boca de repente ou simular que lhe ia dar a mama e depois chegava-a para trás… trocavamos umas gargalhadas neste jogo de “tira põe” mas depois ela fazia aquele ar de ” a mama é minha” e nada a fazer perante aquele olhar ameaçador!!!!

Comecei a trabalhar e continuei a amamentar, já tinha algum leite congelado e continuei a tirar… trouxe a bomba para o trabalho, lavava, esterelizava e tirava aqui (num local com privacidade) sem qualquer complexo, sem qualquer rodeio, foi algo sabido aqui no meu trabalho… Sempre tive imenso leite, durante meses tirava o leite logo demanhã quando chegava e depois de almoço. A média diária foi durante muitos meses 500 ml, levava para casa e congelava para a Raquel ter sempre para levar para o colégio e ter sempre que eu não estivesse com ela. Depois passei a tirar só depois de almoço e depois deixei de tirar (penso que tal terá acontecido muito próximo dos 12 meses, já não sei precisar), óbvio nessa altura ´já tinha muito menos leite mas continuava a tirar para poder ter sempre para alguma eventualidade e para continuar a levar para o colégio.

Aos 12/13 meses introduzi o leite de vaca. e contnuei a amamentar sempre que a raquel pedia… A partir de desterminada altura deixou de me pedir durante o dia, a não ser quando faziámos sesta, as duas e passou a pedir só à noite antes de adormecer.

Nunca bebeu outro leite até aos 12 meses.

Vantagens, para além da emocional, impagável, do ela que criou entre nós, economicamente podem imaginar, não faço a menor ideia de quanto custa o leite em pó! A raquel nunca teve uma alergia, nunca teve uma bronquiolite… Teve as coisas normais para a idade, duas gastroentrites, uma ou outra febre, uma ou outra constipação, uma otite, e a “doença das pintas” este ano.Eu fiquei mais magra depois da Raquel nascer do que estava antes, 15 dias depois do parto recuperei a linha e atingi o que costumava ser o meu peso ideal (aquele que eu tinha seis anos antes de a raquel nascer!!!!!) nunca nos levantamos de noite para preparar leite, estava feito!!!! a logistica nas saída consistia apenas na muda de roupa e fraldas, depois passou a ser necessário a comida…mas durante 4 meses doi fantástico! As cólicas praticamente não aconteceram, o intestino sempre funcionou 100%… Graças a Deus!!!

Desvantagens, apenas uma, foi muito dificil introduzir o biberon… foi desesperante. Começamos a tentar umas semanas antes de eu começar a trabalhar e ela não aceitava. Tentámos n marcas de biberons, só funcionou com a Nuk e só funcionou no 1º dia de trabalho. O pedro quando eu comecei a trabalhar ficou 15 dias com ela (para tentarmos trazar ao máximo a entrada no infantário), depois ainda vio a avó materna mais 15 dias… Só o meu 1º dia de trabalho, talvez porque a fome foi mais forte, ela mamou o biberon com o leitinho especificamente programado para ela!

Agora, quando mamava à noite era giro vê-la pegar na mama, largar e pegar no biberon, largava o biberon e voltava à mama… mas prevalecia sempre a mama!

2004 foi um ano que marcou o inicio de uma quantidade de novas sensações que me têm dado níveis intensos de felicidade. Amamentar foi das melhores sensações que já tive!

A gravidez da Beatriz foi programada e muito desejada, sobretudo porque a anterior tinha terminado num aborto espontâneo. Foi uma gravidez tranquila, bela, sem grandes sobressaltos. Adorava exibir a minha barriga.

Por causa da dor ciática e dos edemas, fazíamos caminhadas ao fim da tarde. Foram momentos únicos em que me concentrava apenas na Beatriz e no Papá. Revíamos a nossa vida e fazíamos planos para quando a Beatriz nascesse. Tenho saudades desses momentos mágicos iluminados com o sol de fim do Verão.

No dia 4 de Outubro tive consulta de manhã. Estava com 1-2 dedos de dilatação e colo 40% extinto. Como já estava com 39 semanas e 6 dias, a médica fez-me um descolamento das membranas para acelerar as coisas. De tarde, comecei a sentir umas contracçõezitas, mas nada que já não tivesse sentido antes. Comecei a cronometra-las e estavam a ficar ritmadas… de 10 em 10 minutos.

Quando o maridão chegou do emprego, decidimos ir para o hospital. Mas antes jantamos com calma, tomei banho e fiz a depilação. Verifiquei se estava tudo na mala e ás 20:15 saímos, convencidos que íamos voltar daí a umas horas.

Ás 21:00 dei entrada nas urgências do Hospital de São João (Porto) e ligaram-me ao CTG. Como estava de serviço um obstetra amigo, pedi para falar com ele. Depois de 30 minutos de traçado, verificaram que estava com contracções rítmicas de 8 em 8 minutos, mas de pouca intensidade. O colo do útero estava 50% extinto e com 2 dedos de dilatação.

O meu amigo perguntou-me o que queria fazer: ir para casa e esperar ou ser internada e esperar. Dado que moro longe do hospital (45km) achamos melhor ficar internada e aguardar a evolução durante a noite.

Assim, ás 23:00, fui internada, vesti a batinha da praxe e fui encaminhada para a sala das expectantes (que estava vazia). Achamos melhor o papá ir para casa dormir dado que as coisas estavam muito paradas! Eu continuava a achar que de manhã iam mandar-me para casa… A enfermeira teve o cuidado de vir perguntar-me se sentia dores ou se precisava de alguma coisa. Não, está tudo bem.

Liguei o leitor de CDs com uma musiquinha calma, coloquei o bloco de notas em cima da mesinha e tentei dormir.

Passei a noite meia a dormir, meia a pensar… será que vai ser hoje?

5:00 da manhã.

A enfermeira voltou para fazer-me um novo toque… tudo igual! Mostrou-me ainda que as contracções estavam a abrandar! Fiquei desanimada! Tentou animar-me dizendo que tudo podia mudar de um momento para o outro. Foi muito simpática e prestativa.

8:00

O maridão chegou!

9:00

Mudou a equipa de urgência. Vieram apresentar-se. Acalmaram a minha ansiedade dizendo que hoje iria ter a Beatriz nos braços. A enfermeira fez de novo o toque: 2-3 dedos de dilatação! Decidiram por a oxitocina a correr (15 mg/h).

9:40

Estando sozinha na sala tinha a enfermeira (que era muito simpática) só para mim. Perguntou-me se já sentia contracções. Não! Nada!! Aumentou a dose (30 mg/h).

10:15

Sente contracções?? Ainda não! Voltou a aumentar a dose (45 mg/h).

11:35

Dado que as coisas pareciam não evoluir, a enfermeira fez-me a ruptura artificial das membranas! Explicou-me todo o procedimento antes de o fazer. Achei engraçado sentir o liquido quente a sair. Devo dizer que não doeu nada!

Nesta altura, eu só dizia ao Pedro: Quem me dera sentir contracções!!! (Não imaginava como ia arrepender-me 😉 )

12:30

Comecei a sentir as contracções. Muito leves no inicio. Toca a fazer as respirações que aprendi nas aulas de preparação para o parto e colocar o CD de música relaxante!

13:15

As contracções começaram a ser dolorosas. Falei com a enfermeira que tentou ajudar dando-me uma injecção para acalmar as dores. Voltou a fazer o toque: 3 dedos de dilatação (ainda)!

15:00

Ai! Agora sim!! Contracções de 2 em 2 minutos! Bastante dolorosas! Já não tinha posição na cama! Novo toque: 4 dedos!! As coisas estavam a evoluir! Aumentaram novamente a dose de oxitocina (65 mg/h).

15:15

A anestesista veio perguntar-me se queria a epidural! SIM!!!!

Quando viu as minhas costas, disse logo que ia ser difícil… Tenho os elos muito próximos! Tentou 3 vezes… Não conseguiu… Lamentou…

Disse-me que tinha de esperar pelo colega que tinha agora ido para o bloco. Logo que ele chegasse tentava-me dar, mas não garantia que ele conseguisse!

Tentou dar-me coragem, mencionando o facto de ela própria ter tido os 2 filhos sem epidural por ter os elos como os meus.

15:50

As contracções são muito dolorosas e de 1 em 1 minuto! Livra!!! Já não quero saber das respirações… nem da música relaxante!!! Pedimos á enfermeira para reduzir a dose de oxitocina (30 mg/h). O Papá começou a desesperar por não me puder ajudar.

16:25

Nova redução da dose de oxitocina (15mg/h), dado as contracções estarem tão próximas que eu não conseguia descansar! Estava exausta e ofegante… sentia os ossos do meu cocix a expandirem-se. Pelo menos a Beatriz estava a descer! Já não conseguia estar deitada… sentava-me na cama a cada contracção… e respirava!

Só pensava que se não me conseguissem dar a epidural, eu não ia conseguir puxar eficazmente, devido a estar tão exausta!

Não me lembro de muitas coisas que se passaram neste período. Lembro-me da enfermeira dizer-me palavras de alento. E lembro-me de estar sempre de mão dada com o meu marido.

17:30

A anestesista voltou acompanhada do colega. Desculpou-se mais uma vez por não ter conseguido administrar-me a epidural. O colega (mais experiente) notou um desvio nas minhas costas no local onde deve ser dada a epidural. Mais uma tentativa e lá conseguiram.

Santa epidural! Logo após a dose-teste comecei a sentir alivio!

A enfermeira algaliou-me e fez-me um novo toque: 5 dedos de dilatação. Aumentaram a oxitocina (65mg/h).

18:30

Estava nas nuvens! Não sentia nada!! O CTG apresentava contracções de 1 em 1 minuto com o pico a rondar os 100 mmHg. E eu nas calmas! Já tinha esquecido as dores de á pouco!

Novo toque: colo extinto e 6/7 dedos de dilatação. IUPI!

19:00

Estava tranquila. Relaxada. Decidi descansar um pouco e despedir-me da minha barriga. Coloquei novamente música e dormi.

19:30

Novo toque: 8 dedos de dilatação. Passámos para a box.

20:00

Novo toque: 10 cm! Chegou a hora!!! Chegou o meu colega, a enfermeira chefe e a obstetra que me ia fazer o parto!

Toca a puxar! Puxei eficazmente… parece que aprendi bem a lição nas aulas de preparação!

Entre contracções, contávamos piadas! A enfermeira era um ponto! Fartamo-nos de rir.

20:35

A Beatriz teimava em não descer! Então demos uma ajudinha.

20:40

Colocaram a ventosa e toca a puxar. Desta vez seria o último puxo!

Senti a cabecita a descer! Fizeram-me a episiotomia para facilitar! Senti a cabeça a passar, foi uma sensação indescritível! Pelo que me disseram, nasceu com os olhos abertos, pronta a descobrir o mundo!

Depois os ombros… e finalmente…

 

20:45

Nasceu a Beatriz!!! Colocaram-na no meu peito! A minha filha!! Estava nos meus braços!!

O Papá cortou o cordão e levaram-na para a arranjar!

20:50

Trouxeram-na logo de seguida já vestidinha e limpa. Nasceu no dia 5 de Outubro de 2005 (exactamente com 40 semanas), com 3450gr e 50cm e um Apgar de 9/10.

21:00

A obstetra extraiu a placenta e coseu-me enquanto que o Papá tirava fotos! Tudo num ambiente calmo e tranquilo. Ficámos só os 4: Eu, o Papá, a Beatriz e a obstetra. Conversávamos enquanto ‘costurava’. Fez um trabalho impecável! Tudo pontos internos. Quase nem se nota!

22:15

Primeira mamada da Beatriz, ainda na sala de partos. Sem stress, sem ser preciso ensinar-lhe!

Estou radiante de felicidade!!! E o papá… só dizia que a nossa filha é linda!

Com este descrição, espero ter conseguido transmitir como o parto da Beatriz foi uma experiência fantástica. Penso que isto deveu-se á calma que sentia e ao apoio incansável do meu marido, mas também porque a equipa médica assim o proporcionou. Todos os procedimentos médicos que me fizeram foram previamente explicados. Foram sempre atenciosos e embora vejam partos todos os dias, não deixaram de compreender o quão importante é para uma família o nascimento do seu filho. Tudo decorreu num ambiente calmo e com o Papá sempre presente.

Para terminar, quero salientar que a amamentação é das experiências mais gratificantes que podemos ter. Tivemos contratempos e algumas dúvidas (naturalmente) mas com persistência e com a ajuda de fóruns especializados conseguimos ultrapassá-las.

Agora com quase 1 ano a Beatriz está assim. Nunca esteve doente, apenas se constipou uma vez. É saudável, muito curiosa e feliz. E ainda mama uma vez por dia.

O meu parto foi a experiência mais animal, mais terra, mais forte que alguma vez vivi! Fui entrega total, fui corpo em dádiva, fui Mãe!!

Planeei e desejei um Parto Humanizado ou seja que os Profissionais de Saúde e/ou quem me acompanhasse entendesse que um Parto pertence à Mulher que deixa partir o filho que em seu ventre floresceu! Humanizado porque não é soro e CTGs e intervenções médicas, muitas vezes desaconselhadas pela OMS, que uma Mulher que está a parir necessita mas sim que respeitem o seu ritmo, que lhe deem palavras de conforto e acima de tudo a deixam livre para ser animal! Repito a palavra animal porque entendi na minha carne, no meu corpo, na minha alma as palavras de Michel Odent. Somos mamiferos!! Somos animais, racionais é certo mas um parto não é razão, é intuição, é amor, é sangue, é fogo e é uma grande alegria!

Senti que o parto faz todo o sentido no “fechar” da gravidez. Tudo tem o seu pulsar nada acontece ao acaso. Eu senti-me ao longo da gravidez a lentamente, dia-a-dia, a despedir-me de mim para me preparar para ser Mãe. Nem sempre foi fácil, nem sempre entendi que sinais eram aqueles e o Parto veio dar cor e sentido a estes 9 meses de Mulher-Casulo!

Foram 41 semanas! E o Gaspar nasceu quando quis nascer, sem drogas, sem indução, nasceu quando chegou o seu momento. Nos últimos dias crescia em mim a ansiedade do fim da gravidez, queria muito que ele nascesse sem nenhum tipo de indução e não queria mesmo um Parto por cesareana!

E no inicio da noite de 20 de Outubro de 2006 depois de uma troca de amor minha com o Pai do Gaspar começaram as contracções, mais precisamente às 3 da manhã!

E no inicio da noite de 20 de Outubro de 2006 depois de uma troca de amor minha com o Pai do Gaspar começaram as contracções, mais precisamente às 3 da manhã!

Comecei a preparar a sala de minha casa com aromas de canela e abóbora, pus a música que tinha preparado e a partir daí fui fechando os olhos e a alma à medida que se intensificavam as contracções. Digo fechar os olhos e a alma porque fui vivendo uma espécie de viagem ou transe que só terminou no momento em que senti o Gaspar nos meus braços pela primeira vez. Por volta das 06:00 chegou a Sandra, a nossa querida Doula que foi sem dúvida imprescendivel! Foi carinho, foi abraço, foi entrega! Respeitou todas as minhas decisões e esteve connosco sem nunca se impôr! Por volta das 10:00 fomos para a Cruz Vermelha. Cheguei ao Hospital com oito dedos de dilatação. Quando chegou a Radmila senti que se aproximava o momento! Senti pela primeira vez que chegava, realmente o momento de sentir o meu filho passar o anel de fogo.

O chegar ao Hospital, embora tivessem muito poucos Profissionais de saúde na sala de Partos, foi de alguma maneira uma quebra. A luz entrava forte na sala e já não estava em minha casa, no meu refúgio. Porém tive total liberdade de movimentos, continuei a ouvir a minha música, o Pai do Gaspar esteve sempre comigo, tive uma bola de parto para relaxar, a ajuda da Sandra em cada contração e o apoio da Radmila que é sem dúvida uma médica muito especial. Que aceitou o meu ritmo, aceitou fazer do meu Parto o meu Parto!! Foi falando comigo com carinho, foi-me incentivando a fazer a passagem de Mulher-Casulo a Mulher-Mãe. Sentou-se no chão e deu-me as suas costas para que as minhas juntasse e relaxasse entre as contracções! Este pequeno grande gesto cheio de humildade e respeito foi de facto muito intenso e bonito!! No momento expulsivo a Radmila ajudou-me, com os seus dedos sem episiotomia!! Ajudou-me com os seus dedos e com as suas palavras! Principalmente com as suas palavras!

E foi assim que às 15:25 o meu filho Gaspar passou pelo anel de Fogo e despertou para neste Mundo caminhar. O Pai estava comigo, estavamos os dois sentados ele atrás de mim, eu no banco de Parto e a Radmila sentada à nossa frente, no chão. E nada mais foi usado! O CTG foi apenas usado de forma intermitente e sem me ser preso com aquele cinto elástico horrivel. Não tinha soro, não tive de estar deitada e estava por meu desejo nua!

Como referi no início foi uma experiência totalmente animal e em profunda ligação com a Mãe Natureza! Porque até a ansiedade do final do Gravidez é importante para que o Parto não seja breve ou pequeno como costumam desejar! “Que tenha uma hora pequena!” O Parto deve e têm de ser vivido no seu ritmo!

Depois de o Gaspar estar nos meus braços o Pai cortou o cordão umbilical e iniciámos então esta aventura de ver um filho crescer!

Não só eu fui respeitada como tambem o foi o meu filho que sentiu o calor dos Pais assim que nasceu e esteve sempre connosco! Nasceu com óptimos indices de vitalidade e eu no mesmo dia já poderia ter vindo para casa e acredito qie o nosso bem estar se deveu ao Parto ter sido totalmente natural! Porque seguimos o nosso instinto! Porque fomos Água, Terra e Fogo!

A amamentação está a correr muito bem porque seguimos os sábios conselhos da Sandra e deixamo-nos guiar pelo instinto e não pelas rigidas regras do relógio. O meu filho mama sempre que o pede!

Seguir o instinto é o melhor a fazer! Porque mesmo quando se é Mãe pela primeira vez já temos em nós todas as pulsões necessárias para cuidar de um recém nascido!

Durante a gravidez tive momentos de muita tristeza e inquietude por pensar que não poderia viver este Parto como desejava especialmente quando mostrei o meu Plano de Parto a um médico Obstetra do Hospital de Santa Maria e este respondeu-me: “Não sei se têm estes direitos!” Pois sim tenho e tive!! E serei testemunha do mesmo para todas as mulheres com quem fale para que não tenham medo de ser Mulheres, que não se deixem assustar por histórias de Partos horriveis e dolorosos e em que tudo parece correr mal! Porque é das experiências mais belas que podemos viver! E temos a obrigação e o direito de não nos deixarmos enganar por quem transformou o Parto numa especie de Patologia e para quem nos empurra para a “facilidade” da epidural e da cesariana! Sejamos entrega!

Por tudo o que vivi agradeço de corpo e alma à Sandra, à Radmila, à Joana e ao Volker!

E agradeço também aos meus Pais que fizeram de mim o que sou hoje, que sempre me incentivaram a ser inquieta e a não seguir um caminho só porque já está trilhado mas sim porque nele acredito! E agradeço especialmente à minha Mãe porque é a minha melhor amiga e que esteve e está sempre disponível e com quem aprendi que ser Mulher e ser Mãe só faz sentido quando a entrega é total!

Posso-te dizer a ti meu filho que dei tudo para que de mim nascesses, agora o Palco é teu!!!

Rita Dacosta

Estávamos a meio de Agosto, muito calor, muito verão. Tinha já, há semanas, a sensação que o Xavier poderia nascer a qualquer momento, por isso fui-me mantendo muito calma. Queria que ele tivesse o seu tempo, que não fosse eu a desencadear o processo por um excesso de esforço físico. Só quando chegou a semana prevista para o parto senti que não precisava mais de esperar. Podia-me libertar e dei um grande passeio. Nessa mesma madrugada começaram as contracções.

Com o nascimento do meu primeiro filho no hospital, senti que a vivência do meu parto me tinha sido tirada e que fui mera espectadora sem poder participar activamente, sabia que o segundo seria a oportunidade de sarar essa ferida e de trazer um ser humano ao mundo em condições dignas. Condições que respeitassem o filho e a mãe nesse processo iniciático e profundamente espiritual que um parto é.

Não tinha nenhuma decisão clara sobre o local do parto. Entreguei ao universo. Mas no íntimo do meu coração desejava que “acontecesse” em casa. A única coisa que sabia era exactamente como ia ser; 100% conforme a minha vontade. Quem não estivesse de acordo que se afastasse. Foi com esta força que senti a Sandra e o meu marido ao meu lado.

Quando às 4h00 da manhã acordei e senti as primeiras leves contracções, segui os conselhos da Sandra e tentei continuar a dormir, para reservar as minhas forças para o parto. Voltei a dormir e às 7h00 da manhã levantamo-nos. Estava um dia lindo, sereno com umas cores bem definidas na paisagem. As contracções eram regulares, de 15 em 15 minutos, mas muito leves e perfeitamente suportáveis. Fomos à clinica e a médica constatou que havia contracções, mas que poderia ser um trabalho de parto latente por eu ainda estar tão descontraída e bem. Aconselhou-me a fazer a minha vida normal e possivelmente, à tarde, se as contracções ficassem regulares em intensidade e tempo, voltar a ligar.

Então fomos almoçar fora num restaurante vegetariano em Cascais, tudo tranquilamente, com uma contracção de 7 em 7 minutos. O almoço soube me lindamente! No momento das contracções fechava os olhos e respirava fundo e depois continuava tudo normal.

A seguir apeteceu-me ir andar pela praia. Sempre visualizei o momento do trabalho de parto em contacto com a natureza, nada melhor que um local onde pudesse estar em contacto com os 4 elementos; fogo, terra, água e ar. Seguimos o caminho pela serra em direcção à praia da Adraga, a cor verde da serra brilhava ao sol e percebi que o facto de se estar em trabalho de parto nos dá uma sensibilidade totalmente diferente. Sentia que as cores quase que falavam comigo e a estrada simbolizava o caminho que o meu corpo estava a abrir para dar passagem ao nascimento do meu filho. Foi verdadeiramente emocionante e bonito.

Na praia enrolamos as calças e saias e começamos a andar à beira de água. As contracções já eram mais fortes e durante as contracções parecia que a dor me fazia fundir com tudo o que me rodeava. Foi, de todo o trabalho de parto, o momento mais agradável, parecia mágico. O facto de se andar, em contacto com a natureza, parece que faz desaparecer a dor, pelo menos o aspecto insuportável que a dor pode ter.

Voltámos para casa. Fiquei muito tempo a medir se as contracções já eram regulares e igualmente intensas, as horas iam passando e a médica aconselhou a tomar um banho. Se as contracções abrandassem, ainda ia demorar, se continuassem, era porque o parto estava a chegar. Tomei um banho e tentei dormir um pouco, estava sonolenta. Mas as contracções já vinham de 5 em 5 minutos.

Queria fazer o trabalho de parto todo em casa e eventualmente só no final da dilatação ir para o hospital. Preparámos a casa com velas, uma música suave, incenso e entreguei-me ao mundo espiritual. Então começou essa fascinante viagem em que perdi o senso habitual do espaço e do tempo. As contracções ficaram muito intensas e ligámos à Sandra. Já eram 20h00 quando ela chegou e foi muito bom, porque eu já estava a precisar de algum alívio. O facto de termos uma mulher ao nosso lado de alguma forma dá mais confiança. Foi delicioso quando a Sandra me agarrou as costas, ia pondo um pano húmido na testa e simplesmente “estava lá”. O Pedro pôde ir jantar, tinha estado a tarde toda ao meu lado, uma verdadeira rocha para apoiar.

Por volta das 21h00 as dores ficaram mais fortes e entrei na banheira com o creme de castanha da índia da Weleda. O Pedro tinha preparado a casa de banho; a janela estava aberta (era o meio do verão) com velinhas no parapeito da janela, um aroma óptimo no ar que vinha do banho, os grilos cantavam lá fora e ao de longe via as árvores da serra de Sintra. Parecia um cenário de filme. Entrei dentro de água, o que foi um alívio delicioso, e lá fiquei totalmente entregue às contracções. O espaço de tempo entre as contracções parecia divino em comparação com o tempo das contracções. Mas nada de insuportável. A médica chegou e constatou que estava com a dilatação toda feita e que era impossível ainda irmos para o hospital. Eu disse-lhe que já ninguém me tirava daquela banheira de qualquer forma. E assim, muito despercebidamente, ficou decidido que o parto ia ser em casa. Simplesmente aconteceu. Eu já não estava em condições de avaliar se era boa ideia ou não, segui o caminhar natural das coisas e no fundo era exactamente o que eu queria.

Comecei a sentir vontade de fazer força, continuava na banheira, de vez em quando iam ouvindo o bebé com o ctg aquático. A médica foi uma presença tranquila, doce e foi dando muito espaço ao que eu sentia e queria. A Sandra teve sempre de meu lado e então percebemos que a banheira não era larga suficiente e que teria que sair para ter espaço para a expulsão. Sair do banho foi difícil. Eu não queria. Quase que me tiveram que arrastar, mas percebi que era necessário. Fora de água, em comparação, as contracções eram realmente dolorosas e então entrei numa espécie de estado instintivo. Sentei-me no banco de parto, gritei e fiz toda a força que alguma vez consegui imaginar (No fim onde tinha mais dores era no pescoço). Na realidade só se passaram 20 minutos e o bebé nasceu. Ainda me lembro do estado de graça em que se flutua quando de repente temos o nosso bebé nos braços, no nosso quarto. Deixámos o cordão mais algum tempo, o Xavier foi logo posto ao peito e ficámos ali, os três, pai mãe filho. Como o parto não tinha sido planeado em casa, não tínhamos nada à mão. Esterilizámos a tesoura das unhas e serviu para cortar o cordão umbilical que foi preso por uma gaze bem apertada! Parecia de outros tempos, voltar às origens para distinguir o essencial do supérfluo. Não lavámos o bebé, só o esfregámos com um banho suave e mais tarde li que faz lindamente aos bebés ficarem assim após o parto para se poderem alimentar da gordura que fica na pele. A médica ajudou-me a tomar um duche enquanto a Sandra punha uma máquina a lavar com as toalhas que se tinham sujado e deitámo-nos na cama. O bebé nasceu por volta das 23h30 e às 24h30 estávamos todos a dormir tranquilamente, no nosso quarto… Tinha tido o dia mais bonito de toda a minha vida. Graças a algumas pessoas, ou seres, muito especiais que tiveram ao meu lado neste caminho.

A Rita nasceu no dia 25 de Agosto de 2006 com 41 semanas e 1 dia, após 25 horas de um trabalho de parto induzido por normas do hospital e muito demorado.

Entrei no dia 24 de Agosto de 2006 às 11:00 horas de manhã para a indução, mas já com 2 dedos de dilatação, dedos esses que teimaram em não avançar, depois dos típicos e retro gados formalismos da depilação e clister, fui posta a soro e foi-me introduzido um gel para acelerar a dilatação; assim permaneci com contracções irregulares mas dolorosas até às 18:00 horas, aí fizeram uma 1.ª tentativa, em vão, de me rebentarem as águas, às 21.30 a médica assistente lá conseguiu rebentar-me as águas, o que custou bastante……..

Às 23.00 foi-me administrada a santa da epidural e eu continuava com os mesmos dois dedos de dilatação. Passei a noite mais ou menos descansada, entre dois reforços da epidural sempre passei pelas brasas. O meu marido, esse ainda fez meio dia de trabalho e acabou por ir para casa á 1:00 da madrugada com a minha mãe e a minha irmã, pois estava tudo muito atrasado…

Às 9:00 horas da manhã do dia 25 de Agosto já tinha conseguido chegar aos 6 dedos de dilatação, após ser administrado soro com um aditivo para acelerar a dilatação. Mas nessa altura eu já tinha levado os dois reforços da epidural e tive que me aguentar com dores até às 11:30, quem sofreu foram os braços do meu marido aos quais eu me agarrava a cada contracção, a certa altura descontrolei-me e a respiração que tinhas aprendido das aulas de preparação para o parto não tinha qualquer efeito.

Quando me foi dado o ultimo reforço da epidural foi dito para ir fazendo força sempre que viesse uma contracção, aí foram os melhores momentos do meu parto, sem dores e com muito força para fazer fui fazendo sempre força, mas a minha princesa estava muito subida e com uma mão na cabeça, então teve que se recorrer à ventosa e à episiotomia, da qual surgiu um edema que me deixou um bocado mal tratada, para a por na rua!!!!!!!!! Finalmente às 12.46m nasce uma princesa muito cabeluda e a ralhar com o mundo!!!!!!!!!!

Sofri um bocado, principalmente por não ser o parto que eu sempre idealizei ao longo de toda a gravidez, um parto o mais natural possível, onde só iria ter intervenção médica nos últimos momentos, onde a minha vontade seria ouvida e respeitada.

Fiquei bastante desiludida por não poder passar pelo processo da dilatação em casa, junto dos que amo, e por ter passado 25 horas deitada numa cama, onde os únicos movimentos se resumiam entre mudar da esquerda para a direita e vice-versa, sujeita ás vontades de terceiros Pergunto-me se não era preferível esperar mais uns dias, uma vez que eu já estava a perder o rolhão mucoso e com contracções há dois dias??? Porque é q nos hospitais não nos é permitido andar em vez de estar sempre deitada?? Será que a minha filha não sofreu ao estar privada do liquido amniótico durante mais de 12 horas?? Por tudo isto, penso insistentemente porque não esperei mais uns dias, porque é q não optei por ter tido a minha filha em casa??????

Penso que o facto de não ter confiado mais em mim e na minha capacidade de parir segundo as leis da natureza se deveu a muito falta de informação a que nós mulheres, principalmente mães de 1.ª viagem estamos privadas, ainda continuam a haver muitas lacunas na nossa sociedade, nomeadamente na maneira como a mulher, parturiente vive o parto, assume-se que parir é mais um acto cirúrgico, cheio de complexidade e no qual os interesses e vontades da mulher não são respeitados….

De uma coisa tenho certeza, mesmo passando por esta má experiência, penso em ter mais filhos, mas, de certeza que irei exigir mais respeito pela minha opinião.

Bem-haja a todos pelo maravilhoso trabalho na dignificação da mulher e do parto.

Chamo-me Janina e fui mãe do Salvador aos 25 anos no dia 8 de Fevereiro de 2007.

Tive uma gravidez espectacular. Graças aos conselhos da minha médica obstetra Dra. Radmila, não tive nenhuma doença durante a gravidez e consequentemente tive uma gravidez 100% livre de medicamentos, suplementos alimentares, etc; mesmo antes de saber que estava grávida. A única coisa que tomei foi o ácido fólico. Como consequência disto tudo gostava muito de ter tido um parto o mais natural possível, sem epidural, talvez até dentro de água, porém tudo correu de maneira diferente.

Ao fim de 40 semanas de gestação comecei a ficar farta de estar grávida e continuava a não haver qualquer sinal de parto. Sempre achei muito importante completar as 40 semanas de gravidez, mas a partir daí só pensava em induzir o parto. Senti desde o momento em que engravidei que iria ter um parto complicado. Ás 40 sem e 6 dias pedi à minha médica para me induzir o parto. Por volta do meio dia de dia 7 de Fevereiro  a Dra introduziu-me um gel à base de prostaglandinas que ao fim de 6 horas iria actuar.

Assim foi. Por volta das 6 da tarde as contracções começaram a fazerem-se sentir e ás 22 horas encontrámo-nos na Clínica. O ambiente estava óptimo, a Sandra ajudava-me a relaxar na bola “de parto” ensinando-me a fazer movimentos circulares com a bacia. A seguir tentámos descansar um pouco, mas de repente comecei a sentir umas dores fortes no lado direito inferior da barriga no intervalo das contracções e já não consegui ficar relaxada. Tive a certeza que a epidural no meu caso seria praticamente incontornável e a Dra e a Sandra concordaram.

Chegámos à Cruz Vermelha ás 2 da manhã e o Dr. Bismark chegou pouco depois. Levei a epidural ainda sem dilatação nenhuma, mas para mim foi a melhor solução. Deixei de sentiras dores, mas sentia as contracções. Enquanto que a médica foi descansar um pouco, a Sandra não saiu de ao pé de mim. Falávamos, ria-mos e dormitávamos até eu ter atingido os 4 dedos de dilatação. De hora a hora levava reforço da epidural e continuava muito tensa. A Sandra e a Dra faziam-me massagens ás pernas que estavam inchadíssimas e ajudavam-me a relaxar a cabeça que era a minha mente que estava na origem do não conseguir dilatar.

Nunca me apressaram, quando entrámos na Cruz Vermelha não havia mais ninguém a ter bebé e quando o Salvador nasceu 3 mamãs já tinham ” sido corrido”a cesarianas, isto porque os médicos já não estão para estar á espera. (Quando ouvi os comentários do Prof.Luís Graça nas Donas do Parto que disse que induz sempre os partos quando ultrapassa as 40 semanas porque sendo Prof tem muitos compromissos fiquei escandalizada. Como é que ainda há médicos desses?! Querem mandar em tudo. Ou se é obstetra ou se é professor. Jamais seria paciente dum médico assim)!

Por volta das 15 horas levei o último reforço de epidural. Estava com 8 dedos nessa altura e o Salvador parecia não descer mais. Tive que fazer muita força e tenho consciência que só o consegui porque tinha a Sandra a meu lado e a Dra a dizerem-me que eu seria capaz. O meu marido só entrou 10 min antes do fim, uma vez que eu estava muito mal disposta e tinha náuseas tremendas que me faziam restituir todos os líquidos que tinha ingerido. A situação era-me tão embaraçosa que preferi assim e a minha vontade foi respeitada. A Dra Radmila tentou contornar a episiotomia, todavia eu estava de tal maneira exausta que pedi que me auxiliasse procedendo à episiotomia.

A epidural tinha deixado de fazer efeito por completo e eu estava desesperada. A Sandra dizia-me q faltava muito pouco e a Dra dizia que já conseguia ver a cabecinha do Salvador e que era loirinho. Rodou-me a oxitocina para a dose máxima de 120 e aguardámos a contracção seguinte em que me fez a episitomia e graças a isso o Salvador conseguiu sair de uma só vez. A episiotomia e o pós-parto em geral não me custaram nada. A Dra coseu-me muitíssimo bem. No dia seguinte ninguém acreditava que eu tinha tido um parto vaginal e não tinha dores nenhumas.

A Sandra deu-me igualmente imenso apoio em relação á amamentação que decorreu sem qualquer problema devido aos bons conselhos que ela me deu e ao facto de me dizer vezes sem conta que eu seria capaz de o fazer. O Salvador nasceu muitíssimo saudável com um índice de Apgar de 10 ao 1º minuto, a pesar 3770, a medir 51cm e com um perímetro encefálico de 37cm. Jamais irei conceber um parto sem uma doula, ou melhor, sem a Sandra, que é uma mulher espectacular, cheia de força, que nos transmite imensa confiança, que tem resposta para qualquer pergunta por mais embaraçosa que seja e que está contactável 24 horas por dia.

Resumindo e concluindo venci todos os meus “demónios interiores” e já nada me assusta. Aprendi a confiar no meu instinto e continuo com o sonho de o próximo parto ser 100% natural. Desde que a Sandra e a Dra estejam comigo até pode ser em casa que eu não tenho qualquer receio e confio plenamente. Espero que o meu testemunho sirva para ajudar outras futuras mamãs e quero dizer-lhes que é extremamente importante podermos cofia a 100%r em quem está connosco.

Exactamente como o desejámos. Puro trabalho de casa, em casa. Foi assim o parto. Este, sim – O NOSSO PARTO.

Apetecia-me perguntar a quem lê este meu relato se prefere a versão mais curta ou a mais longa desta história. Se quiser ser rigorosa, teria de marcar como o início de todo o processo o momento em que conheci a minha Doula para toda a vida – a Sandra Oliveira – que se atravessou no meu caminho há quase três anos. Mas não vou recuar tanto, opto pelo meio termo, a começar na véspera do nascimento.

A enfermeira obstétrica que havia de me acompanhar no parto estava contratada. A Sandra esteve cá em casa, à tarde, num encontro preparado, de propósito, com a presença da Rita (a minha filha, de três anos). A ideia era familiarizá-la com o momento do parto, embora ela já soubesse como havia de nascer o bebé. Viu e ouviu uma história de um parto, viu um filme (que ela não esquece e ainda hoje fala no bebé David), trouxe à Sandra a boneca parideira, que a mãe lhe oferecera há umas semanas atrás. Depois a Rita foi fazer a sua sesta, enquanto eu passava em revista, com a Sandra, todo o material necessário para o parto e fazia questão de me certificar de que ela conhecia bem os cantos à casa, para não ter de andar às apalpadelas, quando chegasse a hora. Logística ok. Voltámos então a sentarmo-nos, para falar calmamente nas minhas expectativas para aquele dia e no que tinha vindo a sentir nos últimos dias, física e emocionalmente. Disse-lhe que contava com o nascimento do Carlos para sexta-feira (era segunda); alertei-a para o facto de não poder contar muito com o Paulo no dia do parto, uma vez que, em situações de maior tensão, o meu marido sofre uma espécie de bloqueio, inimigo do mais elementar pragmatismo; e falei-lhe do que não tinha ainda comentado com ninguém: o papel da minha mãe no dia do parto. Era ponto assente que, com grande pena minha, a minha mãe não poderia estar presente, porque eu sabia que funcionaria como factor de bloqueio do meu trabalho de parto. Sujeitá-la-ia a uma tensão e ansiedade para ela insuportáveis. No entanto, disse à Sandra que queria muito tê-la ao pé de mim logo a seguir ao nascimento do bebé. Lembro-me de ter chorado quando fiz este pedido à Sandra. Lembro-me de lhe ter explicado como era importante o que lhe pedia, pelo valor que reconheço na minha mãe e pelo exemplo que me deu ao longo da vida sobre a importância do espírito de sacrifício e como é ilimitada a nossa capacidade para suportar a dor. A Sandra, com a segurança e serenidade que a caracterizam, garantiu-me logo que sim, que me assegurava a presença da minha mãe imediatamente após o parto. Fosse como fosse, alguém a traria até mim. Descansei. Já à porta de casa, com a Sandra aparelhada de armas e bagagens, pronta para sair – que esta mulher anda sempre como um bombeiro! – tivemos a inacreditável troca de impressões, que vou recordar sempre, incrédula, pelo que viria a acontecer no dia seguinte. Questionei-a sobre o seu papel de doula, se não se via a ir um bocadinho mais além na sua esfera de intervenção no parto, sabendo que há tantas doulas que acabaram por assumir conscientemente a função de parteiras. A Sandra mostrou-se irredutível: de forma alguma. Uma doula é uma doula, uma parteira é uma parteira. Para ela, a parteira/profissional de saúde tem uma função, a doula outra; e se é verdade que há quem acumule estas funções, ela não se revê nessa polivalência. Como é que diz o ditado? “Nunca digas desta água não beberei”… Pois é… Mal sabíamos nós… Mais adiante volto ao ditado.

Assim que a Sandra saiu, senti uma dor ao nível dos rins, que se estendia pelo meu lado esquerdo. Logo a seguir vieram umas quantas contracções que me levaram a deitar-me um pouco, ao lado da Rita, que não parecia querer acordar da sesta. A Sandra telefonou-me então, já nem sei bem porquê – parece que vive em estado de permanente premonição – mas não lhe dei conta do que sentia, por não o considerar relevante. Disse-lhe que estava só um bocadinho na ronha com a Rita, que não queria acordar – pode ser que depois deste parto tenha aprendido a avaliar melhor a relevância dos pequenos indícios… pode ser… A verdade é que o ligeiro incómodo das contracções se prolongou pela noite fora o que não me permitiu descansar convenientemente, embora me mantivesse calma e confiante num parto só para sexta-feira.

Como de costume, levantei-me por volta das 7h30 para fazer o almoço da Rita e preparar a lancheira e a roupa para a levar ao colégio. No banho, por volta das 8h30 chega a primeira evidência da relevância daquele dia: perdi o rolhão mucoso. Embora fosse para mim uma novidade, não tive dúvidas nenhumas do que se tratava – uma gelatina clara, transparente ou ligeiramente esbranquiçada, em quantidade razoável, que me preenchia a palma da mão. Estava à vista o resultado das contracções da noite, que, estranhamente, tinham passado por completo. A rotina prosseguiu: acordei a Rita, dei-lhe o biberão de leite e papa, vesti-a, levei-a a fazer xixi, escolhemos “os amigos” que iriam com ela à escola naquele dia, escondidos na mochila, vestimos casacos, pegámos na tralha e saímos. Como se tornara já hábito, lá fui recebida no colégio com um espantado “Ah! Ainda aqui anda?!”, para me obrigar a repetir: “Pois… quando deixar de andar é porque nasceu…”

Voltei a casa e entendi que era melhor deitar-me e tentar dormir um pouco, depois da noite desassossegada – embora as contracções tivessem parado, não sei porquê começava a digerir e assimilar como possível o nascimento para breve e aceitei, sem resistência, a necessidade de recuperar energia que dentro de pouco tempo me poderia ser útil… Deitei-me por volta das 10h00, sem conseguir dormir propriamente. Dormitei, apenas. Cerca de uma hora depois, praguejei para dentro um “Ai! Bolas! Não era para ser assim!…” – senti duas descargas de líquido involuntárias e em pequeno jacto. As águas! Só podia ser, pensava eu. Fui à casa de banho ver que aspecto teria. Era rosado claro. Lavei-me, estreei o pacotão de pensos king size comprados mais a pensar no pós-parto que naquela eventualidade. Nunca quis que o meu trabalho de parto tivesse início daquela forma. Se à ruptura de bolsa se seguissem verdadeiras contracções, tudo bem. O caso não me afligia nada. Mas temia que as contracções se fizessem esperar por muito tempo e que a necessidade de rumar à maternidade se impusesse. Eu sempre me disse preparada para ir para a maternidade, caso algum contratempo no trabalho de parto assim o exigisse. Estava preparada, portanto, para terminar o meu trabalho de parto num hospital. O que me custaria a aceitar era a possibilidade de lhe dar início em meio hospitalar. Acabar lá aceitava, começar é que não. Ainda recentemente o tinha comentado com a enfermeira e com a Sandra. A primeira tentou preparar-me para aceitar serenamente essa possibilidade. A Sandra, pelo contrário, julgava como pouco provável que viesse a passar por uma ruptura prematura de bolsa.

Por volta da uma da tarde telefonei ao Paulo, contando-lhe o que acontecera e sugerindo-lhe o regresso a casa, sem pressas, mas quando pudesse. Veio imediatamente. Quando chegou, fiquei com a sensação de estar eu mais calma que ele. Eu mantinha-me ocupada, como se nada tivesse acontecido, embora me entregasse a tarefas preparatórias de um parto iminente: estendi a roupa que a máquina já tinha lavado (porque sabia que não faltariam lençóis e toalhas ensanguentados para lavar brevemente); dispus no quarto, em duas banquinhas, todo o material que tinha organizado para o parto; montei o caixote do lixo de apoio; escondi o doce de abóbora que a minha mãe fez, mas que não consegui comer, não fosse vir a minha mãe ver o neto recém-nascido e dar com o doce recém-desprezado; lavei a banca da cozinha… enfim, ocupei-me. O Paulo dava algumas mostras de ansiedade, insistindo que ligasse à Sandra. Eu, embora calma, mantinha-me aborrecida na ausência de contracções. Às 14h30 liguei então à Sandra, fazendo o ponto da situação, e fiquei de voltar a dar notícias. A Sandra não estava nada crente num cenário de ruptura de bolsa. Para ela aquela perda pontual de líquido nada tinha a ver com isso, vinha simplesmente na sequência da libertação do rolhão mucoso, nada mais. Pouco depois liguei também à enfermeira. Da Sandra recordo o gritinho eufórico, do lado de lá, a alegria incontida, como se estivesse para começar a festa, como se nos preparássemos todos para um desfile de Carnaval tardio. Mas elas vieram, as contracções! E como vieram! Esperei mais uma hora, talvez, e eis que começo a senti-las, muito semelhantes ao que tivera durante a noite. Primeiro irregulares no tempo, depois certinhas: de seis em seis minutos, depois cinco, a seguir quatro… Fantástico! Às 15h30 liguei de novo à Sandra e pouco depois à enfermeira, a aproveitar um intervalo de quatro minutos. Continuavam felizes, em espírito festivo. Neste momento a dor obrigava-me já a uma respiração profunda, a fugir já muito ao meu ritmo normal, e procurava, numa estratégia de tentativas sucessivas, encontrar posições que me aliviassem o desconforto. Lembro-me que estar sentada era intolerável – uma tremenda pressão no ânus tornava ainda mais dolorosas as contracções. Tinha de estar de pé. Debruçava-me ligeiramente para a frente a cada contracção, ora apoiada à parede, ora apoiada na cómoda do quarto. Por volta das 16h00 o Paulo foi buscar a Rita ao colégio e a Sandra voltou a ligar. Combinámos que ela ia buscar a máquina fotográfica a casa e que, chegando lá, voltava a dizer alguma coisa. Vi-me dividida, hesitante – se, por um lado, queria que ela viesse com a máquina, porque a bateria da nossa estava a dar as últimas, por outro lado, sentia que podia estar a esticar demasiado a corda: um frio incontrolável tinha tomado conta de mim. Por esta altura dei início à evocação mental de todas as mães, presentes e ausentes, com as quais sentia naquele instante uma tremenda afinidade e nas quais procurei força e apoio – a minha própria mãe, as minhas avós, Maria, mãe de Cristo… Tão certa estava que tinham, todas elas, parido naquela mesma dor que eu sentia, que lhes pedi que me dessem a mão, que me dessem força, que olhassem por mim, elas que sabiam tão bem o que eu estava a passar e que o haviam superado tão bem, há anos, décadas, séculos, milhares de anos atrás. Os crentes dirão que rezei. Os ateus dirão que entrei em processo de regressão mental. A classificação é irrelevante. A verdade é que nunca senti medo ao longo do meu trabalho de parto, nem nos instantes em que estive aparentemente só. Tremia, mas de frio. Vesti o roupão e mantive-me de pé, com o aquecedor entalado entre as pernas, na tentativa de me reconfortar. Fui à sala buscar a bola de parto e ajoelhei-me, deitei o peito sobre a bola e balancei-me para a frente e para trás, braços ao abandono, caídos para a frente. Que bom! Que alívio! Cheguei a dormitar enquanto balançava. E fui assim alternando entre o aquecedor, em pé, e a bola, debruçada para a frente. Foi assim que a minha filha me veio encontrar, quando chegou do colégio. Minha querida! O cuidado com que me dava a mão, sem perguntas, sem exigências. Apertava-me a mão à medida das minhas necessidades. Como fazia ela aquilo? Como aprendeu, se eu não a orientei em nada?! – tomara eu conseguir orientar-me a mim naqueles instantes! – senti-a então como mais um elo na milenar cadeia de mulheres unidas pelo parto…

À Sandra tinha dito que fosse então a casa. Quando me voltou a ligar, às 17h00, eu já só pensava que cada contracção que passava era menos uma que tinha de enfrentar. Decidi então que queria suportar tudo o que tivesse de ser, numa perspectiva de cooperação com o meu corpo e com o meu filho. Foi nessa altura que percebi que a posição na bola, embora muito cómoda, era uma medalha de reverso menos conveniente: se era verdade que aquela posição me aliviava muitíssimo, não era menos verdade que os momentos que ali passava reclinada correspondiam a instantes de trabalho de parto em suspenso – não atrasava o processo, mas estacionava-o. Isto tornou-se para mim muito claro. De tal maneira que tomei a decisão de me disciplinar no uso da bola – optei por me manter na vertical o máximo tempo possível, tentando prever e auxiliar o caminho descendente do bebé. A partir deste momento foi tudo rapidíssimo. Já muito cansada por não me conseguir sentar e por estar permanentemente de pé, tive vontade de me deitar por uns instantes, na esperança de conseguir recuperar energia entre as contracções, que a esta altura aconteciam já de minuto em minuto. Perto das 18h00, deitada sobre o meu lado direito, à beirinha da cama, encontrava-me já em fase de transição. Tinha já iniciado uma espécie de voo – uma agitação de braços, que eu levantava ao ritmo das contracções e da respiração, para bater depois com eles contra as pernas, ou contra o Paulo, coitado. Coitado mesmo, que percebeu que as coisas se encaminhavam demasiado depressa para o seu desfecho e já se via a fazer o parto sozinho. Expliquei-lhe então como gostava que me massajasse – com as duas mãos, empurrando-me a bacia com força para baixo, a partir da zona lombar. Ai como esteve bem o meu homem! Que bom! Que alívio! Entendo perfeitamente que estivesse dorido, no dia seguinte! O Paulo ligou então à Sandra, que percebeu como as coisas tinham acelerado pelos gemidos de fundo que ouvia. Aliás, eu só comecei a gemer naquela altura e devo dizer que comecei a fazê-lo intencionalmente. Foi a forma que encontrei de comunicar com a Sandra – naquela altura sentia-me já noutra dimensão de onde não queria regressar, queria deixar-me ir, sentia-me no caminho certo. Falar obrigar-me-ia a retroceder no caminho que já tinha feito. De forma que gemi, simplesmente. Aquele gemido dizia “Vem depressa!” e eu sabia que a Sandra o entenderia à primeira. Entendeu, pois claro. Foi de quatro piscas ligados que a minha doula fez o resto do caminho até nossa casa, caminho infernal, àquela hora! – eixo Norte/Sul e Calçada de Carriche, com cheirinho de acidente e tudo!!! A Sandra ainda voltou a pegar no telemóvel para sugerir ao Paulo que eu me pusesse de gatas, inclinada com o rabo para o ar, na tentativa de conter as contracções. Mas qual quê!!! Quem é que me convencia a semelhante coisa?! Entretanto apercebi-me de que o Paulo falava com a enfermeira e tornou-se para mim claro que ela não chegaria a tempo. A minha calma e contenção sempre que falei ao telemóvel acabou por induzir em erro todos os que me acompanharam. Da mesma forma que aceitei imediatamente a ausência da enfermeira, também soube sempre que a Sandra estaria presente, eu sabia que sim. As contracções surgiam agora sem intervalo entre elas e eram de uma violência atroz! Ao invés de começarem brandamente e caminharem para um pico de dor, começavam com toda a força e tinham dois picos máximos em vez de um!

Ainda deitada, de lado, senti que talvez me tivesse sujado. Já no parto anterior tinha acontecido manter o intestino em limpeza ao longo de todo o período expulsivo, apesar do clister, que não serviu de nada. Desta vez não houve clister, claro, mas o intestino manteve-se a trabalhar quase até ele nascer. Não é nada conveniente, pois não… nada prático, mas enfim… Estava então cheia de calor, a transpirar. O Paulo ajudou-me a despir o roupão e a levantar, para ir até à casa de banho, sentar-me na sanita e limpar-me. Começa então a vontade INCONTROLÁVEL de fazer força. Lembro-me de ter dito mais tarde à Sandra que é muito mais difícil controlar esta vontade do que a dor. E é mesmo! Nos intervalos das contracções funcionava o intestino e eu aproveitava para me limpar (parecia que não havia papel higiénico que chegasse!); no decurso das contracções, apoiava-me nos braços do Paulo e fazia força. Tanta força! Ai como me estava a saber bem fazer força assim! Ai como era agradável aquela fase! Juro! Lembro-me de ter começado a sorrir para o Paulo nesta altura. Entendi tão bem quem diz sentir um prazer que ronda um orgasmo durante o parto. Ai que eu estive tão perto! Mais força e um ploc! – as águas! Tocou então a campainha. 18h15. SANDRA! Esta mulher não existe! Chegou e meteu logo mãos à obra. Sem perguntas, sem contextualizações, num ápice lá estava ela, diante de mim, panos molhados na testa, braços suportando os meus, respiração sincronizada com a minha e a pitada de humor: “Vais parir aí?” Sorri e disse-lhe que não, pouco convicta – como é que ia conseguir largar aquela sanita?! As contracções eram tão próximas, não dava tempo para nada! A Sandra perguntou-me se sentia a cabecinha do bebé cá em baixo, se tocasse com a mão. Experimentei senti-lo, mas não, ainda não sentia a cabeça, embora tivesse a certeza que estava mesmo ali. Mais uma contracção e disse feliz “Vai nascer!” Não se descreve o fenómeno avassalador de sentir um filho a atravessar-nos as entranhas! O ardor tremendo da cabeça coroando e a urgência de o pôr cá fora. Acho notável os relatos de parto em que as mães dizem ser capazes de controlar a esta altura o nascimento, por forma a evitar lacerações do períneo. Eu não consigo imaginar como é isso possível! Eu sentia-me tão bem fazendo força! Desejava tanto vê-lo que o fantasma da laceração ficou ínfimo e desapareceu… Queria lá saber se terminava esta aventura partida em duas! Eu só o queria cá fora! Voltei então a levar a mão cá a baixo e lá estava! A cabeça do meu menino! Toquei-lhe! “A cabecinha! A cabecinha! Está aqui! Sinto a cabecinha!” – disse. A Sandra saiu por instantes da casa de banho e eu, como quem mergulha de uma ponte, depois de contar até três, atirei-me ao chão e fiquei ali, de gatas. Quando a Sandra voltou só ouvi “Não, não… Assim não.” A casa de banho é um cubículo, mínimo, de facto ali não! Era impossível parir ali! Bem… impossível, impossível não seria, mas… Não sei como foi possível a Sandra arrastar-me dali para fora! Sem ela, nem uma grua me arrancaria dali! Fiz o caminho da casa de banho do quarto até à beira da cama sentindo a cabeça do Carlos entre as minhas pernas! Foi só o tempo de alcançar a cama. Fiquei numa posição de meio termo entre o de joelhos e de gatas, sobre a cama. Mais uma contracção e foi o dilúvio! Água por todo o lado, em cascata, e a cabeça dele cá fora! A Sandra, minha querida doula, que nunca havia de invadir o terreno das parteiras, ali estava para recebê-lo, sabiamente à espera da próxima contracção, que o trouxesse em definitivo ao mundo. O Paulo ainda hoje fala neste impressionante trabalho de espera. Na eternidade dos segundos que se seguiram, a Sandra ali ficou, diante daquela cabecinha inerte, arroxeada, já cá fora, à espera que a próxima contracção nos desse a conhecer um bebé de corpo inteiro. Esta mulher é assim, tem ainda este mérito, que me apetece chamar de dom da volatilidade – ela evapora-se, sabe evaporar-se, quando a sua intervenção passa a estar a mais. O Paulo ainda hoje não entende como foi que ela resistiu a segurar aquela cabeça, a auxiliar aquele corpinho no seu movimento de rotação… Nunca o fez! Esperou e assistiu ao extraordinário movimento do pequeno artista na sua chegada ao mundo. Só mais uma… PRONTO! Furioso, aos gritos, foi como ela o amparou, para o pousar logo sobre os lençóis. E foi mesmo logo – lá está, volátil de novo. Não cheguei a ver o meu filho nas mãos da Sandra, embora tenha sido ela a segurá-lo na saída e eu me tenha virado imediatamente para o ver. A minha doula nunca esteve em cena, quando o lugar não era seu. Não há medida que alcance o bom senso desta mulher! Eu, atónita: “Meu filho! Posso agarrá-lo? Meu filho!”  O quente, meu Deus! O cheiro! Aquele prolongamento de mim! O pai para a filha: “O maninho! É o maninho!” Ela também estupefacta. A Sandra mantinha-se apagada. Trouxe-a eu de novo à cena, quando lhe disse, toldada pelo efeito incontornável das hormonas: “Foi tão fácil!”  Quais hormonas, qual quê! Fácil, sim! Fácil, porque fácil, fácil é amar! E eu amei-o logo, com a mesma facilidade com que o seu cheiro se prendeu a mim. Amei-o ali, para sempre. Ali, eu e ele, imensos na nossa majestade. O resto do mundo reduzido à sua mais irrelevante insignificância. Foi preciso perguntar eu: “E a hora?! A que horas nasceu?!” Uma consulta rápida ao relógio não permitiu mais que uma estimativa. Convencionou-se as 18h35. E este pormenor diz tudo. Hoje deixo-o aqui para que a memória não nos traia nunca: O MEU FILHO DOMINOU O TEMPO, suplantou-o, abalroou-o naquele seu grito de “Deixem-me passar! Cheguei! Agora eu!”

 

Deste momento lembro-me muito bem de um pormenor que me pareceu tão bonito, doce, um acto de maravilhosa comunhão: de repente, sem acordo prévio, sem “Schiiiiiuuu!”, nem alertas codificados, toda a gente começou a sussurrar, nem os três anos da minha filha se evidenciavam, todos falávamos baixinho, de forma pausada, embora estivéssemos todos em estado de efervescente felicidade.

Foi neste ambiente, de templo sagrado em festa, que pela primeira vez ofereci a mama ao meu bebé, com alguma ansiedade, devo dizer, expectante, ensombrada pela experiência de amamentação mal sucedida há 3 anos atrás. Senti-me assim o mais humilde e receoso visitante do menino no presépio, aquele que vem com um queijinho, enquanto outros trazem ouro, incenso e mirra para ostentar… Mas o meu filho tratou logo de me reconhecer como o melhor dos presentes! Nunca mais quis largar a mama. Eu ali fiquei embevecida e, nem sei bem porquê, agradecida pela gratidão dele, tão claramente declarada no ritmo sôfrego daquelas bochechas.

A enfermeira chegou, entretanto… perdeu os gritos de conquista do mundo de um bebé ainda preso por um cordão ao ventre que foi seu… Ficou apenas com uma placenta por nascer e com a parte ingrata de um períneo lacerado para suturar. Eu, em tom de brincadeira, ainda lhe disse que não havia replay para ninguém. Foi tudo demasiado rápido, é verdade, mas também sem ansiedade latente, sem stress algum. Vimos este parto como mais um episódio – muito feliz, é certo – a preencher-nos o dia. Tanto que o Paulo, por exemplo, se manteve sempre com a roupa com que chegara do trabalho. Não teve tempo, preocupação, discernimento, nem vontade para seguir a sugestão da Sandra, quando, no seu espírito muito prático, ainda atirou para o ar um “Mas vocês não se querem pôr mais à vontade?…” Ele não lhe ligou nenhuma…minha querida doula… Enfim, apontamentos cómicos de um parto que não podia ser mais feliz.

Pode parecer absurdo, mas a separação definitiva custou-me, tanto que a adiei enquanto pude, mesmo depois da enfermeira chegar. Mas tinha de ser. O facto de ter sido o pai a cortar o cordão, acabou por tornar o acto menos invasivo e agressivo na minha cabeça. Com semelhante nostalgia observei a placenta, agora despejada num alguidar, de plástico, tão pouco digno para o valor que continha… Grande, pareceu-me enorme, ainda a libertar vida por todo o lado, ao rubro. Passados três dias deitámo-la fora, com grande pena nossa… tivesse eu um jardim, um quintal…

Logo após o nascimento chegámos a acreditar que este não teria deixado em mim marcas físicas dignas de reparo. No entanto, o banho que se seguiu mostrou-me logo o contrário – o ardor que senti, comparável a um banho de álcool sobre uma ferida aberta, mostrou-me logo que não escaparia ao trabalho de sutura. Levou bastante tempo. Não sei precisar quanto nem quantas voltas terá dado o fio. Na verdade, esqueci-me de querer saber. Quem é que se lembra de semelhantes miudezas, com um filho morno e húmido sobre o peito, coberto por uma toalha de praia sem serventia, choramingando enquanto não descobri que se queixava de um pezinho a descoberto? Quem é que sente dor, com uma doula como a minha à cabeceira, que me ia apertando a mão, compondo a almofada para me recostar e me dizia num beijo: “Grande mulher! Vai passar. Está quase.” (eu sei que foi isto que ela me disse, sem dizer nada)? O que são uns pontos? Nada.

A seguir sei que a casa continuou em movimento, com uma mãe que chegou para ver o neto, noite avançada; com feijoada a aquecer; com uma máquina de roupa a rodar frenética, para dar conta das marcas da nossa festa; com uma esfregona e panos cumprindo a mesma função… Mas dessa parte eu só suspeito. Dessa parte eu já não sei. A minha parte estava ali, colada a mim. Ali, os dois, temperaturas baralhando-se em processo de reconhecimento. Não me perguntem mais, que eu não sei de mais nada. A noite seguiu à minha frente.

Sandra, minha doula para toda a vida, este parto é teu, também teu, tanto teu como nosso. Sabes disso, não sabes? Sabes? Diz-me que sim, porque eu não tenho força suficiente para te apertar as mãos, junto ao peito, em agradecimento. Também tu passaste a fazer parte da cadeia de mulheres a quem sei que posso sempre pedir a mão.

Rita, muito obrigada pelo apoio, filha. Portaste-te tão bem! Ai! Aquela mãozinha que me deste!… Pena tenho eu dos teus tenros três anos… São só três anos, que me fazem recear pelo esquecimento do que passaste. Provavelmente esquecerás… mas a história fica sempre, para contar, aos dois, um dia…

Paulo, na intensidade dos acontecimentos, temo sempre estar a deixar-te para trás. Na força das tuas mãos, na resistência dos teus braços, no espaço que soubeste sempre reservar-me soube que não, não ficaste nunca para trás, soube-te sempre presente. Não to digo muitas vezes, hoje é preciso que fique escrito: obrigada.

“No dia mais tranquilo, que começa às 5 da manhã, posso finalmente entregar a alma a uma escrita descritiva de momentos tão mágicos.

Aos 25 anos de idade senti que era o momento ideal para sustentar uma gravidez, desta vez a segunda.

Como casal estávamos, como sempre, muito amigos e apaixonados. Queríamos aumentar a família e receber de corpo e alma um ser para partilhar a nossa alegria e amor.

Passados poucos meses:

EU: Não deves estar bom da cabeça? Só eu sei o que já passei. Um parto é dureza! EU QUERO EPIDURAL!

Ele: Aceito perfeitamente. Assim o seja. Mas adorava que a minha mulher tivesse um parto natural. 100% Natural.

Esta não foi a razão da escolha. Mas despertou em mim uma vontade de ler, procurar vivências e evidências, experiências, métodos para aliviar a dor das contracções inerentes à escolha: “100% Natural”, que eu tão bem conhecia.

Numa viagem em família, na convivência com um casal especial, em terras brasileiras, que tinham tido a experiência do parto domiciliário não tinha passado nem três semanas, mudei.

Ouvir a aventura, partilhar o amor à natureza, ouvindo-a, sentindo-a, acabei por informar a família que optava pelo parto em casa 100%natural, na condição de que mais ninguém soubesse. (só precisávamos de boa energia e não incertezas e histórias macabras!).

Li, li muito.

Comovi-me muito, tanto com experiências naturais, em casa, como com experiências hospitalares, nesta altura tão tristes por natureza.

Pesquisei: doula para chegar a parteira. Venham as duas, um bom apoio nunca é demais!

Ninguém mais sabia…

Ainda não deixo que me desarmem. Firme, acabei por passar 17 horas de trabalho, para um parto aquático, tranquilo.

Que sonho, que maravilha! Um brinde à água que me deu um filho imaculado. Horas atrás estaria na cozinha, na sala, no jardim ou na casa de banho, no meu quarto em cima da cama. Cóqueras, deitada, ajoelhada ou novamente em pé. Com música ou sem ela. Sempre com o meu marido, meu amor, minha parteira! Enfim, uma canseira necessária.

Nos momentos mais duvidosos olhava e via os dois sorrisos tranquilizadores da doula e da enfermeira. Voltava em paz a fechar os olhos, a aguentar mais uma, menos uma.

Não há desenvolvimentos. Vou para a água tentar relaxar. E consigo. Dormitando entre contracções que parecem acalmar. Pareceram trinta minutos, verdadeiramente 3 horas. Saio. Volto a andar, casa de banho, cozinha, sala e quarto. No chão, no banco, no puf, na relva.

Quando voltei a mergulhar levei o meu marido. Deitada sobre ele no conforto da água morna. Apenas me lembro da tranquilidade do momento. Uma paz que permanece em mim. Estivemos os três ligados, trabalhando para o mesmo fim. Um mentalmente, outros fisicamente também. Estão fortes as contracções! Que transe em que me encontro…não sei bem se sonho se realidade, durmo sempre que consigo. Sente meu marido, é a cabeça?

É a cabeça!

Calma, calma…venham todas ver. minha querida filha Lua, sente-se aqui a olhar a piscina…

Mais uma, mesmos uma. Forte! AI! Ai! Ai!

Calma, calma, ainda falta…já está quase a cabeça. Mais uma! AI! Relaxa…o pior já passou. A cabeça está cá fora mas ainda dentro da bolsa das águas, que maravilha…é tão raro acontecer.

Mais uma e já está…bolsa rebentada, corpo na água. Foi só apanhá-lo e segurá-lo em pé para ver o sexo desconhecido…Rapaz! Lindo, é rapaz, Lua.

E envolvo-o em meus braços protegidos pelos teus, meu marido maravilhoso, que nunca duvidou da minha capacidade de ser Mulher. Nunca duvidou da natureza, da magia do amor. Olho em redor, vejo metade de mim, a minha querida filha, que mal estava a crer no que os seus pequenos olhos viam. Minha filha coragem, grande mulherzinha.

Olho melhor, a paparazzi: a doula Sandra, tranquila, feliz! Obrigada!

Outro Lopo…oh um Lopinho.. Que querido..tão pequenino..já não me lembrava… Quer mamar? Pronto, pronto…

Minha família, juntos conseguimos!

Surge então uma vaga de energia que inundou todo o meu corpo e me fez saltar da piscina, filho nos braços e gritam: Não! Calma…

Mas eu sinto-me tão bem. Estou nova. Rasgou? Pouco. Não senti nada. Já coseu? boa..Obrigada.

Muito obrigada Lua. Ainda estou de boca aberta…

Realmente, juntos é outra coisa.!”

Preparei-me para o nascimento do Daniel à minha maneira: Procurei que tudo, desde o início da minha gravidez ao parto, e a partir dos primeiros instantes da vida dele, tudo o que dependesse de mim formasse simplesmente as melhores condições para o início da vida dele. Li muito, pesquisei, reflecti. Como sempre fiz durante a minha vida toda, mantive-me em forma com muita yoga, passeios, boa alimentação, e também quiroprática e acupunctura. E claro, procurei rodear-me das pessoas ideais para acompanhar a minha gravidez e parto, assim como o local ideal para o nascimento.

Foi fácil encontrar a doula ideal: a Sandra. Ninguém melhor para me apoiar nesta viagem, e noutras viagens futuras. Seguindo a norma de ser acompanhada na minha gravidez e parto por um obstetra de eleição, procurei, como uma agulha num palheiro, o médico ideal. Percebi mais tarde que nenhum me ofereceu mais do que a minha óptima e acessível médica de família.

Passaram por mim tantos médicos! O primeiro, observou-me passados poucos dias do teste positivo que fiz em casa. Observou-me de uma maneira afável e peculiar: viu a minha língua, mediu-me longamente a pulsação nos dois pulsos enquanto conversava comigo, e anunciou-me que segundo a medicina chinesa, provavelmente seria rapaz! Ainda mal tinha caído em mim a realidade de que estava a gerar aqui dentro um ser vivo! Foi por isso com imenso espanto que vislumbrei pela primeira vez um traço de quem o meu filho poderia ser.

Como na canção, o segundo chegou como quem vem do nada. Foi um nome que uma amiga me passou. Pouco disse, pouco perguntou, pouco respondeu, e deixou-me muitas instruções. Senti-me intimidada. Mas, foi nessa visita que ouvimos pela primeira vez o bater do coração do Daniel. No silêncio frio e vazio do consultório, esse sinal ritmado e rápido como que vindo do futuro ou de outra galáxia, mas vindo afinal, da minha barriga, transbordou-nos as medidas.

O terceiro, consultei-o devido à sua reputação como respeitador do parto natural. Como quem vem do florista, empenhou-se em conquistar-me. Elogiou a minha estrutura pélvica como sendo compatível com um parto normal, e deu-me ainda mais instruções, receitou-me ainda mais suplementos. Falou muito, ouviu pouco, baralhou-se com a lua e com os ultra-sons. Por fim, recomendou-me que fosse uma boa mãe, e que voltasse dentro de quatro semanas, coisa que não aconteceu.

O quarto, o eleito, escolhi-o porque me agradou o que disse na TV e nos jornais.  Director de uma maternidade, também professor universitário, trouxe importantes progressos à instituição que dirige. Apesar das consultas serem a des-horas e difíceis de conseguir, é um homem genuinamente simpático, por isso resolvemos continuar com ele. Mas, à medida que o grande dia se aproximava, a nossa relação foi-se desiquilibrando, e eu sentia-me cada vez mais numa posição inferior de uma hierarquia, sem voz. Mas cá dentro a minha voz era clara, mantinha-me atenta a tudo. Estava cansada daquele ritual de análises e sessões de CTG, cada vez mais frequentes e incomodativos, mas procurei ser cooperante, em nome de uma relação com a qual queria poder contar.

Entretanto, eu informava-me acerca de qual o melhor local para ter o bebé. Sabia bem o que queria: Um parto tão natural quanto possível, liberdade de movimentos, e práticas médicas informadas. Ponderei o parto em casa, mas não sentindo o apoio e a certeza que necessitava para optar contra a corrente, optei pelo mais estabelecido parto hospitalar. Visitei vários hospitais, falei com pessoal responsável, procurei estatísticas. A verdade é que nenhum deles me inspirou a confiança que desejava. Comecei a sentir-me um pouco encurralada, neste lugar, nestes tempos, em que a medicina parece nada compreender acerca dos nascimentos.

 

As minhas contracções começaram num Domingo, de manhã cedo. Levantei-me, e comecei a fazer alguns preparativos. Entretanto, fui contando os minutos e segundos, e quando estava já convencida de que se tinha iniciado o meu trabalho de parto, segredei-o ao ouvido do João, que ainda dormia. Avisei também a Sandra, os meus pais… e começou a passagem das horas, das contracções, respirações, sussurros.

Passaram-se mesmo muitas horas! Não me lembro bem quando cada coisa aconteceu, mas lembro-me de falar ao telefone com a Sandra, contar o que estava a sentir… Sentar-me muito aconchegada na cadeira de baloiço, com as pálpebras fechadas, a baloiçar-me, por vezes a dormir… E as contrações iam e vinham, às vezes mais fortes, às vezes mais frequentes… Era uma dor bem forte, cá dentro, que me vazia parar, puxava toda a minha atenção, e deixava-me descansar… Experimentei entrar no banho, e senti-me muito bem, mas quando saí a dor foi assustadoramente forte, pelo que não voltei a entrar. Se calhar não devia de lá ter saído!

A Sandra chegou no dia seguinte. Mais tarde chegou também a enfermeira que trabalha com a Sandra. Ela ia camedindo o ritmo cardíaco do Daniel, bem como a minha dilatação. Queria ficar tanto tempo quanto possível em casa, e estes números, bem como outros desenvolvimentos que ela ia observando, ajudavam-me a sentir mais segura. O João, sempre muito atarefado ia tratando de tudo cá em casa, e preparou-me um caldinho delicioso que muito me reconfortou. A Sandra ia falando comigo e ia usando pequenos truques que me ajudavam a sentir-me bem e confiante. Trouxe-me uma bola de ginástica especial onde me sentei para mexer devagarinho as ancas, e amarrou um lenço à volta da minha barriga que me trouxe algum conforto. Entretanto, os meus pais vinham a caminho. Durante essa noite, as contracções foram ficando mais ritmadas, e a minha dilatação estava a aumentar devagar mas seguramente. Tudo se encaminhava certinho para o desfecho que eu mais desejava: um parto natural, saudável, calmo.

Reservei-me o direito de ponderar até aos últimos momentos em que hospital iria parir. Chegou então a altura de partir, de manhãzinha, e foi aqui que as coisas começaram a fazer menos sentido. Sair de casa, entrar no carro, dirigir-me para a auto-estrada em hora de ponta e atravessar o rio, não era definitavemnte aquilo que mais me apetecia fazer. Assim como não me apetecia estar numa fila para me registar, esperar para ser admitida, preencher formulários e responder a muitas perguntas. Mas eu lá fiz isso tudo, agachava-me com a passagem de cada contracção, e com a confiança de quem tem a lição bem estudada e sabe que está tudo bem, passei o teste do CTG, do “toque”, vesti aquela bata ridícula, e entrei com o João para a sala onde se daria o parto. Os meus pais, que entretanto tinham chegado também, esperaram lá fora. Mais tarde, conseguimos que a Sandra entrasse também, e foi bom podermos estar lá os três.

Se as coisas começaram com pouco sentido, aos poucos o sentido foi-se perdendo todo. Pedi água, e uma enfermeira trouxe-me um pequenino copo de plástico meio-vazio, e disse que era tudo o que teria até nasceres. Outra enfermeira negou, sempre sorridente, os meus pedidos para me mostrar como a cama se poderia transformar de modo a eu não ter de estar deitada. (Sim, porque se até durante a gravidez a posição deitada era extramemente desconfortável, com as contracções era para mim impensável.) Houve uma ou duas visitas de estudantes, aos quais explicaram que eu tinha trazido um plano de parto onde pedia para ter liberdade de movimentos, ao que um engraçadinho resumiu que eu queria fazer ginástica. Havia uma casa de banho, mas era pequenina, desconfortável, muito difícil de usar para quem tinha uma barriga do tamanho de um mundo, mas lá fui conseguindo roubar umas goladas de água de que bem precisava. Amarraram-me uma cinta com um CTG portátil, que comunicava com uma máquina que mostrava uns números e fazia “bip, bip”, e disseram-me que poderia deambular. Mas a verdade é que quando me mexia, perdia-se a ligação e os sons ficavam diferentes. Eu não me ralava nada com isso, pois sentia, sabia que tudo estava bem. E durante bastante tempo ninguém se preocupou, provavelmente porque estavam distraídos com o que se passava nas outras salas.

Estavam eles, e estava também eu, pois era de facto difícil não perceber o que se estava passar. Enquanto eu me recatava naquela salinha, no silêncio, a ouvir os “bip”, e a lidar com as minhas contracções, duas mulheres tiveram os seus filhos, enquanto gritavam com quanta alma tinham pelas suas mães. Ainda outra teve uma cesariana de emergência, devido ao cordão que estava saído, como foi fácil saber pelos gritos que o pessoal médico atirava através dos corredores enquanto corriam de um lado para o outro. Ouvi tudo o que se passava como se fosse na mesma sala que a minha. Como é fácil imaginar, tudo isto despertou em mim uma vontade de travar o que se iria passar comigo. Pelo que não fiquei espantada quando a obstetra mediu dolorosamente a minha dilatação e me disse que tinha regredido.

Foi por volta da meia-noite que as coisas começaram a precipitar-se. Não é que progressão do meu trabalho de parto tenha acelerado grande coisa. Apesar de sentir que tudo estava bem e normal, a verdade é que a minha dilatação quase não aumentava. Mas parece-me que por falta de outra distracção, a obstetra virou as suas atenções para mim, e anunciou: “Já é tarde, vamos despachar isto”. Inocentemente, tranquilizei-a de que não tinha pressa. Respondeu-me que o meu trabalho de parto não estava a progredir, e eu confessei-lhe que toda a azáfama que se passara anteriormente me tinha afectado. De olhar atónito exclamou “mas isso não interessa para nada!” e retirou-se.

Quando voltou, desta vez concentrada no meu CTG deficiente, vaticinou “Essa posição está a pôr o bebé em sofrimento”. Eu então expliquei-lhe, como já o tinha feito a outros “visitantes” interessados no comportamento do meu CTG, que os contactos não estavam bons. Retorquiu que ela é que sabia pois ela é que era a obstetra. Não foi em voz alta que relembrei o óbvio — era eu a mãe, eu é que tinha o bebé dentro de mim há nove meses –, e percebi que na minha posição, nem um doutoramento me trazia crédito. Apesar do meu silêncio submisso, foi então que a pressão começou a sério. Ameaçando com a intervenção da obstetra, a enfermeira sugeria que eu me deitasse de modo a que o CTG funcionasse melhor. Convenceu-me a experimentar por uns segundos a posição de lado, que aumentou terrivelmente as minhas dores. “Isso resolvia-se com uma ocitocina”, murmurava a obstetra volta e meia, quando me vinha fazer “o toque”. E quantas vezes me fizeram o toque! Vinha a enfermeira, enfiava os dedos e declarava um número, passado uns minutos entrava outra pessoa, e fazia o mesmo. Digo outra pessoa, porque a verdade é que já não sabia quem era quem. E uma vez, tentando evitar um novo toque ainda disse “Fizeram-me o toque ainda agora — a dilatação era 9”, “Ah é, vamos ver isso”, enfiou-me os dedos de novo e anunciou “8!”. Acabei por ceder, quando a obstetra me deu um prazo para que o bebé nascesse, e aceitei que me rompessem as membranas numa tentativa de acelerar a progressão do trabalho de parto.

Perguntavam-me se já tinha vontade de fazer força… e eu não tinha.  De olhos postos no CTG, informavam-me de que estava a ter uma contracção, mas eu não o sentia. Sentia-o noutras alturas. De vez em quando a obstetra e a enfermeira, afastavam-se e falavam entre si. À sugestão da Sandra que me explicassem as suas intenções, a obstetra respondeu que não falava com ela, e que eu se tivesse dúvidas sabia perguntar. Assim de uma só penada foi para o lixo o principal pedido do meu plano de parto — informação. Já farta, a dada altura respondi que sim, que sentia vontade de fazer força. A obstetra constatou que o Daniel já não estava bem encaixado, e fez uma manobra muito dolorosa com as mãos. Comecei então a fazer força, toda a força que tinha, mas sentia que era infrutífera, não era natural. Então, cedi também à ocitocina. Todos lançavam instruções acerca de como deveria fazer. “Com genica, com genica!”, “Não é assim!”, “Queixo no peito!”, “Fazer cocó, fazer cocó!”, “Força contínua, força contínua, não pares para respirar!”, “Respira!”, “Segura esta barra! Puxa os joelhos!”. Acho que nunca tinha ouvido tantas vezes a palavra “genica” na minha vida. E quando a enfermeira atirou “Não é assim! Não fizeste curso de preparação para o parto?”, só não respondi que ela é que parecia não tê-lo feito porque era ela quem tinha (dentro de alguns minutos, literalmente) a faca e a vagina na mão! “Ela não tem contractilidade nenhuma, não faz força nenhuma.” Entretanto, a enfermeira pressionava com os dedos na minha vagina, de modo a estimular a minha vontade de fazer a força. E, com os dedos, passava a ferro a abertura, alargando-a. Torturava-me! Mas, enquanto fazia isso, concentrava-se no que eu queria, um parto vaginal, sem instrumentos. Não queria que o João percebesse o que me estavam a fazer, por isso pedi-lhe que viesse para trás de mim, e pressionasse certos pontos nos meus ombros pois, conforme nos tinham ensinado, poderia ajudar.

Tinha o soro no braço, onde caía a ocitocina. Tinha as pernas no ar, suportadas desconfortavelmente por baixo dos joelhos. Iam-me deitando cada vez mais, posição que mais detestava. E por fim cobriram-me as pernas com uma capa verde. Aí começou o meu pânico. Que é isto?! Para quê? Estava verdadeiramente encurralada, amarrada àquele equipamento, toda exposta. Frágil, em dor. Tentei ignorar tudo, e pensar só no Daniel, em como eu queria que nascesse da melhor maneira possível, naturalmente. Puseram-me a máscara de oxigénio, que era abafada e tapava-me os olhos. Desesperada com o calor e o cansaço, arranquei a bata. Queria que tudo acabasse rapidamente, com medo do que poderiam fazer-nos. Fiz força a acompanhar as ondas de contracções. Ouvi “Vai lacerar!” e uma tensa troca de palavras entre a obstetra ameaçadora e a enfermeira reticente. Movimentações. Gritei das minhas entranhas “Não!”. Ficou o silêncio. Fizeram-na. Cortaram-me. Só me restava fazer força. Já não compreendia a dor. Já não sabia o que restaria de mim. Não percebia se estava perto ou longe. A dada altura, nasceu! Ouvi muitas vozes dizer “Parabéns.”. E, conforme sabia eu bem, “É um bebé forte.”.

O meu filho! Um corpinho quente, escorregadio. A pele dele, única. Peguei toscamente nele, trouxe-o para perto do meu peito. Carinha vermelhusca, espantado por ter nascido, chorou “Mééé!”! Enquanto os outros tagarelavam acerca do corte do cordão que já não nos unia, eu pedia para me ajudarem a dar-lhe de mamar, pois estava fraca e numa posição difícil. Trouxe finalmente a sua boca à minha mama, resguardando-o da luz conforme podia. Eu e ele, numa bolha só nossa, ignorando tudo o resto. Tive-o comigo, um pouquinho, e depois levaram-no. Pedi ao João que o acompanhasse, mas não o autorizaram. Senti-me quase aliviada por não o ter comigo durante aquele tempo em que me deram os pontos para tratar da episiotomia e das duas lacerações com que fiquei. É que foi extremamente doloroso, e eu não queria transmitir-lhe o sofrimento por que estava a passar. Carregaram na minha barriga. Tinha cãibras nas pernas. Sentia sangue a escorrer. Quase que como consolação, mostraram-me a placenta, à qual levantei um sobrolho de curiosidade, mas não consegui prestar as merecidas atenções.

Por fim tinha-o de novo comigo. Passaram-nos para uma outra cama, e levaram-nos a ver os meus pais. Tinha muita fome, e a minha mãe, sempre preparada para tudo, arranjou-me um iogurte. Depois deixaram-nos a sós no corredor. Apesar do pequeno-almoço ser só às 7h, convenci alguém a trazer-mo mais cedo. Trouxeram um tabuleiro com uma espécie de pequeno-almoço, que eu comeria rapidamente se tivesse forças para tal, mas eu mal chegava ao tabuleiro. Uma enfermeira impaciente lá mo aproximou e eu comi o que consegui daquele pão salgado e do sumo doce. Olhámo-nos longamente nos olhos. Que bebé tão lindo!

Os dias e noites na enfermaria foram longos, tão longos. Sabia que deveria dormir, para recuperar das noites do trabalho de parto e preparar-me para as noites mal dormidas das semanas, meses que se seguiriam. Mas como, dormir? Queria olha-lo, analisa-lo, conhece-lo! Queria toca-lo, nutri-lo, aquece-lo.

Eu estava muito fraca e não podia sequer sentar-me porque perderia os sentidos. Eu era “a da hemorragia”, e então deram-me ferro pela mesma veia em que recebera a ocitocina. Rapidamente comecei a sentir-me mais forte, passado umas horas já me conseguia levantar. Mas sentar-me era muito doloroso, porque estava toda em ferida. E outros bebés choravam, e outras mães queixavam-se. Enfermeiras visitavam-nos e tratavam de mim, verificavam se estávamos bem; perguntavam quando o bebé tinha mamado, se tinha feito cocó.  E de vez em quando chegava a hora das visitas. Vinha o João, vinham os meus pais. As refeições do hospital eram fracas, então o João trazia-me da nossa comida, tudo fresco, biológico, delicioso: iogurte, fruta, pão, chocolate… mmm!

Por fim chegou o dia de ir para casa. O meu pai filmou tudo, como tinha de ser. Mas eu não me sentia nenhuma estrela. Queria recolher-me, tratar de mim. Foi um nascimento duro, e sinto alguma tristeza em pensar que o Daniel terá absorvido ainda que uma gota da infelicidade que passou por mim enquanto lidava com toda esta dureza. Valeu tudo a pena, e voltaria a enfrentar tudo as vezes que fosse preciso para ter comigo o Daniel. Mas a verdade é que o meu sofrimento não terminou com o parto, e estou bem consciente de que muito do que passei não era necessário. Desejo agora um novo parto, desta vez em sintonia comigo, com o meu bebé, e com a naturalidade do nascimento.  Agora sei bem a importância de estar num ambiente em que, acima de tudo, nos respeitam.

piscina de parto, em casa.

Este parto foi preparado conscientemente, com acompanhamento de profissionais, uma doula e uma enfermeira parteira, ao longo de toda a gravidez e nunca foi posta de parte a hipótese do trabalho de parto ter inicio em casa e poder terminar no hospital, contudo eu sempre me mentalizei de que seria capaz de dar á luz este filho o mais naturalmente possível dentro das minhas possibilidades físicas.

No dia 30 de Setembro acordei com algumas moinhas e contracções leves e irregulares, nada de novo, pois nesta gravidez desde muito cedo que tive contracções e dores no baixo-ventre. O dia decorreu sem alterações, saí à rua de tarde, fui às compras com a minha filha mais velha, fomos ao parque, fizemos biscoitos ao final da tarde e por volta das 19 horas tomei consciência de que as contracções não estavam assim tão irregulares como nos dias anteriores, mas continuei a fazer a minha vida normal, fui-me mantendo ocupada.

Deitei-me por volta da meia-noite, mas não conseguia dormir, não encontrava uma posição confortável, comecei então a controlar as contracções, com intervalos de 7/8 no máximo 10 minutos mas pouco intensas e assim continuaram durante toda a noite. Por volta das 4 da manhã enviei sms à Sandra, a minha doula, a informar a situação, liguei de seguida após resposta dela, confirmamos que estava realmente em trabalho de parto, ainda que no início. Fiquei de dar ponto da situação ao fim de uma hora, entretanto fui organizando a casa para o parto, dispus os materiais necessários, fiz gelatina, pus roupa a lavar, tomei o primeiro pequeno almoço do dia e voltei a ligar-lhe a conferir os intervalos das contracções que se mantinham iguais, mas com um pouco mais de intensidade. Ela pôs-se então a caminho e às 7:30 da manhã estava à minha porta. A minha filha mais velha que dormiu toda a noite, pareceu adivinhar que o dia prometia muita agitação e ainda não eram 8 da manhã já ela estava a pé, antes mesmo do pai sair para o trabalho, após a Sandra o tranquilizar quanto ao bom desenrolar do trabalho de parto, ele ainda fez meio dia de trabalho…

Ás nove da manhã chegava a minha querida enfermeira parteira, pronta a por mãos à obra, mas ainda estava demorado, eu sentia-me lindamente, com o mesmo ritmo de contracções, e a bebé também estava com um óptimo batimento cardíaco, durante toda a manhã falámos, rimos, vimos fotografias, brinquei com a Rita ao lego, comi, passeei por toda a casa, mantive-me sempre em movimento, fui adoptando posições que me facilitavam a suportar as contracções, usei um pouco a bola de parto, mas não me identifiquei com ela, não encontrei nela uma posição que me permitisse relaxar, sentia-me melhor na vertical, de joelhos, de gatas ou mesmo de cócoras durante as contracções e o balançar das ancas também me aliviava bastante. As massagens ainda que leves dadas pela minha filha Rita no fundo das costas faziam-se sentir também muito bem, mais psicológica do que fisicamente, via que ela estava a interagir com um grande à vontade e isso deixou-me tranquila e relaxada, não precisei preocupar-me com a minha pequena grande menina.

Por volta da hora de almoço, as contracções já estavam mais seguidas e mais intensas e exigiam de mim alguma concentração, então questionei-me da evolução do trabalho de parto e sugeri que me fosse feito um toque, pois não tinha noção através das contracções se estaria a evoluir rápida ou lentamente (consequência do 1.º parto induzido, em que a intensidade das contracções era muita, mas a dilatação não progredia da mesma forma), então muito delicadamente a enfermeira fez-me o único toque de toda esta gravidez e ficaram ambas muito satisfeitas, a dilatação estava a progredir muito bem, não percebi na altura que dilatação tinha, soube depois do parto que já tinha 5 dedos de dilatação, senti-me confiante para continuar, as dores eram suportáveis, tudo corria bem. Ainda vagueei mais um pouco pela casa quando a Sandra me sugeriu tomar um duche quente para relaxar e ajudar nas contracções. Assim fiz, entrei na banheira e com o chuveiro fui molhando as costas, a barriga e o resto do corpo, e o que isso me soube bem, ainda me soube melhor quando a enfermeira me segurou no chuveiro e me molhava durante as contracções, era bastante relaxante e eu podia concentrar-me na dor e sentir o meu corpo a trabalhar mas relaxadamente, sem inibições ou impedimentos. Estive assim algum tempo, não sei precisar, foram certamente uns largos minutos, suficientes para a Sandra me oferecer a possibilidade de se montar a piscina de parto, na qual eu poderia relaxar mais confortavelmente e encontrar posições mais confortáveis devido ao seu amplo espaço. Nunca tinha ponderado que o nascimento ocorresse dentro de água, era um cenário possível, como qualquer outro, contudo após a montagem da piscina e assim que pude entrar senti-me muito mais confortável, como um peixe na água, adoptei a posição debruçada no bordo da piscina, umas vezes de cócoras, outras de joelhos, mas sempre o mais vertical possível.

Foi assim que o Paulo me veio encontrar quando a Sandra o chamou eram umas duas e tal da tarde, soube-me muito bem ver o meu homem, deu-me a confiança e tranquilidade para continuar o meu trabalho de parto que estava já bastante avançado, pois nessa fase eu já gemia durante cada contracção, um gemido profundo e uma respiração bastante ofegante, deixei de controlar a vontade de exteriorizar através do som a dor que sentia, uma dor intensa, mas ao mesmo tempo uma dor de prazer, deixei que a dor me guiasse, descansava o que podia entre cada contracção e agarrava-me com força ás mãos ora do Paulo, ora da Sandra, ora da enfermeira durante a contracção e gemia intensamente…

Faltava no entanto a presença de uma pessoa para que eu pudesse dar á luz a minha filha, a minha irmã, a minha querida irmã, que eu sabia que estava sofrer em silêncio mais do que eu, mas que respeitou o meu espaço e foi apenas sabendo da evolução do trabalho de parto pelos sms da Sandra, a minha irmã que há dois anos atrás estava na mesma situação, mas com um desfecho diferente, num ambiente hospitalar… Chamei-a, durante as contracções falei para ela, inspirei-me nela, agarrei-me à sua força para suportar as dores finais do parto. Então a Sandra perguntou se queria que ela a chama-se, sim, sim fazia sentido, ela precisava de estar presente, eu precisava dela presente para me dar força nos momentos finais, e ela veio…

Estavam reunidas todas as condições para a Luísa vir ao mundo, então rebentou a bolsa, num “ploc” vi o liquido amniótico inundar a água da piscina e sorri, sorri bastante, como uma criança com um doce nas mãos, estava quase, mais umas contracções e senti a cabeça da minha filha, toquei na cabeça dela, consegui ter a percepção do caminho que lhe faltava percorrer dentro do meu corpo para nascer, mais umas contracções e a enorme vontade de fazer força e a cabeça dela cada vez mais próxima. Estava a arder, senti um ardor enorme e senti a minha filha a coroar nos meus lábios vaginais, está aqui, ela está aqui, que prazer enorme, calma ouvia eu dizer, com calma para não rasgar o períneo, espera pela próxima contracção, e assim fiz, inspirei e voltei a fazer força na contracção seguinte e na outra e noutra, e o ardor, sentia-me a queimar e gritei, gritei de dor, de prazer e a cabeça da Luísa apareceu, respirei fundo, mais uma forcinha e nasce, e assim foi, uma longa contracção e nasceu a Luísa, às quatro horas e três minutos, a chorar freneticamente, a enfermeira segurou nela enquanto eu recuperei o fôlego e me virei para agarrara minha filha, a minha filha perfeita, linda, coberta por uma camada de gordura branca!!!

Aconcheguei-a no meu peito e ela olhou para mim como que a confirmar a minha presença e agarrou-se a minha mama a chuchar intensamente e eu chorei, chorei, tinha conseguido, não acreditava, estava com a minha filha nos braços, na minha casa, sem recurso a instrumentalizações, sem recurso a fármacos, sem imposições, sem procedimentos rotineiros e desnecessários, sem caras estranhas, enfadonhas e cheias de pressa, só eu, a minha família e as pessoas que eu escolhi para me acompanharem!!!!!

A Rita que acompanhou todo o trabalho de parto ao meu lado, que viu a mana nascer, chorava agora, chorava de emoção do alto dos seus 4 anos…

Fiquei ainda dentro da piscina algum tempo para que a placenta nascesse também, o que demorou um pouco e só depois de sair da piscina e com a ajuda da enfermeira, saiu uma placenta inteira, perfeita e um cordão que a minha irmã teve a honra de cortar após ter terminado de pulsar.

Eu, eu fiquei óptima, sem rasgões, com um períneo intacto, com uma fome de leão e uma disposição fantástica, sem dores dignas de registo, num estado zen que demorou a passar e com uma vontade enorme de repetir a experiência, senti-me a mulher mais forte do mundo, capaz de ultrapassar qualquer obstáculo. Na manhã seguinte já estava levantada a fazer o meu pequeno-almoço, a arrumar a loiça na cozinha, fresca e com uma vontade enorme de abrir a janela e gritar ao mundo: Eu consegui!!!!!

Tenho que deixar aqui um agradecimento especial ao meu marido que acreditou em mim e na minha força, apesar de não se sentir a vontade, deu-me o seu voto de confiança e deixou que eu lhe mostra-se que era possível, que eu era capaz, obrigado meu amor, foi por isto e tudo o resto que és o homem da minha vida. Amo-te.

Á minha filha Rita, que quando souber ler vai perceber nestas palavras o quanto foi importante para mim tê-la ao meu lado, o quão importantes foram as suas massagens e a sua maturidade, apesar da sua tenra idade. Obrigado minha filha, és o amor da mãe. Amo-te muito, minha princesa!

Á minha irmã que me deu uma força extraordinária, nunca percebi pelo que passáste para dares á luz o teu filho até ter passado por este parto, foste a minha fonte de inspiração, mostraste-me sempre que eu era capaz, que nada era assim tão doloroso, que se tu conseguis-te fazer a parte mais difícil eu também o conseguia! Obrigado mana. Amo-te.

Á minha querida mãe, que sempre me apoiou na minha vontade, e respeitou a minha decisão, apesar de lá no fundo ter receios, nunca deixou transparecer uma palavra. Foste tu quem me gerou assim, quem fez de mim a mulher que sou hoje, quem deixou em mim marcas que me fizeram tomar as opções de vida que tenho tomado e das quais não me arrependo. Amo-te minha mãe.

A ti Sandra, a doula que eu não conhecia, mas que desde sempre foi a doula que eu escolhi para me acompanhar, uma mulher cheia de vida, com muito para ensinar, mas com uma humildade impressionante e uma entrega enorme, uma força da natureza, que não se sente mas está lá na altura certa, um fogo que arde sem se ver!!! Obrigado, estou eternamente agradecida por te cruzares no meu caminho, e não te quero perder o trilho nunca mais, estarás sempre presente na minha vida!

E a ti minha enfermeira parteira, a ti que com a tua simplicidade, serenidade e espontaneidade me conduziste num dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma mulher pura que me tranquilizou durante toda a gravidez e respeitou todos os meus pedidos durante o parto, sem nunca se fazer notar, sempre a acompanhar todos os momentos do trabalho de parto. Obrigado, nunca deixes de fazer o que mais gostas mesmo que tenhas que lutar contra ventos e marés!

A todas as poucas pessoas que respeitaram a nossa opção e que me apoiaram, o meu muito obrigado, a todas as pessoas que lutam diariamente pela humanização e pelo respeito e dignificação do parto e da mulher em Portugal nunca desistam!!!

Poderia ir direita ao relato de parto mas não consigo, há tanta coisa para trás que faz sentido partilhar…a ver se consigo restringir-me ao que sinto mais relevante.

Tenho que antes de tudo começar por explicar quem comigo fez esta viagem:

O Miguel, Pai dos meus filhos – a maturidade que atingimos e o contexto emocional em que eu me encontrava, colocou de lado, alguns momentos que na gravidez da Rita o Miguel tinha estado presente (talvez porque era socialmente correcto), como nas ecos e consultas. Na Gravidez e Parto do Tiago o Miguel foi atencioso, carinhoso e protector. Focou-se acima de tudo em lembrar-me do que sou capaz e não permitir que os medos me tirassem os conhecimentos e racionalidade.

A minha Rita – foi a minha alma sábia. Dos seus tenros 8 anos eram de onde vinham as palavras mais nuas e genuínas, repletas de razão. Preparou-se para este parto, sem em momento algum duvidar do que era melhor para nós, e consciente de TUDO. E quando digo tudo, quero mesmo dizer de TUDO, de todas as possibilidades, da mais positiva à mais negativa. Assistir ao Nascimento do irmão, como ela própria diz “foi o melhor dia de sempre”.

No coração, tive sempre comigo um bebé (Anjo) que teve uma passagem muito breve pelos braços da sua mãe, e que esteve sempre no meu pensamento e coração. Ele e os seus pais, trouxeram-me uma consciência diferente a nível pessoal e profissional.

Luisa, a minha Doula – que esteve sempre ao meu lado, desde o primeiro minuto de tristeza e que tão bem foi percebendo a dificuldade em fugir dela durante esta gravidez, e que no momento do Parto, viveu a angústia de não poder estar comigo. Mas esteve, à distância, mas esteve.

Sílvia, a Mulher que me chamava à razão, lendo-me os pensamentos e emoções – a Sílvia, passou de uma mãe que acompanhei, a uma amiga para a vida. Eu vi o seu segundo filho nascer e ela viu o meu segundo filho nascer, e estes momentos uniram-nos para o resto dos nossos dias, de corpo e alma. O apoio que me deu durante toda a gravidez, a relação que fomos criando, a força que a ilumina, foi sendo óbvio para mim que seria uma presença no meu parto.

A minha Parteira – enfermeira-obstetra de formação, e a quem jamais conseguirei transmitir o quanto estou grata pelos bons momentos de “dar à luz” que temos vivido. O meu é só mais um, de muitos, espero! É uma Mulher de uma beleza interior que conquistou-me desde o primeiro parto em que estivemos juntas – no início de Agosto de 2008. Nesse dia percebi que tinha Parteira para o meu próximo parto! E tive mesmo! Assumi que a gravidez seria vigiada por ela, e com uma responsabilidade partilhada.

A Cornelia Enning, parteira alemã, que sempre nos apoiou com os seus sábios conhecimentos e conselhos.

Engravidei num dos momentos mais tristes da minha vida, senão mesmo o mais triste, mas curiosamente o momento da concepção foi um momento de carinho e ternura que jamais esquecerei. Nesse momento pensei para mim, se tiver que engravidar, vai ser agora! E foi mesmo! O dia da concepção será impossível de esquecer, pois foi seguido a um encontro libertador.

Comecei a sentir que estava grávida no dia 24 de Setembro. A caminho de um curso que estávamos a organizar, com a Verena Schmid. Dei comigo a chorar descontroladamente, a pensar no quanto aqueles dias poderiam ser difíceis. Sentia-me também eu frágil e de repente dei comigo a falar para alguém dentro de mim. Liguei de imediato à Sílvia, ela sorriu, compreendeu a minha angústia e ao mesmo tempo procurou tranquilizar-me e transmitir calma. E resultou. O choro foi de tal ordem que recordo que só me apetecia era dormir. Comentei com as minhas colegas e com a Verena que achava que estava grávida. Um misto de emoções. Por um lado queríamos estar felizes, por outro a tristeza pela morte do Anjo, parecia não nos dar espaço a viver que tipo de alegria fosse.

Antes de a Verena partir, no dia 28 de Setembro à noite, já na minha casa, lembrou-se que poderia fazer um teste que as parteiras mexicanas faziam para confirmar a gravidez. Fomos para o meu quarto, ela, eu e o Miguel. Deitei-me e a Verena com as suas preciosas mãos no meu ventre, confirmou: Estás grávida sim! O Miguel sentiu o pulsar daquela artéria, que segundo as mexicanas só se sente até às 6 semanas de gravidez. Batia tudo certo. Não resistimos, e porque para nós estava mais do que confirmado, contámos à Rita. Foi a euforia total. Ela sim, conseguiu sentir a alegria que eu tanto desejava e não conseguia.

Ainda antes de engravidar, já estava decidido como iria ser a vigilância, o mais tranquila possível e claro com uma parteira. E eu sabia qual!!

Em Outubro, na conferência da Midwifery Today, a Cornelia ficou a saber que eu estava grávida. Ela sabia do Anjo, e ao saber da minha gravidez chorou comigo, abraçou-me e disse-me: “vai ser muito difícil Sandra, tu sabes disso, vais ter que ultrapassar essa tristeza, pelo teu bebé”. Isso eu sabia, mas como fazê-lo? Como conseguir? Não consegui! Vivi 9 meses de conflito entre o sentir-me feliz pelo bebé que tinha dentro de mim, e a dor da perda de um bebé que não era meu, mas a quem eu queria muito, doía muito. Sentia-me mal por ter dentro de mim um bebé, por estar grávida e ao mesmo tempo assistir ao luto dos pais do Anjo. Os primeiros 3 meses foram meses de lágrimas intensas, perdida com o futuro da gravidez, com as emoções que estava a transmitir ao meu rebento. Estar sozinha era horrível. O Miguel tentou o mais possível compreender-me, sendo carinhoso. Mas tinha dias em que tentava chamar-me à razão, e aí era o desespero total para mim, era fácil de dizer que eu não podia continuar como andava, mas como conseguir? Como? Trabalhar, praticamente não conseguia. Em casa, a minha Rita reclamava a alegria que eu deveria sentir. Com uma lucidez tremenda dizia-me também ela palavras sábias, de uma tamanha simplicidade racional que não me deixava espaço para não admitir que ela tinha razão. Mas mesmo assim, como deixar de sentir a tristeza que sentia? Como deixar de estar horas acordada com as imagens que tinha na memória? Como deixar de pensar no sofrimento dos outros? Como deixar de pensar PORQUÊ? Como eliminar a revolta?

No início de Novembro começou a vigilância da gravidez, análises e tudo o mais. Para me desfocar das emoções, vinham as questões inerentes a uma gravidez aos 36 anos. Pesquisei, pedi opiniões e ia conversando com o Miguel, com a minha Parteira, com a Cornelia (que à distância ia vendo as análise, ecos e tudo o que a minha parteira enviava) e claro, com a Sílvia e com a Luisa.

O médico de família, por norma, compreendia as minhas posições e respeitava. Assim, de uma forma bem tranquila, ecos foram 3, consultas no médico de família foram 4 e com a minha Parteira foram muitas mais.

Durante a gravidez, acompanhei seis casais. Estes acompanhamentos ajudaram-me muito a “encontrar-me” na minha gravidez e opções. Obrigada Maria João, Sofia, Mariana, Ana, Isabel e Beta! Mulheres de muita coragem que com as suas opções e partos, sem se aperceberem, foram uma ajuda preciosa. O primeiro dos dois partos em casa que acompanhei grávida, com a minha Parteira, foi um parto que me fez reviver momentos difíceis, e que ao mesmo tempo trouxe algumas confirmações, que se converteram em confiança para o meu próprio parto.

Estava conversado que a Cornelia viria para o meu parto. Era suposto vir por 2 semanas, mas não foi possível. Na verdade o que me era mesmo importante, era estar com ela comigo ainda grávida. O parto com ela, para mim não era assim tão relevante. Queria muito sentir as mãos dela na minha barriga, sentir todo aquele saber e confiança. Sabia que isso seria importante para o Miguel e para a minha Parteira. A viagem ficou agendada de 24 a 26 de Maio. Havia naturalmente fortes probabilidades de o parto acontecer nesses dias, sendo que a data prevista era dia 29 de Maio…

Só mesmo no final da gravidez é que fui conseguindo focar-me no meu Tiago e em mim. Comecei finalmente a pensar a sério no parto, na minha Rita e nas coisas que tinha para fazer. O Tiago ficou cefálico mais tarde do que eu precisava emocionalmente (mas dentro dos tempos ditos normais!), e isso acabou por também contribuir para que eu não interiorizasse o parto que desejava. Não conseguia…sem que ele estivesse cefálico, fui pensando noutros cenários…nomeadamente na cesariana…também isso foi importante.

No início do mês de Maio foi quando comecei efetivamente a tratar do parto. A gravidez assim o permitia, estava tudo bem, faltava a última eco, que tendo em conta que iria tentar o parto em casa, decidi em conjunto com as minhas Parteiras que iria fazê-la, mas bem tarde. Mas sentia que estava tudo bem.

Comecei o mês com um almoço bem feliz com a minha família. As minhas manas fizeram-me uma barriga de gesso, ouviram o Tiago, conversámos sobre o parto, em suma, falei sobre mim e o meu Tiago. As minhas irmãs fizeram as perguntas que entenderam sobre a questão do parto em casa e perceberam que na minha cabeça todas as opções seriam possíveis, e acho que isso acabou por ajudar na comunicação.

Para a minha Rita e para o Miguel o parto em casa era algo muito natural, mas havia coisas que eu queria conversar com eles e tinha que me ir organizando mentalmente. Uma delas era o plano de transferência para o hospital. Procurei organizar esta eventualidade o melhor possível. Até meados de Maio ficou tudo conversado com o HGO. Falei também com os bombeiros locais, que foram muito receptivos e compreensivos. O Comandante fez questão que eu tivesse o número dele, o que me trouxe muita tranquilidade. Percebi que estava perante pessoas bem sensíveis e profissionais.

Numa situação de emergência, para mim o INEM não era uma hipótese. O único parto em que tinham sido necessários, quem nos atendeu, mostrou não estar preparado para um pedido vindo de um parto em casa.

Havia ainda que estar com as mulheres que iriam estar connosco. Organizei um pequeno-almoço. Finalmente a Sílvia e a minha Parteira conheceram-se. Era importante. Eu sabia que a empatia entre elas iria surgir de imediato, mas queria que estivessem juntas. Queria também estar com a Luisa, sabia que havia fortes probabilidades de ela não poder estar presente no parto e queria muito estar com ela. Foi uma manhã bem agradável! As crianças brincaram! Estava um dia lindo! Mais uma barriga de gesso, duas aliás, feitas pela minha Doula. E não faltou a pintura da barriga para a Rita e o Miguel “brincarem” com o Tiago! A data em que todos achavam que o Tiago iria nascer era 25 de Maio. Acho que apesar de eu dizer que para mim não era importante a Cornelia estar, penso que se calhar na verdade não levavam isso muito a sério…E como no dia 25 de Maio a Cornelia estaria…todos apontavam para essa data…ou então todos gostavam de estar num parto com a Cornélia…

Tendo em conta que estar sozinha fazia-me sentir ainda mais triste, e também porque queria que o Miguel descansasse, pedi-lhe para tirar 2 semanas de férias antes da data prevista de parto.

Não me apetecia tratar sozinha das roupas para o Tiago, nem nada dessas coisas…Chegaram as férias do Miguel. Já não iria estar mais sozinha! Queria muito que o Tiago nascesse de forma a que o Miguel não regressasse ao trabalho…as férias terminavam a 31 de Maio.

Havia que organizar a casa para a vinda da Cornelia. O Miguel ajudou e muito! Foi tão importante que ele tivesse tirado estas férias! Acho que ele nunca percebeu o quanto foi bom para mim e para o Tiago…Com ele em casa, momentos de alegria o Tiago acabou por poder finalmente sentir e eu também.

A minha cabeça já estava mais orientada para o meu Tiago e o seu nascimento. Já tinha os dois planos de parto feitos, um para casa e um para o hospital. Já tinha conversado com o Miguel e com a Rita sobre as minhas preocupações. Estava tudo orientado. A minha Rita continuava a pedir que fosse um parto na água, mas se não fosse na água, importante mesmo era que fosse em casa. Também com ela conversei que nem sempre as coisas correm bem e que às vezes é preciso ir para o hospital. Nessa eventualidade, também ela decidiu com quem é que queria ficar. Era com a minha irmã mais velha – a Tia Elsa. “Os avós não, porque podiam começar a dizer coisas que eu não quero ouvir”. Incrível a maturidade da minha Rita! Sempre a surpreender-me!

Dia 24 de Maio e chega a Cornelia. Finalmente, e felizmente ainda estou grávida!! Tal como eu tanto queria. Foram dias intensos, muito informais e sempre a receber informação. Com a Cornelia é sempre a aprender! Que mulher!! A minha Parteira e a Cornelia conhecem-se finalmente!! Entendem-se muito bem! Que tranquilidade! A minha Parteira estava muito feliz com o que estava a poder viver, e eu feliz por a ter comigo tantas horas!! Juntas aprendemos mais umas boas coisas.

As mãos da Cornelia na minha barriga foi um dos momentos mais felizes da minha gravidez. Confirma que está tudo bem, que o Tiago não seria igual ao Pai (o Miguel nasceu com 5kg!), e que me preparasse porque a bolsa iria romper antes do Tiago nascer… A Cornelia sabia que me fascinava ver os bebés nascerem na bolsa…Também a Cornelia, tal como eu, achava que o Tiago seria um bebé de Junho…enganámo-nos!

Dia 26 a Cornelia regressa a Alemanha. Foram poucos dias, mas ricos de conhecimento, tranquilidade, felicidade e muita confiança! Antes de se ir embora disse-me: Tinhas razão, vou tranquila, estás em boas mãos! Gostei muito da tua Parteira!

Dia 27, a Ritinha ainda tem aulas, um dia normal. Mais uma vez, começar o dia a fazer amor fez parte do processo. À noite, ao sentar-me no sofá com as pernas “à chinês”, sinto que esforcei-me demais…sai líquido…pouco…mas pensei: Já está! Rompi a bolsa ou será que não?!

Fiquei na dúvida. Vou à casa de banho para cheirar e confirma-se: Rotura da bolsa! Mas para já pouco líquido, pode ser que seja uma rotura alta…

Subo e vou para o computador. Quando me levanto, rotura total! Riu-me descontroladamente…que sensação tão estranha…líquido a correr pelas pernas, sem qualquer possibilidade de controlar…e o cheiro…que sensação tão estranha…Nesse mesmo momento liga-me uma das mamãs que tinha acompanhado em Janeiro, a Ana, mas ria-me de tal maneira que não conseguia falar com ela. O Miguel ajudou-me a limpar a “poça”, trouxe-me uma toalha para poder descer, sem que fosse a molhar a casa toda.

Ligo à minha Parteira a informar o que estava a acontecer. De seguida ligo à Luisa e à Silvia. Tudo tranquilo. Sentia algumas contracções, mas nada a registar. No entanto, fiquei convencida de que durante a noite a coisa iria avançar…A Rita já dormia, enquanto eu e o Miguel preparávamos o quarto. Estava tudo pronto, era só colocar nos sítios. A Parteira da minha vida chega, com as “fraldas” que lhe pedi, pois não havia penso que aguentasse, conversamos, rimo-nos a imaginar a reacção da Rita no dia a seguir ao vê-lá em casa…

Queria fazer um bolo de iogurte e o chá da Naolí, para as minhas acompanhantes, mas decidi que íamos todos descansar. Noite tranquila.

Amanhece, levanto-me para preparar o pequeno-almoço. Um pouco triste por nada ter acontecido, mas ao mesmo tempo contente. Pois era dia 28, número que me trazia tristeza, queria que o meu Tiago não nascesse nesse dia.

A Rita acorda e curiosamente acha normalíssima a presença da Parteira. Fazemos-lhe perguntas, mas ela nada! Farta de tantas perguntas responde: Ela já faz parte da família!

A minha Rita sabe mesmo como agradar! A Parteira explica-lhe o que estava a acontecer com o meu mini modelo didáctico. Riam-se até mais não…

Deixámos a Rita na escola e vamos para a praia. Isto sim, já estava nos meus planos, passear na praia. Estava um dia fantástico. Eu e o Miguel vamos a andar e a Parteira aproveita e faz o seu exercício matinal!

Estava farta da cueca-fralda, e apetece-me ir ao mar. Assim fiz! Que alivio! Finalmente sem fralda! Neste dia decidi que o meu rapaz sempre que fosse possível iria andar sem fralda! Que incómodo! Que calor!!

Andei com água até ao peito! Soube-me tão bem! Fria, à boa moda de Sesimbra, mas soube-me lindamente!

Antes de sairmos da praia falámos com a Cornelia, queríamos saber se podíamos recorrer aos homeopáticos que ela deixou. Parteiras conversam! A Cornelia achava que seria durante aquela noite, mais tardar às 3 da manhã o Tiago já teria nascido! Foi um voto de confiança, mas desta vez não acertou…

Apeteceu-me uma sopa do mar! Era o Festival das Sopas do Mar. Lá fomos almoçar. Sopa do Mar só de sexta a domingo…Ok, um creme de gambas também serve, mais um arroz de marisco. Comemos bem. Soube-me bem! Faltava um gelado! Fomos ao gelado.

Chegámos a casa, o Miguel deitou-se a fazer a sesta. Eu e a minha Parteira não resistimos ao momento a sós, e numa das vigilâncias agarrámo-nos a chorar. Felizes pelo que estávamos a viver, e ao mesmo tempo nostálgicas porque sabíamos que era um dia difícil de não pensar no Anjo e nos seus pais…à tarde liga-me a mãe do Anjo. Decidi não dizer-lhe que estava com rotura da bolsa. Não queria que a conversa se focasse em mim, até porque não havia muito para dizer…conversámos, ela estava triste, claro.

Entretanto a minha Parteira ia cumprir com alguns dos seus compromissos. Dispensei-a! Assumi que queria ficar eu e o Miguel a fazer a vigilância do Tiago e ela voltava à noite. Vigilância essa que fomos fazendo com regularidade. Eu tinha uma reunião importante ao final da tarde do Conselho Geral do Agrupamento da Escola da Rita. Não estava a contar ir, mas dado o contexto e a importância da reunião, lá fui. O Miguel e a minha Parteira concordaram.

Era uma hora triste. 18hrs. Choro, choro muito quando estou a ir para a reunião. Mais uma vez a Sílvia apesar de à distância, lê-me os pensamentos e começa a trocar sms. Ela sabia sempre quando eu não estava bem. Incrível! Os meus colegas da reunião perceberam que algo estava a acontecer, ficaram baralhados, mas foram muito atenciosos.

Entretanto tinha iniciado os homeopáticos de hora em hora. Que seca!! Havia contracções. Até regulares, mas nada de mais. Mantive-me na reunião, que terminou numa tremenda desilusão…mas enfim…politiquices…não interessa…

A minha Parteira já estava de regresso. Penso que já eram praticamente 11 hrs da noite. Conversámos, ouviu o Tiago, tirou febre e tensão arterial. Definimos o plano de acordo com o que tínhamos conversado com a Cornelia. Homeopáticos durante a noite de 2 em 2 hrs e pelo amanhecer o primeiro toque vaginal com mais umas coisas naturais… Apesar de querer muito evitar este toque, a verdade é que me trouxe algum ânimo e acima de tudo segurança, tendo em conta que com ele soube um pouco mais do “estado da nação”. Assim foi a noite, mas contracções muito poucas, e eu sempre muito angustiada com tudo isto…métodos naturais ou não, não queria apressar o Tiago de maneira alguma, e estava a fazê-lo, mas também sabia que o relógio estava a contar! De manhã, pensei, pensei, já lá vão 36 horas de rotura da bolsa, e nada de trabalho de parto…por um lado não queria apressar o rapaz, mas por outro o relógio não parava e com ele a angústia a aumentar.

Conversei com a minha Parteira, partilhei com ela que queria parar com tudo aquilo, que não era assim que queria continuar. Queria que o Tiago nascesse quando entendesse, e que não queria stressar…Ela apoio-me, concordou, e decidimos ir fazer um PCR para ficarmos mais tranquilas e seguras relativamente ao risco de infecção. Claro que paralelamente a isto fui tendo todos os cuidados de prevenção (passei a comer alimentos e suplementos alimentares recomendados para estas situações, e claro, os cuidados de higiene nunca foram descorados!). Falei com a Cornelia. Também ela me apoiou.

A minha Parteira foi novamente aos seus compromissos e eu assumi fazer a minha auto-vigilância. Ficámos todos bem tranquilos com a decisão. Ao final do tarde o resultado da análise. Para os indicadores portugueses a coisa estava no limiar…mas falamos com a Cornelia e ela mais uma vez diz-nos que estamos a dramatizar…a minha Parteira também faz umas pesquisas e procura informações com uma amiga médica e batia tudo certo. Podemos ficar tranquilas que os valores estão bons.

Dia 29 de Maio. Pouco antes das 48 horas de rotura de bolsa, estava eu a arrumar a cozinha e começam umas contracções. Eram 20.45hrs. Percebi de imediato que agora sim, ia começar. Começaram bem regulares nos intervalos e generosas na intensidade. Mas eram muito curiosas. A dor era na vagina, e só depois irradiava para a barriga, e com elas uma sensação de cansaço tremendo nas pernas. Mas nada destas sensações eram novidade. A Natureza é mesmo muito sábia. Durante a gravidez fui recebendo sinais que agora batiam certo. Sempre que tinha relações sexuais sentia esta sensação nas pernas, que só passava com uma bela massagem que o maridão fazia. E a dor na vagina, também durante a gravidez surgia de vez em quando e recordo-me de comentar com o Miguel, que era engraçado que a Natureza até nos ajudava com todo o tipo de dor que iríamos sentir, até mesmo as do fim…achava eu. Sim, porque por norma na vagina só dói no fim, isto normalmente. Mas enganei-me. Talvez por causa da rotura da bolsa, eu estava a sentir tudo isto logo no início. Por volta das 22hrs avisei a minha Parteira, liguei à Luisa, que muito triste me disse que não poderia vir, mas que “estaria” comigo de qualquer forma (E esteve!) e liguei à minha Sílvia. Disse-lhes que estava bem, que não valia a pena virem logo. A Sílvia, decidida como é, achou que eu estava muito ofegante e por iniciativa própria veio andando. Fez muito bem! A presença dela jamais me perturbaria!

Em minha casa estava a minha vizinha Lena, e entretanto chega a sua filha, a Carmen. Já tinha que parar durante as contracções e agachar-me, mas desta vez nada me demovia de fazer o Bolo de Iogurte e o Chá da Naolí! O Miguel entreteve-se a registar as contracções. Faz parte! É da praxe masculina! Estava tudo pronto quando a Sílvia chegou. As minhas vizinhas foram embora.

Decidi ir até à piscina molhar as pernas. Estava uma noite maravilhosa. A Sílvia já não me largou. Rimos, não me recordo com o quê. Boa disposição abundava! A dor nas pernas só passaria com a massagem do maridão. Chegou a minha Parteira! Yes!! Estávamos todos!!

O marido entrou ao serviço! Fomos para a sala. Entretanto a Rita que andou animada com todo o ambiente, decidiu ir dormir. E através da minha Rita, tive as poucas referências de horas durante todo o processo. Foi dormir por volta da 1h e dizia que ia acordar às 2h! O Miguel levou para a sala uma cadeira de baloiço que os pais de uma mamã de Janeiro – a Ana – me tinham oferecido. Que grata estou por esta prenda! Foi tão útil esta cadeira!!

Comecei a sentir frio. A Sílvia depressa ajudou com uma mantinha e o saquinho de caroços de cereja que a minha Parteira me tinha oferecido. Soube tão bem todo este quentinho!

A Parteira chamou-me à atenção se precisava mesmo de estar assim tão tapada e aquecida…disse-lhe que sim, que me estava a saber lindamente. Enquanto ia sendo massajada, já não me lembro a que propósito, conversámos e rimos sobre algumas das minhas aventuras escolares. O ambiente era perfeito! Divertido e intimo! Depois da massagem do Miguel o desconforto nas pernas passou. As contracções eram bem regulares, na intensidade e intervalos. Dormi entre elas e recordo-me de beber muita água. O Miguel começou a questionar se não era melhor ir preparando a piscina para o caso de eu a querer utilizar…Eu sempre tinha dito que não sabia se queria utilizar a piscina, e na minha cabeça de Doula, se quisesse, eu sabia que era tão rápido preparar que não queria que fosse preparada com muita antecedência, porque aí, também a minha cabeça de Doula, sabia que a probabilidade de a utilizar seria bem maior, quer quisesse, quer não…enfim…mas o maridão não se calava com o assunto, e depois percebi…ok, ele precisa de se ocupar…Dei-lhe luz verde para que o fizesse.

Depois de uma boa leva de contracções e um dormitar perfeito entre elas, veio de repente uma vontade tremenda de vomitar. Vomitei apenas água. Foi-se a água e veio um pico de adrenalina que não consegui perceber…acho que nem eu, nem ninguém! Uma espertina, uma vontade de falar, de arrebitar, que me baralhou totalmente. Pensei para mim: Mas que fase é esta? Aonde estou eu no processo?

A seguir a esta fase, recordo-me apenas de um iniciar de preocupações…enquanto a Parteira ia vigiando os batimentos do Tiago, reparei que os valores eram mais altos do que era costume…a minha temperatura corporal também…não havia febre, nem os batimentos assim tão alarmantes…mas interpretei isto como um sinal de alerta e o risco de infecção veio-me automaticamente à cabeça. Entre mim e a minha Parteira os olhares eram de sintonia e com alguma preocupação, mas por outro lado, eu sentia-me bem! Algo menos certo estava a acontecer…Decidi, ok, vou para a piscina mas com a água bem abaixo do que seria normal. Sim, porque para mim banho de imersão é com água a escaldar. Já tinha alertado todos para esta questão, e que teriam que pôr-me na ordem com os calores, porque para mim é tudo bem quentinho…

O Miguel preparou tudo. Fui para o quarto, vesti o bikini. Ao despir as cuecas descartáveis, um calafrio no estômago. O líquido parecia estar um pouco diferente! Mau, pensei! Seria este o sinal? Mas depressa a Parteira procurou mais luz. Foi à cozinha com a Sílvia, e quando regressaram tranquilizaram-me: Está igual! Está tudo bem com o líquido! Mas os batimentos do Tiago continuavam mais altos do que o que nós gostaríamos. Entrei na água, estava “fresquinha”, abaixo dos valores mínimos supostos. Na cabeça tinha as aprendizagens de algumas coisas que tinha conversado com a Cornelia relativamente ao bebé e à temperatura da água a seguir ao parto. Achei por bem aplicá-las no parto. Pensei que os batimentos do Tiago poderiam estar a subir, por eu estar tão aquecida…Recordo-me que tive muito pouco tempo na piscina, a entrada não foi de todo agradável…a água estava “fria”…mas tinha que ser…A vigilância dos batimentos sempre cada vez mais cerrada, e os valores mantinham-se…Os olhares de preocupação entre mim e a minha Parteira agudizavam-se. Sabíamos o que ia na mente uma da outra…a hipótese de ir para o hospital…mas por outro lado, eu sentia-me bem…algo não batia certo…Fiquei com a cabeça a mil…procurava soluções…tentava interpretar os sinais…A Sílvia cada vez que trocava olhares comigo transmitia-me apenas o que eu precisava, nem mais nem menos: Confiança! O Miguel, esse esteve sempre “ao meu lado”. O meu marido conhece-me muito bem.

Decidi sair da piscina de parto e ir para a banheira do meu quarto. Queria dar com água mesmo fria na barriga! Saí da piscina (permaneci lá muito pouco tempo…) e assim fiz. Tomei duche de água praticamente fria, e na barriga dava com o chuveiro com água totalmente fria…A minha Parteira sempre a vigiar os batimentos do Tiago, e finalmente um sinal positivo: desceram suavemente! Pensei: ok é isso! Estou muito quente, apesar de não ter febre e de me sentir bem…mas para ele estou quente! Na minha cabeça a última das hipóteses: vou para a piscina da rua, se com isto os batimentos dele não forem aos valores que queremos, vou para o hospital. Disse à Parteira que queria ir para a piscina da rua. Ela sem palavras, percebeu perfeitamente que seria a nossa última tentativa de regularizar a situação em casa, e concordou. Assim fiz!

Eram 3 hrs da manhã. Na rua estava frio. Perguntaram-me se tinha a certeza. Claro que tinha! Tinha que tentar tudo o que estava ao meu alcance. Pedi para avisarem a Enfª Chefe do Bloco de Partos, tal como tinha sido conversado. Entrei na piscina! Que frio! Mas tinha que ser! Mergulhei! Queria arrefecer-me por inteiro! Nadei! Nadei cheia de frio, mas quente de tanta preocupação…determinada, mas ao mesmo tempo insegura se estava a proceder bem, passados alguns minutos decidi que queria ligar à Cornelia. Pedi à Parteira para falar com ela. Pela primeira vez ouvi o que os nossos olhares andavam a transmitir: A Sandra está quase com febre e os batimentos do Tiago também estão a subir! Isto foi o que eu registei…Percebi que do outro lado o feedback tinha sido naturalmente negativo. Quis eu falar com a Cornelia. Tinha que transmitir-lhe o que eu sentia! E eu fisicamente sentia-me bem, não me sentia de acordo com os “números”. Expliquei-lhe que tinha ido para a piscina da rua em busca de água fria, mas que me permitisse, imergir todo o corpo, e ela confirmou que tinha sido a decisão certa e que se ao fim de 20 minutos os batimentos do Tiago não baixassem, aí teríamos que ir…ir para o hospital, claro… O Miguel em casa, foi abrir as janelas. Percebeu e verbalizou que a casa estava quentíssima. Apagou as velas, que eu tanto tinha pedido, mas que agora não podia ser. Qualquer fonte de calor seria para eliminar! E o meu maridão percebeu isso! Ok, se este é o caminho vamos a isto…continuei na piscina, as contracções doíam, finalmente comecei a senti-las muito fortes, o frio não ajudava…falei com o Tiago, pedi-lhe por tudo que me desse a confirmação que ele estava bem! Pedi-lhe muito! Estava a viver uma angústia tremenda…sabia bem o quanto custa planear um parto em casa e terminar no hospital…mas estava bem consciente que se tivesse que ser, seria, e seria o Tiago que daria as ordens. Sim, o Tiago, porque eu sentia-me bem. Finalmente o alívio! A vigilância dos batimentos confirmava que estávamos no caminho certo…baixaram… até que chegaram aos valores desejados! Yes! O olhar da minha Parteira confirmava tudo. A Sílvia e o Miguel com os seus olhos, silêncio e presença transmitiam-me muita confiança. Em momento algum senti medo nos seus olhares, senti que confiavam em mim, e estavam comigo nas minhas decisões! Tão importante!

As contracções estavam ainda mais fortes…bem fortes finalmente!

Saí da piscina e entrei na cozinha…Uma vontade tremenda de fazer xixi…não deu sequer tempo de ir à casa de banho…A Parteira diz: faz mesmo no resguardo!…mal sabia ela da quantidade…mas adiante! As dores eram fortes, muito fortes! De repente senti-me a “partir” e recordo-me de pensar é a endorfina a ajudar-me! Verbalizei: acho que vou à partolândia…Mas depressa pensei que não podia, ou melhor, não queria…tinha que me manter atenta aos sinais…As dores eram cada vez mais fortes…senti que estava a entrar numa fase tão desejada… Os meus sons acordam a Rita! Eram 5 da manhã! …Fiz questão de lhe dizer que estava bem. Minha querida Rita! Abraçou-me e o Pai juntou-se ao abraço! Que bem que soube aquele curto momento! Estava tudo como tinha desejado…mas a cabeça continuava pensar e decidi que queria ir para o quarto, parir na cozinha não estava nos meus ideais…

Cheguei ao quarto, as dores eram muito, muito fortes! De gatas na cama, começo a pensar que aquele era o momento em que se pudesse desistia de tudo…percebi então que definitivamente faltava pouco…pensei no quanto é fácil se querer a epídural…pensei em tanta coisa…mas o medo de que o Tiago voltasse a subir os batimentos cardíacos veio-me à cabeça. Quis entrar na água, mas mais uma vez teria que ser “fria”…não queria dar oportunidade a retrocessos.

Entrei na piscina…ui! Que desconforto …logo eu que gosto tudo bem quentinho…mas tinha que ser…os batimentos do Tiago assim o diziam! Ele estava bem assim! E eu…bem… eu tinha que me aguentar…O maridão a apoiar-me, mas de fora da piscina…cheguei a pensar que seria bom tê-lo do lado de dentro…mas também pensei que a água à temperatura que estava seria desconfortável para ele. Procurava descansar entre as contracções…mas os pensamentos andavam a mil e com eles vinham-me à memória muitas das Mães que acompanhei…Procurava nelas força e motivação para ultrapassar a intensidade das dores. As contracções cada vez mais seguidas e com elas uma pressão tremenda no ânus! A dor e a pressão que sentia diziam-me aonde estava no processo e o que tinha que fazer.

Tinha que fazer força, porque só assim sentia alívio…tinha que fazer pressão no sacro, porque isso também me aliviava e o maridão ia-me segurando…o contacto físico com ele, sentir os seus braços dava-me um suporte tremendo. Vieram-me os calores! Faltava-me algo que eu sabia que ajudava tanto…o paninho molhado e fresco! Pedi à Sílvia! Que alívio! Bendito pano! A minha Rita sempre ali, ia fazendo-me umas festas…a sua mão pequena e suave ajudava-me a focar no tão desejado parto que ela também imaginou e sempre pediu que fosse em casa. A pressão no ânus exigia muito de mim…pedia-me força, muita força…mas eu não queria lacerar…com esta pressão no ânus, veio-me à memória as mães que acompanhei e que tanto sofreram no pós-parto com o hemorroidal…tinha que o evitar…conforme fazia força, com uma mão pressionava o sacro, com a outra apoiava o ânus e gritava…mas tentava não esforçar a garganta…tentava colocar a voz, gemer, o que fosse necessário só para aliviar a dor…e pensava: para quando o ardor??!!! Sabia que teria que estar para muito breve…mas para quando?…quanto tempo mais? E assim continuava…fazia força, mas só o suficiente para sentir o mínimo de alívio…queria tanto não lacerar…

De repente apercebi-me que apesar do escuro em que estava o quarto (fiquei depois a saber que a Rita e a Parteira tinham fechado as portadas para eu não aperceber-me do amanhecer), já era dia! Verbalizei o meu espanto por já ser dia! E na minha cabeça a noção clara de que já estava há um bom tempo naquele ritmo…ritmo esse que estava a exigir bastante de mim…mas tudo bem, sabia que era assim! A pressão no ânus mantinha-se tremendamente forte em cada contracção…sabia que era a cabecinha do meu Tiago! Que alento, mas que esforço! Por momentos sentia-me cansada…apetecia-me poder descansar…mas o corpo não o permitia…já nada permitia…as contracções vinham a grande velocidade…

Finalmente o ardor! O tão falado ardor e que eu da minha Rita não tinha tido oportunidade de sentir…pensei, pensei que era o momento de acalmar o impulso de fazer força e dar tempo aos tecidos e ao Tiago…infelizmente também sabia que o tempo não seria infinito…era agora! De fora, a Parteira ia verbalizando o que via…e já via a cabecinha do Tiago! A Parteira queria auscultar os batimentos, mas isso doía…doía muito…qualquer coisa que tocasse na barriga naquele momento era insuportável! Primeiro pedi-lhe que não o fizesse…na vez seguinte “ralhei-lhe” mesmo! Fui apanhada de surpresa com este desconforto…este eu não estava à espera…Até que mais uma leva de contracções e sinto a cabeça a sair…de fora todo o apoio que uma mulher precisa neste momento – os braços do meu marido, as carinhosas mãos da minha Rita, o olhar de coragem e confiança da minha Silvia, e o olhar e mãos apostos da minha terna Parteira, que eu sabia que ia ter presente os meus desejos para este tão importante momento! E assim foi, tranquilamente saiu a cabeça do Tiago, com as minhas mãos fui senti-la, senti cordão, bem folgado e verbalizei-o à minha Parteira. Próxima contracção e começo a sentir a cabeça a rodar…a minha Parteira sabia o quanto eu sou fã deste momento, como tal, sem tocar, ia descrevendo tudo o que estava a acontecer…e recordo-me de lhe dizer: Eu estou a sentir! Foi tão bom sentir tudo isto…mas tão bom! E quando dei por mim já tinha o Tiago no meu peito, e com ele uma sensação única de que TODOS tínhamos conseguido, mas ele tinha sido o grande resistente!

Entre choros emocionados e risos de alegria, vejo que o meu Tiago era IGUAL à minha Rita! Incrível! Fiquei ainda mais emocionada! Entretanto, eu, o meu marido e os meus filhos já estávamos a sós. Tal como tinha pedido! Queria uns poucos minutos a quatro! Mas depressa senti a falta da Sílvia e da Parteira, na verdade, depois percebi que realmente dependendo do ambiente que nos é criado, menos há esta necessidade. Pois aquele momento de emoção era dos 6!

Voltámos a estar todos, e agora focados num momento igualmente importante: faltava a placenta! Saí da água…estava fria…e agora sim, não havia porquê lá continuar! A minha cama foi aonde nasceu a placenta…após uma hora…Pequenina, sem qualquer sinal de calcificação. Foi minuciosamente observada e fotografada. Para a saída da placenta quisemos mais uma vez ter a opinião da Cornelia, por causa da temperatura da água e as suas possíveis implicações. Querida Cornelia! Foi tão bom ouvir a voz dela por telefone! A felicidade sentia-se apesar dos milhares de quilómetros que nos separavam. Também ela estava a viver este parto! Não esteve presente, mas sempre nos disse que estaria disponível como se estivesse. E esteve!

O Tiago já estava agarrado à mama! Tal como a irmã, pegou melhor na mama direita! Espertinhos…

Entretanto a Sílvia e a Rita já tinham ido fazer o desenho com a placenta…tenho pena de não ter estado com elas… O maridão tratou de arrumar tudo.

Depois, a boa notícia de que não tinha lacerado! Yes! Todo o esforço tinha valido a pena! Definitivamente depressa e bem não há quem! Queria tanto não lacerar…queria perceber como o poderia fazer e felizmente consegui!

A minha querida Doula assim que pôde veio ter connosco. Veio tratar da placenta! Sim, serviu para fazer umas coisas giras…

Quando revejo o que vivi neste parto, percebo ainda melhor tanta coisa que tenho vivido com as Mães que acompanho e com as parteiras estrangeiras que tenho conhecido. Muito lhes devo este meu parto…a elas e a todos os que estiveram comigo. Mas devo-o principalmente ao meu Tiago e à minha Rita. Eles sim foram a maior fonte de motivação, força e coragem. Por um nascimento o mais saudável possível, da dor ao prazer, por vocês valeu a pena cada segundo e sensação!

Obrigada meus filhos! Os vossos partos foram sem dúvida os Grandes momentos da minha vida!

“Vai ser à primeira e vai ser um rapaz”…disse o João quando falávamos sobre crianças. Não acreditava muito, já que me tinham diagnosticado os ovários poliquísticos. Mas nem sempre os médicos sabem tudo e a “profecia” do João cumpriu-se. Foi logo à primeira tentativa, que sorte! Más só quando vi o meu “feijãozinho” pela primeira vez, acreditei a sério, acho eu. E foi a melhor sensação do mundo!

A gravidez estava a correr bem, excepto os pequenos incómodos habituais. Logo no início comecei a “devorar” tudo na internet, sobretudo sobre as possibilidades do parto natural, alternativo. Sou estrangeira e não conhecia muito bem a realidade portuguesa. Assim encontrei também o documentário “Donas de parto” onde apareceu a minha futura doula, Sandra. Neste documento aparecem representantes de várias maternidades públicas, falam do que se deveria fazer, do que não, e com tantas opiniões “correctas” até fiquei com a sensação que era tudo cor de rosa e assim estava descansada e convencida que o meu filho ia nascer no hospital público. Mas quando comecei a “investigar”e falar com os médicos e a Sandra, percebi que afinal as minhas espectativas não eram muito reais. Queria um parto natural, tranquilo, sem intervenções desnecessárias…realmente, nunca tinha medo da dor , mas sim, como vão tratar de mim e do bebé. Assim comecei a pesquisar também sobre os hospitais privados. Mas encontrar um médico disponível 24 horas não é fácil – que tristeza…

O tempo estava a correr, a barriguinha com o Simão a crescer (porque logo com 12 semanas o médico disse que a 90% era rapaz e assim foi) e eu continuava sem obstetra e hospital. Acho que ao longo da gravidez falei com uns 4-5 médicos e visitei vários hospitais. Bastante desmotivados, começámos a pensar em termos o bebé em casa. Mas aqui tenho que admitir que estava um bocado assustada, porque tinha o streptococos B positivo e as mães que estiveram o mesmo problema sabem, que os livros e internet estão cheios de histórias tristes. No entanto, comecei a fazer um tratamento homeopático que afinal resultou mas eu  só soube os resultados apenas depois de o Simão ter nascido…

Uma tarde, (já estava com 8 meses), telefona a Sandra que participou num parto  na clínica do Sto António da Reboleira. Cruzou-se com uma médica que já tinha conhecido no Hospital Garcia da Horta há uns anos, e que podia ser uma solução para mim. “Fixe!”, pensei eu e lá combinámos a consulta com a Dra Elsa. Quando me viu pela primeira vez, com a minha barriga bem grande, só disse: “Mas está muito grávida!”..pois…Falámos sobre as minhas expectativas, sobre as possibilidades e saí muito bem disposta e tranquila que, se não decidirmos de ter o bebé em casa, esta é a nossa salvação.

Quando nos vimos pela segunda vez, já estava com 37 semanas e a Dr. Elsa resolveu fazer-me o CTG. E assim ficou claro: as contracções de treino já cá estavam e provavelmente o Simão não demoraria muito. Sentia-as há uns dias mas como não me incomodavam nada, não ligava. Já não estava a trabalhar, por isso podia preparar-me devagarinho para o grande dia que afinal chegou mais cedo do que esperava.

O domingo de 16 de Maio 2010 era um belo dia cheio de sol e calor e nós decidimos de aproveitá-lo para visitar a Feira de Livro em Lisboa. Logo de manhã demos um saltinho ao Fórum Almada para comprar uma bolsa de bebé (como se eu soubesse…) e arrancámos para Lisboa. Passear o dia inteiro na Feira a subir e descer com a minha barriguinha de 38 semanas não foi nada fácil, mas foi um dia bem aproveitado. Exaustos voltámos para casa por volta das seis e eu resolvi dormir uma cestinha. À noite ficámos em casa a ver o filme Beautiful Minds com Russel Crowe. Estava muito aflita para fazer xixi, mas também muito preguiçosa para me levantar. Quando já não aguentava mais, levantei-me devagarinho e…oups…acho que até ouvi um som estranho…pelas pernas escorregou-me um bocado de um líquido quentinho. No primeiro momento pensei: bem, já nem aguento o xixi??? Mas as perdas de líquido continuavam e eu percebi que esta noite já não íamos dormir nem voltávamos para casa sozinhos. Eram as 23h15. Tenho que admitir que no início pensei: Já? Acabei de trabalhar só uma semana antes, mas não consegui descansar porque tive que resolver mais uns assuntos e ainda por cima agendámos o encontro com a minha doula Sandra para a semana que vinha…Hmm, mais uma semanita dava me jeito para “arrumar” a minha cabeça e preparar-me. Mas os bebés são quem manda. “Falei” com o Simão, pedi-lhe para se portar bem e colaborar como deve ser, porque tendo em conta o meu estreptococo (que afinal desapareceu depois de um tratamento homeopático mas ninguém sabia porque ainda não tinha os resultados das últimas análises), precisava das contracções mais cedo possível. E ele, graças a Deus, obedeceu.

Telefonei para a Sandra, contei a novidade e ficámos à espera dela. A mala já estava pronta, porque me parecia que o Simão nascia antes da data prevista e a médica dizia o mesmo.

A Sandra chegou cerca uma hora e meia mais tarde e eu já estava com as primeiras contracções pouco dolorosas mas regulares de 5 em 5 minutos. Falámos um bocadinho mas mantivemo-nos calmos a ver um outro filme. Tentámos telefonar para a minha médica mas não estava a atender. Fiquei um bocadinho preocupada. Andei 8 meses à procura dela e agora não atende? Está a fazer um outro parto ou só não está a ouvir? Tentámos várias vezes, nada. Enviámos uma sms, nada…Bem, ainda temos tempo, é preciso eu ficar calma. E assim foi. Passando talvez uma hora, a Dra. Elsa respondeu e nós dirigimo-nos à Clínica de Sto. Antónia da Reboleira. A Dra. Elsa tinha feito um outro parto naquele dia e depois de um dia cansativo já estava dormir profundamente quando lhe preparámos mais um programa nocturno. Nesta altura as contracções já estavam mais fortes e o João teve que conduzir mais devagar porque eu já sentia cada buraco na estrada.

Chegámos à Clínica às 3 de manhã, a Dra. Elsa já estava à nossa espera. Tudo estava muito calminho. Mostraram-nos o meu quarto, vesti uma camisa não muito confortável mas que depois troquei pela minha. Vieram buscar também a primeira roupinha do bebé.

Quando a Dra. Elsa me fez o primeiro toque, já estava com 5 cm, mas eu pensei: bem, isto vai ainda demorar um bocadinho. Ligaram o CTG, estava tudo bem mas as contracções cada vez mais fortes. Por causa do meu estreptococo, administraram-me o bionéctar mas foi o único químico que levei. Nenhum soro, nenhuma oxitocina, nenhuma epidural. Tudo como eu queria.

Tentei respirar profundamente e usei uma técnica de yoga – inspirava o ar “branco” e pelo sítio onde sentia a maior dor expirava o ar “azul”. E isto ajudava. Naquela confusão toda os CDs com a minha música ficaram em casa mas na altura nem me lembrei e concentrei-me só na respiração. O João estava a dormitar um bocadinho. A Sandra massajava-me as costas, abraçava-me e sugeria algumas posições. Tinha a bola do parto, mas nela não me sentia muito bem. Fiquei afinal sentada numa cadeira, apoiando-me na cama.

Estive quase sempre com os olhos fechados, “drogada” com aquela carga de hormonas como se tudo isso estivesse a desenrolar fora de mim. Sentia-me bastante cheia porque fiquei com ideia que à noite tinha comido demais. Apetecia-me vomitar mas nada estava a sair. A Sandra encorajava-me: “Está a fazer muito bem! E sabe o que isto quer dizer?” Eu sabia que podia ser a fase da transição mas parecia-me muito cedo. Não queria acreditar, pensei que a Sandra me apenas queria animar porque as contracções apareciam de 2 em 2 minutos, eram fortíssimas e eu já não sabia se aguentava. Mas continuava a respirar de minha maneira, já com alguns sons porque assim sentia-me mais aliviada…Na certa altura comecei a sentir a vontade de fazer força mas sempre pensei que foram só as minhas necessidades. Mas quando a Dra. Elsa voltou outra vez, eu já estava com 9 cm e foi na altura para nos deslocarmos à sala de parto. Então, afinal é mesmo agora! A Sandra tinha razão. Claro, já acompanhou tantas mamãs que nestas coisas não se engana, certeza absoluta.

Quiseram levar-me na cama mas afinal fui a pé. A médica verificou a posição do bebé e perguntou-me sobre a posição em que queria parir. Sempre quis parir de cócoras mas naquele momento, nem sei porquê, talvez por mero cansaço, disse que ficava na posição “clássica” mas com as costas elevadas. E assim comecei a fazer força, depois mais gritar do que fazer força até que ouvi a médica mencionar a ventosa…”E isso é que não”, pensei eu. O parto instrumentalizado foi a única coisa que eu temia e não queria acabar o meu belo parto assim. Mobilizei todas as minhas forças que restavam e assim veio o meu Simão…quentinho, choramingo…ainda me lembro das palavras: “Está a fazer chichi…” Tudo começou e terminou com um chichizinho.

Colocaram-no na minha barriga, cortei o cordão umbilical e estive a massajar-lhe as costinhas. Depois, já vestido, colocaram-mo no peito onde logo encontrou o mamilo (e assim ficou “colado” ate eu ir ao quarto). O João estava a filmar e só depois admitiu que estava mais nervoso do que eu e que quase tinha pedido a epidural 🙂

Não escapei à episiotomia, mas pronto…sobrevive-se. De resto correu tudo bem, estava bastante tranquila porque tinha Sandra perto de mim e mesmo se os homens-pais talvez fiquem zangados comigo, mulher é mulher e esta que já viveu tantos partos, transmite uma paz incomparável!

Às vezes penso como teria sido, se o Simão tivesse nascido em casa, mas não vale pena questionar. Temos que acreditar que as nossas decisões são as melhores tomadas naquele momento e ponto final!

Tive um parto tranquilo, rápido, com pessoas que eu gosto e isso é que conta!

Obrigada Sandra, obrigada João, obrigada Dr. Elsa, obrigada SIMÃO!!!

 

Acompanhamento da doula

Ter uma doula foi para mim essencial por várias razões: queria ter um parto natural, tranquilo e sendo estrangeira não conhecia a realidade portuguesa. Conhecer alguém que já assistiu aos partos hospitalares e em casa e tem a sua própria experiência do parto, foi para mim a melhor opção de como receber a informação actual e objectiva para tomar as decisões importantes. A doula esclarece as dúvidas, ouve as nossas preocupações, abre os horizontes… é mãe e amiga…

E seja o seu papel durante o próprio parto mais activo ou passivo, ter uma doula significa ficar mais calma, segura, confiante nas suas capacidades e pronta para receber um novo ser que para sempre alterará a nossa vida…

Antes de descrever momentos tão intensos que vivi sinto necessidade de esclarecer, em tom de protesto, o porquê de ter optado por reunir todas as condições necessária para que fosse possível ter uma parto domiciliar, e digo isto porque tenho bem consciente da complexidade do parto, porque o estudei e muni-me de toda a informação que achei necessária para tomar esta decisão, não foi portanto um acto deliberado, inconsciente ou uma tentativa de marcar a diferença porque “agora está na moda” como cheguei a ouvir.

Pois bem, na minha perspectiva a grande moda é o parto Hospitalar, na medida em que a maior parte das futuras mães, por medos, receios, porque assim se assumiu que deve ser ou até mesmo por nem terem interesse em saber ao certo o que é o parto, se entregam nas mãos de desconhecidos com a convicção de que estes é que estudaram, é que sabem como agir perante o parto, quando na verdade este é o acto mais natural desde o primórdio da Humanidade. Não quero com isto dizer que desprezo o parto Hospitalar ao ponto de o achar desnecessário, não, prefiro pensar nele como recurso, porque reconheço que em alguns casos poderá ser necessário recorrer ao Hospital, por diversas razões não por imposições, se é que me faço entender.

Quanto ao parto domiciliar, para surpresa de alguns, evoluiu! Não é como antigamente que mal se fazia vigilância da gravidez, que no momento do parto o pai fica na sala a espera de ouvir o bebé chorar, sinal de que já nascera e enquanto isto não acontecia se vêem mulheres a correr do quanto para a cozinha e da cozinha para o parto com bacias de água quente e paninhos e sussurram ao pai tenha calma que está quase. Passou-me muitas vezes pela cabeça que era esta a visão que muita gente tinha quando eu dizia que tinha tido um parto domiciliar.

Ora bem, quanto à minha experiencia pessoal ao longo desta viagem, que para minha surpresa, ainda estou a fazer, fui-me apercebendo de alguns actos e convicções que tinha inconscientemente. Desde que me conheço enquanto mulher que desejo para mim um parto em que pudesse ser eu e o meu bebé a definir o caminho, num espaço onde eu tivesse tido tempo para criar “o ninho”, que me transmite-se segurança, confiança e conforto, surpreendentemente sempre tive consciente que este seria um processo que me traria algum desconforto físico, alguma dor mas que nunca me assustou. Chegado o momento de ser mãe, esta mesma convicção acentuou-se ainda mais, e o processo tornou-se mais exaustivo, na medida em que agora para além de mim e do bebe também havia um pai, que na sua existência enquanto homem não entendia esta vontade e mais do que não entender achava insegura e sem sentido. É então, que pelas mãos de uma conhecida, se cruza no nosso caminho a Doula da nossa vida, Sandra Oliveira! Foi então que uma luzinha se acendeu, iria finalmente ter ajuda para mostrar, à única pessoa que eu sentia que tinha de entender e apoiar esta vontade, que esta convicção tinha razão de ser. De forma ligeira, começamos por fazer preparação para o parto, em grupo, com a Sandra, na minha íntima esperança poderia ser esta a forma de despertar no Hugo a consciência para o parto o que naturalmente num homem não existe, muito menos num primeiro parto. Na primeira aula senti, é ela quem me vai ajudar, mais ainda, é ela quem eu quero que me acompanhe neste processo que eu sabia, sozinha não seria possível, após esta aula, depois de uma breve apresentação onde assumi o meu desejo o que foi uma surpresa para a Sandra, fiquei a saber que para a data prevista para o parto do Rodrigo ela não iria estar no país… Foi quase como um murro no estômago, não entendi na altura porquê até porque ela me disse que se era esse o meu desejo, o facto de ela não estar não iria comprometer essa vontade, aconselhava-me alguma Doula da confiança dela para me acompanhar, mas não era isso que eu queria, que eu sentia.

Fizemos na mesma as aulas de preparação para o parto, até porque defendo que esta é uma boa forma de nos “obrigar” a reflectir sobre o parto e em particular as aulas da Sandra despertam-nos o bichinho e dá-nos vontade de querer saber os mais e os porquês do parto. Em cada aula que passava ia-me apercebendo que o meu desejo estava a ser anulado pela impossibilidade de ser a Sandra a acompanhar-me, não por culpa dela claro, mas porque eu sentia que tinha de ser ela, fui então conscientemente obrigando o meu ser mais íntimo a aceitar a ideia de que ia ter de ser no Hospital, o caminho das aulas até casa foi muitas vezes feito a chorar por dentro a engolir lágrimas e soluços para que o Hugo não percebe-se o meu desespero.

O Hugo acompanhou-me em todas as aulas excepto a uma quase no fim das sessões, aquela em que a Sandra me disse: “- A propósito Paula, ainda não te disse, mas, já não vou para fora em Agosto.” Acabou a frase com a mão em cima do meu ombro, acho que se alguém estivesse a olhar de frente para mim naquele momento cegava com o brilho nos meus olhos, pelo significado daquelas palavras, não sei até hoje se o disse propositadamente na ausência do Hugo, acredito que não. Agora com menos tempo ainda para agir, tinha de mostrar de uma vez por todas ao Hugo a angústia que sentia por me imaginar a parir num hospital, foi então que verbalizei alguns pesadelos que tivera enquanto me obrigava a assumir que teria de parir no hospital sem opção de escolha, algumas estratégias que tivera elaborado para só chegar ao hospital no último dos últimos minutos, devo dizer que algumas até a mim me assustavam, não mais do que me entregar às mãos de desconhecidos sem lutar contra, este sentimento algo que primitivo, vim a entender mais tarde, depois de ler alguma informação disponível a qualquer um que tenha interesse na matéria.

Foi então assumida a possibilidade de tentar um parto domiciliar, a Sandra foi informada e deu-se início ao processo, fizemos um encontro nada de muito formal, já nos conhecíamos todos, a única coisa que tinha mudado era o método com que queríamos atingir o fim, foi-nos dito que teríamos então de fazer a vigilância da gravidez com a parteira, se já sentira que era esta Doula que queria, após conhecer a parteira percebi claramente que era esta a dupla que queria que recebe-se o meu filho. Acabamos na mesma a preparação para o parto em grupo e foi partilhada a nossa decisão, curiosamente o olhar de espanto, que tivera sentido por parte dos colegas de grupo a quando o dia da apresentação onde assumi o meu desejo, desta vez não acontecera, e acredito que não tenha sido porque já sabiam do meu desejo mas sim porque agora já tinham outro tipo de conhecimento. Fizemos, como todos os outros, um plano de parto, no nosso caso teríamos de fazer dois, um hospitalar outro domiciliar, este segundo não o transcrevi, muito embora tenho idealizado como queria o parto domiciliar para mim só o facto de estar a ser possível reunir as condições para o poder concretizar em segurança superava em muito qualquer desejo que pode-se ter durante o parto. Fui soprando no entanto ao Hugo algumas vontades que talvez me fossem servir de conforto na hora do parto como por exemplo música, acender uma velinha que tinha no quarto do Rodrigo caso eu quisesse na altura ir para lá, algumas outras coisas que nunca achei muito relevantes, achei sempre que se sentisse vontade na altura saberia exprimir essa vontade, mal sabia eu que nestes momentos de reflexão estava a prever que não iria ser uma parturiente muito exigente, iria ser um mamífero nato no acto de parir.

Enquanto grávida oficialmente acompanhada por Doula e Parteira fizemos 4 consultas de vigilância, isto porque só começaram às 31 semanas, cada uma delas com um nível de aprendizagem e conhecimento do meu próprio corpo para mim superior a qualquer uma das outras 6 que fiz com a médica obstetra, sentir simplesmente as mãos da parteira a mexer na barriga, identificar, sem “aparelhómetros”, a posição em que o Rodrigo se encontrava, fazer medições com fita e cálculos, usar técnicas ancestrais para antever o possível trajecto que o meu corpo iria tomar na hora do parto, tudo isso me transmitiu tal confiança que eu própria não sabia ser possível mediante a proximidade do parto.

É então que o dia chega, 02 de Agosto, dois dias antes da data prevista e coincidentemente o dia de consulta de vigilância com a parteira oficial e uma outra que estaria de pré-aviso caso fosse necessário, já andava com algumas contracções há umas 2 semanas, nada de mais, sem dor, excepto quando eram muito seguidas e faziam uma pressão no topo da barriga como que a empurrar, ou melhor a empurrar mesmo…Bom, neste dia acordei com as contracções mas de algum modo diferentes acompanhadas de uma dor na zona lombar parecidas com as que tinha poucos dias antes de menstruar, partilhei isso mesmo com a parteira oficial, esta sorriu mas a outra parteira sussurrou: “-Hum…Mas isto não é para já, talvez uns 8 a 10 dias…”, a consulta prosseguiu de manhãzinha, elas saíram e eu senti que não iria ser para dali a 10 dias e então pedi ao Hugo, que já se encontrava nessa altura em casa de férias a meu pedido, para irmos comprar o resto das coisas que faltavam, e então com o andar de lá para cá, de cá para lá as contracções intensificaram-se e eu tive a certeza que não era mesmo para dali a 10 dias nem 5, estava de facto em trabalho de parto numa fase muito primária ainda mas já tinha começado. Achei por bem que não deveria chamar logo a Sandra e também não alertei o Hugo para o que estava a acontecer, queria-os frescos e fofos para quando fossem de facto necessários, até ali eu estava a lidar bem com a situação.

Nesse dia não almocei nem jantei, não porque estivesse nervosa, muito pelo contrário, mas porque o meu corpo assim o quis, a partir da tarde desse dia até bem perto do princípio da noite fui à casa de banho umas 4 ou 5 vezes, não sei precisar bem, em quase todas ou mesmo em todas as vezes que fui, defequei, era já o meu organismo e libertar tudo o que não era necessário na hora de fazer força. As contracções continuaram cada vez mais intensas mas sem grade regularidade. Das poucas coisas que eu tinha idealizado para o meu parto era que este se desenrola-se durante a noite para que não houvesse a possibilidade de ninguém se aperceber que eu já estava em trabalho de parto, e muito menos que fossem avisados. Fomo-nos deitar não sei precisar bem a hora, para ser sincera nunca estive muito ligada no tempo, sei que foi já na cama que as contracções se tornaram mais regulares, tentei não despertar muito o Hugo para que descansasse, mas não foi possível durante muito tempo, levantei-me e recorri á bola para aliviar as contracções, senti necessidade de ir para a varanda do quarto apanhar a brisa da noite, e fui, eu e a bola, o Hugo ficou no quarto porque já não cabia na varanda, mas sempre em contacto, volta que não volta ele desabafava: “- Não achas melhor chamar a Sandra? ” eu sentia-me bem confiante confortável mas percebi que ele precisava dela ali, naquele momento mais do que eu. Então fomos para a sala e ele começou a cronometrar as contracções, não eram regulares, vinham entre 3 em 3 e 5 em 5 minutos e a duração para ser sincera não me recordo, foi então que lhe disse para ligar e dizer á Sandra que já estávamos em trabalho de parto e em que fase estávamos, ela quis falar comigo, pelas perguntas que fez e a calma como falou penso eu, para perceber o meu estado psicológico naquele momento, percebeu nitidamente que eu estava tranquila, por isso sem grade azafama, porque o momento assim o permitiu, despachou-se e pôs-se a caminho. Lembro-me que até ela chegar a evolução não foi muita, enfim ela chegou e eu senti maior tranquilidade por parte do Hugo e minha também. Quando chegou estávamos no nosso quarto, estava escuro, acolhedor e tranquilo, mas não era o momento ideal para o desenrolar do parto, faltava-nos ainda a Parteira (que estava de serviço no hospital), eu senti que era importante para a Sandra perceber em que fase estávamos ao certo e só depois avisava a Parteira, em forma de conselho, a Sandra perguntou se não queria-mos ir um bocadinho até á cozinha, foi bom, conversámos, desligamos um pouco do parto em si aliviando assim o possível stress que pudesse vir por a Parteira ainda não ter chegado. A Sandra foi fazendo perguntas como forma de entender qual tinha sido o caminho percorrido até à sua chegada, e entre algumas contracções sempre com a bola como recurso para aliviar a dor que causavam, fazendo um movimento de balancé, o tempo foi passando. Senti necessidade de ir á casa de banho mais uma vez, mas agora o resultado era outro, urinei mas imediatamente percebi que não era só urina era algo mas viscoso e denso, o rolhão mucoso. A partir daqui “mergulhei para dentro” percebi nitidamente que as coisas estavam a acelerar, pouco depois do rolhão mucoso, comecei a perder liquido aos poucos e sentia a necessidade de fazer força juntamente com a contracção, a Sandra percebeu essa necessidade e aconselhou: “- Faz só a força necessária para te aliviares, não está na hora:” lembro-me que pouco mais verbalizei depois disto, a parteira chegou entretanto, dei pela sua chegada mas pouco tempo antes disso passei a focar-me no Rodrigo falei muito com ele interiormente e tudo o resto que se ia passando á minha volta ia acontecendo naturalmente como consequência dos sinais que eu ia dando inconscientemente, lembro-me da Sandra perguntar se tinha chegado a escrever o papel sobre o qual tínhamos falado poucos dias antes, onde eu lhe perguntava se achava que devia-mos alertar os vizinhos, ao que ela respondeu: “- Não avises, escreve um papel bonitinho com uma cegonha e se acharmos necessário na altura colamos na porta.” Não o cheguei a escrever. Sei que da bola passei para o banco de parto, e aqui senti um retrocesso do qual despertei com a voz da Sandra algo ríspida a dizer: “- Como é Paula queres começar a preparar a piscina” não tivera até ali pensado que tínhamos ainda esse recurso mas achei que não seria necessário e do banco passei para a cama em posição de gatas, foi aqui que, depois de algum tempo a fazer força, vomitei, e percebi depois que a posição já não estava a ajudar, pedi então ajuda para me levantar e apoiei-me ao Hugo de pé, acho que vieram umas três contracções seguidas de uma intensidade tal, não de dor mas de força, que percebi, ok está quase, entre as forças que fazia em algumas a parteira verbalizava: “- Paula não te contraias.” Numa delas recordo ter respondido com alguma agressividade: “- Eu não estou a contrair.” Pedi novamente o banco e desta vez foi um alívio, quase tempo nenhum depois a parteira disse que já via o Rodrigo e ajudou-me a tocar-lhe, neste momento, para além da vontade de fazer força já sentia algum ardor que verbalizei, não sei precisar o tempo que tive nesta posição para mim foi praticamente nenhum, a cabeça do Rodrigo nasceu às 10h14 o corpo às 10h15 e a placenta as 10h20 são os únicos tempos que me recordo de ouvir, assim que o Rodrigo nasceu a parteira passou-mo imediatamente para os braços. Até esta altura ainda tinha vestida a blusa do pijama que pedi imediatamente ajuda para despir, para que o meu bebé me toca-se, e assim foi, depois de a placenta sair e de o Hugo ter cortado o cordão levantei-me e aguardei que me recompusessem a cama para nos aninharmos os 3 a namorar.

E depois disto poderia continuar a descrever como tem sido até hoje esta viajem, que apesar das dificuldades lutei para que fosse possível viver á minha maneira, com o apoio de 2 mulheres incríveis, que estão lá mas não se fazem notar, que encaminham sem se imporem e que lutam diariamente para que outras mulheres como eu tenham o direito de escolher o caminho que pretendem percorrer.

Alice

A tua história, meu amor, começou sem aviso. Eu tinha a vida muito desarrumada entre o curso e o trabalho.

No final de Dezembro de 2014, o cansaço tornou-se insuportável. Pedi, no trabalho, licença sem vencimento para o mês de janeiro. Eu não sabia o que é que me estava a acontecer e só dizia a todos que não estava a suportar o ritmo.

Durante o mês de janeiro, percebi que havia algo para além do cansaço. Pensei que tinha que ir ao médico e sentei-me a fazer uma lista dos meus sintomas. Oh bebé… Onde tinha eu a cabeça? Nessa tarde, percebi que podias estar comigo.

Conversei com o teu pai, fizémos um teste e apareceu a tua risquinha.

Não era muito lógico ter outro filho naquela fase das nossas vidas. Pensei até que seria irresponsável. Entrei em desespero. Mas queríamos-te tanto! Estávamos dispostos a tudo para que fosses feliz.

A gravidez foi prosseguindo comigo assustada. 4 anos antes, a tua mana tinha nascido prematura, num parto hospitalar que nos deixou numa lástima! Após o parto dela, conheci mulheres fantásticas que ampararam a minha dor e me foram ajudando a levantar. Entre elas, a doula Sandra Oliveira. Telefonei-lhe logo, precisava de ajuda para gozar a tua existência sem os fantasmas da gravidez e nascimento da tua mana. A Sandra não me deixou mais caminhar sózinha. Ajudou-me a encontrar o obstetra à medida da minha sensibilidade, começámos a delinear planos para o teu parto, de forma a contornar os meus medos. Eu queria, bebé, que nascesses de termo, no aconchego da nossa casa.

Nas semanas que se seguiram, foi como se todas as nuvens negras do nosso caminho se estivessem a afastar e a dar lugar a um céu azul! Os estudos nem estavam a correr mal eu comecei a acreditar na possibilidade de os terminar em julho, antes que nascesses, em setembro e, assim, também a situação financeira do próximo ano estaria aliviada. A gravidez estava a correr muito melhor do que a minha experiência anterior, a eco do primeiro trimestre só nos revelou coisas boas, o medo de nasceres prematura estava a desvanecer-se,… E eras uma menina, mais uma princesa! A tua mana estava, a cada dia, mais entusiasmada com a tua existência! Ela dava-te beijinhos, abraços, conversava contigo e dizia a toda a gente que ia ser a tua mana mais velha! Eu e o pai abrimos os corações à felicidade e começámos a achar que a vida nos estava a correr melhor do que o planeado.

O teu nome seria Alice. Alice, a menina que se liberta, a inconformada, a sonhadora.

Conversávamos sobre a felicidade que nos estavas a proporcionar antes de sair de casa para te ver na eco morfológica, numa 3ªfeira de maio, em que fazias 21 semanas. A tua mana mais velha também foi, como ela gostava de exibir o seu novo título!

Agora respiro fundo, querida Alice, antes de prosseguir…

Estávamos todos bem humorados. O médico derramou um gel azul na minha barriga para fazer a ecografia. A tua mana achou muito mal, porque o gel devia de ser verde, do Sporting! A primeira coisa que vimos foi a tua carinha. Tão linda! Passados uns segundos, o médico ficou com uma expressão fechada. Percebi que alguma coisa não lhe estava a agradar, mas podia ser a tua posição, o ecógrafo,… Os minutos passavam, o consultório continuava em silêncio… O médico tinha passado o tempo a ver a cabeça e a coluna, sem dizer nada. Comecei a ficar impaciente, quando olhei para o pai, ele já tinha chorado. Tive vontade de começar a fazer perguntas, mas não fiz, acho que tive medo. Aguardei que o médico falasse.

O médico explicou-nos, meu amor, que tinhas espinha bífida aberta, hidrocefalia, o desenvolvimento neurológico comprometido… são uns dói-dóis muito maus… Ele tentou mostrar-nos, mas eu só queria ver o teu corpinho de bebé, a tua carinha,… Parecias-me tão linda, Alice! Falou-se em interromper a gravidez, mas eu não consegui, naquele momento, interiorizar grande coisa. O médico sugeriu voltarmos lá passados 2 dias, para repetir a eco na presença de outros colegas.

O teu pai saiu de lá a chorar, eu estava apática, a tua mana percebeu que alguma coisa não estava bem mas pensou apenas que o exame tinha sido doloroso.  Só caí em mim e chorei algumas horas depois, quando parei e te senti mexer. Eu costumava conversar contigo sobre nós e tudo o que ias encontrar quando nascesses… “E agora o que é que eu digo?”. E percebi que as nossas conversas já não seriam iguais, percebi que podia ter que me despedir de ti.

Tentava ficar sossegada, aproveitar muito aqueles momentos em que te sentia, mas tinha dificuldade em encontrar palavras para conversar contigo, e chorarava.

Nessa noite, eu e o pai tínhamos os papéis trocados. Ele falava pelos cotovelos “E se o médico não viu bem? E se o aparelho estivesse sujo?” e eu assistia calada. Mandei mensagem à Sandra, que me perguntou se eu queria falar, mas eu não queria falar com ninguém a não ser contigo, minha filha.

Fomos para a cama, dormitar nos intervalos de choro, nessa noite como nas que se seguiram.

Na manhã seguinte, a Sandra ligou a perguntar se queríamos confirmar o diagonóstico noutro sítio. Foi-me evidente que era importante para o pai. A Sandra pediu ajuda e conseguiu marcar uma eco ainda para o final da manhã. Lá fomos. Outro profissional, de outra equipa, outro aparelho, mas o mesmo diagonóstico, a mesma recomendação.

Enquanto tua mãe, Alice, senti-me perdida. Eu não queria encomendar a tua morte, bebé… Como poderia isso enquadrar-se na maternidade? Eu queria proteger-te! Tentei perceber exactamente se as malformações poderiam ser incompatíveis com a vida, percebi as expectativas, ponderei prosseguir com a gravidez. Eu queria-te. Eu estaria disposta  a tudo, tudo para tu seres feliz! Mas fomos humildes perante a dimensão dos teus problemas, filha. Enquanto tua mãe tentei ser altruísta e ter compaixão por ti.

Nessa 4ª feira, antes de dormir, a tua mana quis dar-te os abracinhos e beijinhos do habitual. Eu senti que tinha que conversar com ela. Se eu valorizava a oportunidade de me despedir de ti, tinha que a dar à tua mana também. Foi uma conversa difícil… Ela ficou muito zangada com a situação. Chorou e gritou. Disse-nos que queria que visses a nossa casa, a rua, o parque. Disse que, mesmo que nascesses doente, ela dava-te comida para ficares forte e beijinhos para curar as feridas. Oh, meu amor, a mana já te amava tanto!

Na 5ª feira voltámos ao nosso médico. Nova ecografia, com mais 2 elementos da equipa. Todos viram e concordaram. Mas fez-me confusão que tivéssemos passado uma ecografia só a ver os teus dói-dóis. Pensei que seria a última vez que te víamos com vida, minha querida. Pedi, emocionada, para ficar com mais imagens da tua carinha. O nosso médico disse-me logo que sim e tirou umas do teu perfil. Tão fofa! Como eu me sentia apaixonada por ti!

Neste dia, também foi dia de tentar perceber o procedimento da interrupção da gravidez nesta fase de gestação. Percebemos que, num determinado tempo de gestação, havia diferenças significativas no procedimento, de uns hospitais para outros. Infelizmente, concluímos também que, ao contrário do que acontece no parto e na interrupção voluntária da gravidez, a lei não prevê que se possa escolher o hospital para se proceder a uma interrupção médica da gravidez. O sistema público limita-nos ao hospital da nossa área de residência. Nós não tínhamos dinheiro para recorrer ao privado onde a gravidez tinha sido seguida até então porque o nosso seguro cobria apenas as consultas. (Concluímos mais tarde que nem existe seguro que cubra uma IMG). A sentir-me completamente encurralada, Alice, fui ao hospital da nossa área de residência, o hospital onde eu e a tua mana tínhamos sido tão maltratadas… Enchi o peito de ar e voltei a pisar aquele chão, a lembrar o cheiro,… Sentei-me calada. Já não me recordo do que a Sandra me perguntou antes de eu desatar num pranto em que lhe dizia que não estava preparada. Quando chamaram o meu nome, lá fui atendida de forma muito fria. Responderam a algumas questões e percebi que o procedimento tinha detalhes de violência para além do que eu tinha imaginado. Para além disso, estaria sem acompanhante durante a indução e o expulsivo seria num quarto comum, na zona de triagem. Eu e o pai não teríamos oportunidade de estar a sós contigo, Alice. Recusaram-se naquele dia a mostrar-me o espaço ou a documentação inerente ao processo porque tinham mais 16 grávidas para atender (e eu ali, com uma gravidez condenada, a chatear!). Não valia a pena… Levantei-me e saí. A partir dessa tarde, comecei a tentar mentalizar-me que só se faz o que se consegue. A tua morte, meu amor, não ia ter a dignidade que eu gostaria. Eu não iria ter capacidade de estar ali, concentrada em ti.

Fiquei com uma consulta marcada para 2ªfeira da semana seguinte, na 3ª feira daria entrada no hospital para iniciar a indução. Tirei a cabeça das burocracias todas, até porque eu achava que já tinha esgotado as hipóteses todas, já não tinha energia e entrei em modo de entrega. Plano do teu parto no SNS: pedir as drogas todas a que tivesse direito e desistir!

A Sandra e o teu pai, meu amor, ficaram inconsoláveis.

Na 6ªfeira eu queria só tinha vontade de estar contigo, querida Alice. Já havia 3 dias que eu não falava contigo e isso estava a inquietar-me. Ia preparar uma fraldinha bonita onde eu pediria que te levassem embrulhada quando nascesses, fazer uma barriga de gesso,… Mas o pai esteve a dormir sobre o que se tinha passado no hospital e sobre o trauma do nascimento da tua irmã. Acordou decidido a contactar seguradoras para esgotar as hipóteses de conseguirmos que nascesses no privado. Zanguei-me com ele. Que perda de tempo! Era impossível ele ouvir algum valor compatível com as nossas possibilidades. O nosso tempo, querida Alice, era tão precioso!!! E ele queria a minha ajuda nos telefonemas para hospitais e seguradoras. Gritei com ele. Caramba! E foi quando o pai, com um olhar de medo me disse: “Eu vou tentar. Nós precisamos que saias disto inteira, capacitada.” Começou a chorar “Eu tenho medo de como possas ficar… Esta família precisa de ti.”.

No meio da confusão e dos telefonemas do pai, telefonou a Sandra. Eu expliquei, desolada, o que o pai estava a fazer… Alto e pára o baile! Vamos todos trocar as informações que já conseguimos porque a Sandra estava a fazer o mesmo.

Eu estava desorientada porque não acreditava no sucesso deles e porque sentia que estávamos em contra-relógio, eu estava impaciente para simplesmente estar contigo, continuava noutra frequência… Eu quis almoçar e ir passear contigo, querida Alice. Mas a tarde acabou com o nosso médico, no hospital privado, a pedir uma previsão de encargos para a IMG. A intenção da Sandra era angariar donativos para que conseguissemos proceder à IMG no hospital privado onde foi seguida a gravidez. Ali, teríamos condições de: absorver tudo o que pudessemos tirar dessa última vivência contigo, em família, com privacidade, que não fosse o ambiente que me levasse a pedir drogas que me alterassem a consciência nos momentos da tua partida,… Que conseguíssemos despedir-nos de ti com toda a dignidade de que tu também eras merecedora, minha linda! Mas pareceu-me utópico. A Sandra pegou-me nos braços e disse: “As mulheres, unidas, conseguem muitas coisas. E nós estamos rodeadas de mulheres fantásticas!”. E, assim, esta 6ª feira acabou com esperança.

No fim de semana, querida Alice, eu, o pai e a mana estivémos só dedicados a ti. Fomos para a casa do tio, que estava vazia, só porque ali não seríamos interrompidos pelo telefone nem pela campaínha. Foi muito importante para todos. Conversámos muito, entre nós e contigo. Conversámos sobre tudo o que mudaste nas nossas vidas, meu amor, e contei-te o que ia acontecer. Foram 2 dias de celebração da tua existência, de assimiliação e de despedida,…

Ao longo destes dias, sinto que fomos ficando apaziguados. Eu não queria que este fim de semana a quatro acabasse, Alice… Quem me dera viver eternamente nele.

Na 2ª feira começou novamente o frenesim. Fomos ao hospital receber uma previsão de encargos formal, a Sandra confirma que havia donativos suficientes para avançar… Senti um alívio tão grande e senti-me tão grata, tão pequena com a grandeza daquele gesto,… Combinámos os detalhes com o médico para dar entrada na manhã seguinte. Nessa noite levámos a tua mana para ficar uns dias seguintes com o tio. Lembrei que, quando voltássemos, eu já não estaria grávida e tu terias morrido, Alice. Antes de eu sair, ela ficou muito angustiada e disse que não tinha nada para se despedir de ti. Respondi que não fazia mal, podia dar um beijinho. A tua mana levantou a minha camisola, deu um beijinho e disse-te: “Adeus para sempre, mana Alice.”. Eu e o pai fomos para casa tentar dormir.

Na manhã da 3ª feira em que fazias 22 semanas, meu amor, precisamente uma semana depois do diagonóstico. Pusémos-nos a caminho do hospital. Tinha havido um acidente e estava um trânsito infernal. Começámos a ficar atrasadíssimos, eu fiquei mais nervosa ainda, nauseada e incapaz do que me esperava. Quando chegámos ao hospital, disseram-nos que não havia quarto disponível e pediram para voltarmos à tarde. Expliquei ao teu pai e à Sandra que não ficassem aborrecidos, foi o melhor que podia ter acontecido naquele dia. Saímos dali, fomos ver o mar, almoçar, eu pude restabelecer-me e sentir-te mais.

A seguir ao almoço, voltámos ao hospital. Todos os dias da última semana, todo o desespero, o choro, as conversas (principalmente as que tive contigo) me ajudaram a estar segura neste dia. Eu estava triste, estava nervosa, mas estava pacificada e amparada na minha decisão.

Ao longo do parto, não utilizei relógio, o tempo era nosso. A indução começou por volta das 15h ou 16h com 2 comprimidos de misoprostol no colo do útero. Foi difícil, eu estava toda contraída, principalmente porque tinha dores no coração. Depois fiquei sossegada, deitada numa cama, abraçada com o pai, a pensar em ti, Alice.

De seguida, passou-se o tempo, meu amor.

“Uma loba matou um dos seus filhotes que estava mortalmente ferido. Para mim foi como uma dura lição sobre a compaixão e a necessidade de permitir que a morte venha aos que estão morrendo.”

Clarissa Pinkola Éstés, Mulheres que correm com os lobos

Passadas umas 2 horas, a minha barriga já estava bem contraída. Fui estando atenta a ti, querida Alice. A última vez que te senti mexer penso que foi por volta das 18h.

Fui sendo invadida por um sentimento de paz, que era tão intenso, que se sobrepunha a qualquer outro.

Conversámos, jantámos, conversámos… Passadas 6 horas do início, mais 2 comprimidos. Quando estes fizeram efeito, dei-me ao luxo de umas massagens carinhosas da Sandra.

A foto foi tirada pelo teu pai, Alice, por entre o sono. Mas diz que não se lembra de a ter tirado. Ele tem destas coisas…

Nessa noite o processo de indução estagnou para que descansássemos. Pela manhã, administraram-me mais 2 comprimidos. Já não era o nosso médico que estava de serviço naquele dia mas pude perceber que tinha deixado muita informação sobre nós e que tinha tudo sob controlo mesmo à distância.

Pela tarde, comecei a sentir as contrações a ir e vir, em vez de uma barriga sempre dura. Quando chegou a hora de mais misoprostol, já estávamos em trabalho de parto, pelo que acabou por não se administrar mais nada.

Quando a aflição aumentou, chamámos a enfermeira e a médica de serviço. A médica quis fazer um toque. Eu pedi que ninguém mexesse em mim, que não me mudassem de posição,… A médica fez o toque mesmo comigo deitada de lado, como estava. 6 dedos. Saíram, deixando-nos novamente em privado.

Quando sentimos que eu estava em fase de transição para o período expulsivo, vi a Sandra por a jeito as coisinhas que tinham sido preparadas para ti, para te aconchegar e fotografar. Senti-me muito triste e fiquei chorosa… Estava a chegar a nossa separação, querida Alice.

O trabalho de parto foi avançando comigo em sofrimento, com dificuldade em gerir o lado emocional e, consequentemente, tolerar a dor física. Passados mais uns minutos (1hora?) Chamámos novamente e vieram a enfermeira e a médica. Ainda pedi petidina. A Sandra, em boa hora, me encorajou a passar sem a petidina. Ela também percebeu a importância de me despedir de ti no pleno da minha consciência.

Já ninguém me tirou do quarto, para o bloco de partos, como estava previsto. Sugeriram que eu mudasse de posição mas respeitaram a minha vontade de ficar de lado. E tu estavas mesmo prestes a nascer, bebé Alice… Mas eu dei por mim a fazer força para te manter. Eu não queria, não queria fazer-te nascer naquele dia. Verbalizei o que se estava a passar, disse que não conseguia,… Mas eu tinha que conseguir, meu amor,… Fui encorajada, pedi que não houvesse choro à minha volta, tentei concentrar-me em ti, e tu apareceste.

A Sandra disse, enternecida: “Está a nascer na bolsa, Joana.”. E eu sorri. Senti-me bem, Alice, por teres nascido sem teres saído do aconchego da bolsa. Aquilo fez com que me passasse pela cabeça que viveste sempre protegida e em paz, nunca sentiste frio, nem fome,… E foi, novamente, a paz, que me invadiu. E acabei de te expulsar muito devagarinho.

Disseram-me depois que eram 18h20 quando nasceste.

A enfermeira que estava connosco foi um amor. Percebeu a importância que tudo tinha para nós. Fez muita questão de te manusear apenas de acordo com a nossa vontade. Eu pedi-lhe que colocasse a bolsa à minha frente e ali a rebentasse. Não tive vontade de ser eu a tirar-te de lá.

Assim que te vi, Alice, apaixonei-me ainda mais por ti! Tão linda, tão doce e delicada! Peguei-te ao colo. Já tinhas cabelinho, muito escuro, como a tua mana também tinha quando nasceu. O nariz do pai, os meus lábios,… Os pézinhos tinham o 2º dedo mais comprido que o 1º, como têm o pai e a mana, não eram como os meus que são em escadinha. Tentámos olhar bem, cheirar-te, sentir-te, absorver o máximo de ti.

Os dói-dóis também eram visíveis, observámos e eu senti algum consolo. Nem os beijinhos da mãe os iam fazer passar, minha querida filha.

Sem darmos por isso, disseram-me que tinha passado uma hora. Não sei mais quanto tempo passou até acharmos que era hora de te deixar. Chamámos a enfermeira, que te levou, com carinho. Foi a última vez que te vi.

Recusei, delicadamente, a medicação para evitar a subida de leite. Tenho uma relação de confiança com as minhas mamas desde que tive a tua mana internada na neonatologia e saberia resolver-me. Tive subida de leite. Fez-me mais sentido do que estar num corpo que não sentisse a tua falta, querida Alice.

Quisémos fazer-te um funeral, que foi passados 3 dias. A tua mana quis ver-te mas tivémos receio que já estivesses muito diferente, meu amor, e não deixámos ninguém ver-te. Mostrei 2 fotos tuas à tua mana, que apenas disse: “Oh, tão querida!”. Ela também quis dar vivas por ti porque disse que era a tua festa, o pai e eu achámos óptima ideia. No final da cerimónia, largou-te uns balões, porque achámos que haverias de gostar de balões.

A partir daqui, querida, continuarás sempre nos nossos corações. Já temos tantas saudades tuas! Amo-te muito, Alice Leonor. Serei sempre a tua mãe.