“Os peixes não conseguem ver a água em que nadam: a necessidade de humanizar o parto” *

 

Marsden Wagner**

 

Humanizar o parto significa compreender que a mulher que dá à luz é um ser humano e não uma máquina de fazer bebés. Retirar às mulheres a sua capacidade inata de fazer nascer um bebé ao inferiorizá-las e tratá-las como se elas fossem incapazes é uma tragédia para a sociedade. Por outro lado, respeitar a mulher como ser humano válido e garantir que a experiência de dar à luz é enriquecedora e poderosa, não é apenas um extra simpático. É absolutamente essencial porque, ao fortalecermos as mulheres, fortalecemos a sociedade.

No entanto, não existe parto humanizado em muitos sítios atualmente. Porquê? Porque os peixes não conseguem ver a água em que nadam. Médicos, parteiras ou enfermeiras que apenas lidam com partos hospitalares, altamente interventivos e medicalizados não conseguem ver o impacto profundo que as suas intervenções têm nos nascimentos. Não fazem a mínima ideia do que é um parto sem todas aquelas intervenções, não fazem ideia do que é um parto não desumanizado. Isto potencia a incapacidade para saber o que é o parto normal e humanizado, de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde:

“Ao medicalizar o parto, ou seja, separar a mulher do seu ambiente e rodeá-la com pessoas estranhas que usam máquinas estranhas que fazem coisas estranhas num esforço para a ajudar a parir, o estado de espírito da mulher e do seu corpo fica tão alterado, que a forma como ela leva a cabo este acto íntimo será necessariamente alterado tal como será necessariamente alterado o estado do recém-nascido. O resultado disto é que deixa de ser possível saber como o parto poderia ter sido se não tivesse sido sujeito a estas intervenções. A maioria dos prestadores de cuidados de saúde já não sabem o que é um parto não medicalizado. A literatura obstétrica é essencialmente baseada na observação do parto medicalizado”. –  Organização Mundial de Saúde.

Por que é que um parto medicalizado é necessariamente desumanizador? No parto medicalizado o médico está sempre no controlo enquanto a chave para o parto humanizado é pôr a mulher no controlo do processo do parto e de tudo o que lhe acontece. Num hospital as pacientes nunca têm o controlo completo; se uma parturiente discorda das opções do hospital e se não conseguiu negociar alternativas, a única solução é abandonar o hospital. Dar o poder de escolha às mulheres relativamente a determinados aspetos dos cuidados obstétricos não é abdicar totalmente do controlo já que os médicos continuam a ter que decidir que escolhas vão ser dadas às mulheres e continuam a ter o poder para aceitar ou recusar essas escolhas.

O parto, que passou para os hospitais nos últimos cem anos, tem que ser devolvido à comunidade, à mulher e à sua família. Os médicos são humanos, as mulheres são humanas, errar é humano. As mulheres têm o direito a que os erros cometidos durante os partos sejam os erros delas e não os erros de terceiros.

O trabalho de parto e o nascimento são funções do sistema nervoso autónomo e por essa razão estão fora do controlo consciente. Em consequência, há duas formas de abordar o parto: trabalhar com a mulher para facilitar as suas próprias respostas ou sobrepor-se à biologia e impor um controlo externo recorrendo a intervenções como anestesias e procedimentos cirúrgicos.

Independentemente do local do parto, no hospital ou em casa, este só é verdadeiramente humanizado se a mulher detiver o controlo absoluto do processo.

 

Porquê o parto medicalizado

Hoje em dia há três tipos de abordagem: os partos altamente medicalizados, `high tech´, centrados no médico, sendo as enfermeiras obstetras marginalizadas, como nos EUA, Irlanda, Rússia, Republica Tcheca, França, Bélgica e Brasil urbano; existe a abordagem humanizada com a presença forte e mais autónoma das enfermeiras parteiras, como na Holanda, Nova Zelândia e nos países escandinavos; e uma mistura dos dois modelos como se encontra na Grã Bretanha, Canadá, Alemanha, Japão e Austrália.

Entretanto, nós estamos a violentar a natureza às nossas custas. Por exemplo, se paramos de usar nossos corpos, eles decaem. É `moderno´ usar o carro ou o transporte público para tudo, o que deixa pouco espaço para andar a pé ou mesmo correr.  Depois, a ciência `descobre´ que o nosso corpo precisa de exercício ou teremos problemas cardiovasculares. Então, surge a ideia de voltar a andar a pé de fazer  `jogging´ e isso é considerado pós-moderno e progressivo e não como um regresso ao passado. Da mesma forma os cuidados obstétricos humanizados não são um retrocesso, mas um avanço.

Todas as mudanças têm o potencial para efeitos positivos e negativos. Quanto à mortalidade materna, a cesariana às vezes salva vidas, às vezes mata: a mortalidade materna nas cesarianas (incluindo as electivas) é 2.84 ou quase três vezes maior do que em partos vaginais (3).

Durante 50 anos a taxa de mortalidade materna nos EUA desceu. Depois, em 1980 começou a subir e, de acordo com o Centros de Controlo de Doenças e Prevenção, aumentou de 7.2 por cento em 1987 para 10.0 em 1990 (4). Enquanto noutros países industrializados a taxa continuava a descer, nos EUA subia ao longo da década de 90. De acordo com dados da OMS, a mesma taxa é hoje em dia mais alta do que noutros 20 países industrializados.

Os obstetras reclamam que a medicalização do parto nos países ricos é um progresso real mas a evidência científica sugere por vezes outra coisa. Não houve uma melhoria significativa nos países altamente industrializados nos últimos 20 anos nas taxas de nascimentos de baixo peso ou de recém- nascidos com paralisia cerebral. A ligeira queda na taxa de mortalidade perinatal nestes países nos últimos 20 anos é devida, não a uma quebra na taxa de morte fetal, mas apenas a uma ligeira melhoria da mortalidade neonatal associada a cuidados intensivos neonatais e não a cuidados obstétricos intensivos.

O que significa que, nos países desenvolvidos, caíram por terra todas as tentativas para associar baixas taxas de mortalidade perinatal com altas taxas de cuidados obstétricos intensivos.  Vários estudos têm falhado em detectar qualquer relação entre as taxas de mortalidade perinatal e os índices de parto cirúrgico. Isto sugere que estamos no ponto em que os efeitos positivos do desenvolvimento e da tecnologia estão a chegar ao máximo e começam a aparecer os efeitos negativos. Isto ajuda a explicar por que é que os avanços na tecnologia e no desenvolvimento não levam a melhorias na saúde a menos que a tecnologia esteja em harmonia com os processos biológicos naturais e esteja acompanhada por cuidados humanizados.

Por exemplo, se for feita uma cesariana eletiva depois do trabalho de parto ter começado, em muitos casos isso facilita o processo natural. Mas esperar até que o trabalho de parto comece significa que os médicos perdem a possibilidade de agendar o procedimento de acordo com a sua conveniência. Mas, tal como acontece na maioria dos casos, o medico tenta contornar os processos naturais ao avançar para cesariana antes de começar o trabalho de parto há um risco maior de problemas respiratórios e de prematuridade, duas das principais causas de morte de bebés recém- nascidos. Violentamos a natureza por nossa conta e risco.

É por isso que agências de desenvolvimento internacional, como o Banco Mundial, sabem que o desenvolvimento económico só conduzirá à melhoria das condições de vida se for acompanhado pelo desenvolvimento social e educacional.

O maior perigo na questão do parto ocidental medicalizado é sua exportação em larga escala para os países em desenvolvimento. As evidências científicas mostram que dar infusão de IV a uma mulher em trabalho de parto não é necessário, mas esta prática nos países ricos, mesmo sendo um desperdício de dinheiro, não é uma tragédia. Nos pequenos hospitais de zonas menos desenvolvidas, a rotina de IV é um trágico desperdício de recursos limitados.

A monitorização fetal de rotina tornou-se generalizada apesar de dados científicos terem provado que não teve qualquer efeito na descida da mortalidade perinatal e, pelo contrário, provocou um aumento de cesarianas desnecessárias. E não estamos também ainda certos de quais serão as consequências, a longo prazo, das ecografias de rotina e das epidurais por rotina no trabalho de parto normal.

Por trás destes equívocos na compreensão dos dados científicos está o facto de que a maior parte dos médicos têm pouca ou nenhuma formação em ciência. E há uma grande diferença entre a prática da ciência e a prática da medicina. Os clínicos têm também pouca ou nenhuma formação em saúde pública e epidemiologia e não conseguem compreender como é que dados relativos a uma população se podem aplicar aos seus pacientes de forma individual. Assim se percebe que publiquem, por exemplo, artigos a expor objeções às recomendações para que se reduzam as taxas de cesariana. (8) A isto acresce que os profissionais de saúde pública não confrontam os médicos obstetras com os excessos na prática clínica porque receiam o poder dos médicos e das suas corporações.

A única abordagem que os médicos entendem é o exemplo do “caso concreto”, o caso anedótico. Esta abordagem típica é dizer “e se alguma coisa corre mal”. O melhor exemplo desta crença é a atitude perante o parto domiciliar planeado.

Muitos médicos e instituições continuam a acreditar nos perigos do parto domiciliar planeado rejeitando a evidência científica cabal de que um parto domiciliar numa gravidez de baixo risco é seguro. A resposta dos médicos a esta possibilidade é “e se acontece alguma coisa?” Como a maioria dos médicos nunca presenciou um parto domiciliar, essa pergunta contém várias falsas pressuposições.

A primeira é acreditar que no parto as coisas acontecem de forma rápida. Na realidade, com algumas muito poucas exceções, as coisas acontecem devagar e uma verdadeira emergência em que todos os segundos contam acontece muito raramente e frequentemente nestes casos a parteira sabe o que fazer.

A segunda falácia é acreditar que quando acontece alguma coisa não há nada que uma parteira num parto em casa possa fazer. O que acontece na realidade é que uma parteira treinada consegue prever eventuais complicações e normalmente consegue evitá-las logo à partida já que oferece um apoio individualizado e contínuo. Num hospital normalmente as enfermeiras têm à sua responsabilidade várias parturientes.

Com raras exceções, se houver alguma complicação, a enfermeira obstetra num parto domiciliar pode fazer tudo o que faria no hospital, incluindo dar oxigénio, etc.

Por exemplo, se a cabeça do bebé passar mas os ombros ficarem presos, a única coisa que se pode fazer quer no hospital quer em casa são determinadas manobras, pela mãe e pela parteira. A técnica mais recente e melhor sucedida para resolver a distocia do ombro está descrita na literatura médica como a manobra de Gaskin, o nome da parteira que primeiro a descreveu.

A terceira falácia diz que no hospital é possível agir mais rapidamente. Acontece que mesmo nos hospitais quando se pede uma cesariana são necessários pelo menos 20 minutos para que o médico chegue e o centro cirúrgico seja preparado. Esses 20 minutos podem ser usados pela enfermeira obstetra para levar a parturiente ao hospital. É muito importante haver uma boa comunicação entre a parteira que faz partos fora do hospital e o hospital para que quando a parteira contacta o hospital a informar que está a caminho com uma parturiente o hospital prepare o necessário para a receber sem demora.

Concluindo, não há razões para citar casos individuais e anedóticos a respeito de ‘e se….’. Casos esses que os médicos usam, para assustar as mulheres, opinião pública e políticos sobre os partos planeados que ocorrem em contexto não hospitalar.

Recentemente há um movimento desejável no sentido de estabelecer práticas obstétricas assentes em evidências científicas, mas ainda hoje muitos obstetras não estão familiarizados com estas evidências e nem com os meios para obtê-las. Um estudo realizado na Grã-Bretanha em 1998 revelou que 76 por cento dos médicos inquiridos tinham conhecimento do conceito de `prática baseada na evidência científica´, mas apenas 40 por cento acreditavam que esse conceito seria aplicável à sua própria prática e e apenas 27 por cento estavam familiarizados com os métodos propostos na literatura especializada e baseada em evidência científica. Quando questionados com a forma de reagir perante uma complicação concreta, a maioria respondeu que pediria opinião a um colega em primeiro lugar, ao invés de consultar a informação disponível suportada em evidência científica.

Há ainda uma tendência para ignorar a evidência científica relativamente às consequências subtis e de médio e longo prazo das intervenções no parto. Por exemplo, a evidência sugere que a par do aumento das intervenções no parto existe um aumento da incidência de determinados problemas neurológicos tal como o défice de atenção, dislexia e autismo. No entanto, desconheço qualquer investigação em que se procure determinar se há relação entre o aumento daqueles problemas e o aumento de intervenções obstétricas tais como ecografias pré-natais, indução de parto farmacológica, epidurais e cesarianas eletivas.

As desculpas mais usadas pelos obstetras para rejeitarem uma prática baseada na evidência incluem dizer que: “a evidência é datada”, “recolher evidência demora demasiado tempo e impede o progresso”, “eu uso o critério clínico e a minha experiência”, usar casos de horror como exemplo para demonstrar a necessidade de intervir quando a evidência mostra que a intervenção é desnecessária, dizer “confie em mim, eu sou médico”. No meio, também se usam justificações como “as mulheres têm a pélvis mais pequena” (sem evidências) ou “os bebés estão a nascer maiores” (sem evidências).

Os obstetras tendem a ter uma fé cega na tecnologia e numa espécie de `mantra´ segundo o qual a tecnologia = progresso = moderno. O outro lado da moeda é uma perda de confiança na natureza, expressa desta forma por um médico canadiano: “A natureza é um mau obstetra”.

Com o intuito de conquistar a natureza, o século XX, assistiu a uma série de fracassos na tentativa de melhorar a evolução biológica e social. Os médicos substituíram as parteiras em nascimentos de baixo risco e a ciência provou que as parteiras são mais seguras. O hospital substituiu as casas como local de nascimento para parto de baixo risco e a ciência mostrou que o domicílio é tão seguro quanto o hospital e com muito menos intervenções. A equipa hospitalar substituiu a família no suporte dado à parturiente, e a ciência provou que o parto é mais seguro com a família. A posição de litotomia substituiu o parto vertical e a ciência provou que a posição vertical é mais segura. O exame ao recém-nascido longe da mãe nos primeiros vinte minutos de vida substituiu a relação mãe-filho, e a ciência provou a importância do vínculo mãe-bebé nesses primeiros momentos de vida. O leite feito pelos homens substituiu o leite das mulheres e a ciência provou que o aleitamento materno é superior. O berçário substituiu a mãe, a ciência provou que o alojamento conjunto é melhor. A incubadora substituiu o corpo e o calor da mãe em recem nascidos de baixo peso e a ciência provou que o método canguru é melhor em muitos casos.

Cesarianas desnecessárias: O símbolo da desumanização

A quintessência da medicalização e desumanização do parto é a cesariana desnecessária, na qual o cirurgião está no comando e a mulher não tem qualquer controlo. As mulheres e seus filhos estão a pagar um preço elevado pela promoção que alguns médicos fazem da cesariana. Os dados científicos sobre a mortalidade materna associada à cesariana sugerem que a elevada taxa de mortalidade materna nos EUA e no Brasil, pode ser, pelo menos em parte, devida à sua alta taxa de cesariana. Ambos os países deveriam fazer uma cuidadosa auditoria de todos os óbitos maternos associados a altas taxas de cesariana.

Porquê tantas cesarianas? Verificamos elevadas taxas de cesarianas em situações em que o médico está a controlar o parto e as enfermeiras e parteiras são relegadas para segundo plano ou não estão presentes. Vários estudos demonstram que os partos são menos intervencionados se forem assistidos por enfermeiras do que quando são pelos médicos. O facto é que ter um cirurgião ginecológico altamente treinado para assistir um parto normal é o mesmo que ter um cirurgião pediátrico como ama de uma criança normal de 2 anos de idade.

As taxas de cesariana são o sintoma da falha na humanização do parto. E se uma mulher recebe uma cesariana simplesmente porque ela prefere, isso significa que haverá menos recursos humanos e financeiros para o resto do sistema de saúde. Uma cesariana que é feita a pedido da mulher implica um cirurgião, um segundo médico, um anestesista, enfermeiras especializadas, equipamento, sangue para transfusão se for necessário, um período de pós-parto prolongado e uma estadia mais longa no hospital. Isto custa muito dinheiro e recursos consideráveis para formar médicos e enfermeiras e outro pessoal especializado, a maioria às custas do Estado e dos contribuintes.

As mulheres no Brasil estão também pagando outro preço: num país com amplas regiões carentes, é um desperdício perigoso e um luxo insensato as altas taxas de cesarianas de seus centros urbanos.
À luz de tudo isso, o Comité para os Aspectos Éticos da Reprodução Humana e da Saúde das Mulheres – o FIGO (uma organização internacional que reúne as organizações obstétricas nacionais) – estabeleceu em 1999 que fazer cesarianas por motivos não-médicos é eticamente injustificável.

 

Até hoje, nos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, não houve a inteligência de aproveitar as vantagens da obstetrícia medicalizada e, ao mesmo tempo, evitar desvantagens como a deriva para abusos obstétricos. A humanização do parto tem o potencial de manter as vantagens do parto medicalizado ocidental e, ao mesmo tempo, obter as vantagens do respeito pela natureza biológica, social, cultural e espiritual do parto. Há várias estratégias para humanizar o parto – que devolvem à mulher e à família o controlo sobre o nascimento das suas crianças e dão à mulher o poder de acreditar em si própria e experimentar o que o seu corpo consegue fazer.

A primeira estratégia é a educação. Quem controla a informação tem o poder. No passado, os médicos detinham o controlo dos cuidados médicos, protegendo e retendo a informação. A confidencialidade da relação com o paciente, motivo legítimo para limitar o acesso à informação individual, não é hoje entendida como desculpa para ocultar dados hospitalares gerais. O advento da Internet teve um efeito profundo no acesso de todos à informação médica. Hoje, a transparência nos cuidados de saúde é uma exigência de qualquer democracia. O tempo do segredo sobre as práticas médicas acabou. O público tem que ter informação honesta e completa, mesmo quando isso signifique que os hospitais perdem poder ou que certas práticas possam ser postas em causa.

Deve ser disponibilizada informação completa sobre os bons e os maus resultados do parto cirúrgico aos médicos, decisores, políticos e ao público em geral. Tem que se ver a água na qual os médicos e hospitais nadam e ver que há tubarões que podem não comer médicos, mas comem mulheres e bebés.

A necessidade de alargar os horizontes dos médicos em relação à maternidade não é nova. Num livro publicado em 1668, lê-se: “ Os médicos que nunca assistiram a um parto em casa e, no entanto, o desaconselham, assemelham-se aos geógrafos que descrevem países onde nunca estiveram”. Toda a formação de obstetras deveria incluir visitas a partos realizados fora de hospitais, incluindo partos em casa ou em casas de partos. As parteiras e enfermeiras obstétricas em formação também deveriam ter essa experiência.

A educação das mulheres, especialmente das grávidas, é de importância capital, mas a questão é o que é dito às mulheres. Em alguns lugares, os programas de educação pré-natal são controlados por obstetras que insistem em dar às mulheres apenas informação que convém à classe médica. Há anestesistas que vão a aulas de cursos de preparação para o parto falar das maravilhas das epidurais sem dizerem uma palavra sobre os consideráveis riscos que implicam.

É altamente improvável que as mulheres escolham fazer cesarianas se conhecerem todas as provas científicas dos riscos que essa prática acarreta para si e para os seus bebés. A questão ética essencial não é o direito a escolher uma intervenção cirúrgica para a qual não existe indicação médica mas o direito de ter acesso e discutir informação séria e imparcial antes de qualquer ato médico.

Há muitas maneiras pelas quais as mulheres que dão à luz em hospitais de sociedades machistas são oprimidas, levadas a acreditar que não são importantes nem livres por pessoal clínico hostil. Uma mulher que aceite o modelo de cuidado obstétrico medicalizado de uma cultura médica masculina abdica do controlo sobre o seu corpo e da possibilidade de controlar o seu corpo e fazer verdadeiras escolhas. Sem informação completa, perderá o controlo e seguirá as vontades dos médicos e dos hospitais.

Uma segunda estratégia de humanização é a promoção de cuidados obstétricos baseados em evidências. Os atuais padrões de prática médica estão distantes das evidências científicas e nem governos nem organismos de saúde pública conseguiram aproximá-los, receando muitas vezes afrontar o poder da classe médica.

Outra estratégia essencial na humanização do parto assenta em quem é o principal prestador de cuidados às mulheres durante a gravidez e parto. Há uma longa tradição de médicos a controlarem tudo com pouca ou nenhuma interferência da comunidade. Enquanto forem os médicos a acompanharem mulheres grávidas ou em trabalho de parto normais e saudáveis, não serão as mulheres a controlar e não haverá humanização da maternidade.

Os países devem lutar para deixarem de ser os médicos a acompanhar esses casos. Investigação científica válida mostra que aumentam as intervenções desnecessárias e diminuem as taxas de satisfação das mulheres quando são os médicos a assistir a partos de baixo risco, em vez de parteiras. Verificam-se enormes desperdícios de recursos financeiros e profissionais.

Em contraste, existe entre as parteiras uma longa tradição de colocar a parturiente no centro de tudo, pondo todo o controlo nas mãos da mulher e dando-lhe o tipo de apoio que a fortalece e à família. Por isso, entregar às parteiras o papel principal na assistência à maternidade é uma estratégia central para humanizar o parto.

Nos países escandinavos, Nova Zelândia ou Países Baixos, mais de 80 por cento das mulheres só estão em contacto com parteiras durante a gravidez ou o parto (hospitalar ou não) e há das mais baixas taxas mundial de mortalidade maternal e perinatal.

Há provas científicas consideráveis de que as parteiras autónomas têm quatro vantagens essenciais: são mais seguras em partos de baixo risco, fazem menos intervenções desnecessárias, são mais baratas e garantem maiores taxas de satisfação.

No estudo mais completo da segurança dos partos assistidos por parteiras, publicado em 1998, analisaram-se todos os nascimentos verificados num ano nos Estados Unidos da América – mais de quatro milhões. Excluindo os partos de gémeos, casos de risco e olhando apenas para os partos vaginais, verificou-se que naqueles assistidos por parteiras houve menos 19 por cento de mortalidade infantil, menos 33 % de mortalidade neonatal e menos 31% de ocorrências de baixo peso à nascença.

A segunda vantagem das parteiras é uma redução drástica no número de intervenções invasivas desnecessárias: menos amniotomias, menos administração intravenosa de fluidos ou medicação, menos uso de anestesia, incluindo epidural, menos induções, menos episiotomias, menos fórceps e ventosas, menos cesarianas, mais partos naturais pós-cesariana.

A terceira é a redução de custos. Embora varie de país para país, as parteiras recebem salários consideravelmente mais baixos que os médicos e menos intervenções significam também menos gastos.

Embora desvalorizada pelos defensores do parto medicalizado, outra vantagem das parteiras é o grau de satisfação das mulheres, que é extremamente importante na sua abordagem ao parto.

 

Para manter a sua hegemonia, os médicos atacam as parteiras, especialmente as que têm atividade independente, sem controlo de médicos

Outra estratégia importante para a humanização do parto é retirá-lo do ambiente hospitalar. Sempre houve mulheres a preferir partos em casa planeados, mas hoje, em resultado de décadas de propaganda sobre os perigos do parto em casa e a segurança proporcionada pelos hospitais, muitas mulheres acreditam nesse mito.

Apesar das tentativas dos médicos para acabar com ele, o parto em casa nunca desapareceu e há mesmo estatísticas que mostram que está a voltar, de forma lenta mas segura, em países como a Grã-Bretanha, Dinamarca, Estados Unidos e Japão. Nos Países Baixos, o número de partos em casa nunca desceu abaixo dos 30%.

Para mais de 80% das mulheres que não tiveram complicações durante a gravidez, o parto em casa planeado é uma escolha perfeitamente segura. Qualquer médico, hospital ou organização médica que tente desencorajá-la está em violação de um direito humano básico. Os clínicos que acham que sabem como as outras pessoas devem viver e tentam impor as suas crenças estão a praticar uma espécie de fascismo médico. O nascimento de uma criança é um dos acontecimentos mais importantes na vida de uma família e quando esta escolhe um parto em casa planeado, deve honrar-se a sua santidade.

A maneira de as mulheres conseguirem estar em controlo durante o parto, serem assistidas por uma parteira e sentirem-se ao mesmo tempo confortáveis e protegidas por uma instituição é escolherem centros de parto alternativo, ou casas de parto.

A primeira característica de uma casa de parto é que não é controlada por nenhum hospital. Os cuidados que ali se prestam são muito diferentes: é a mulher que controla e os procedimentos adotados assentam na individualidade e na escolha informada.

Os protocolos hospitalares são definidos em função de todas as complicações possíveis de acontecer, enquanto os das casas de parto se pautam pela normalidade, monitorização e observação. Nos hospitais, a dor é entendida como um mal que tem que ser eliminado com drogas, enquanto nas casas de parto se aceita que a dor tem uma função fisiológica e pode ser aliviada por métodos que não envolvem medicamentos, como imersão em água, mudança de posição, mobilidade, massagens ou presença da família.

Nos hospitais é frequente a indução do trabalho de parto com drogas fortes que aumentam a dor e têm bastantes riscos. Nas casas, advoga-se o uso de métodos não farmacológicos, como a caminhada ou a estimulação sexual. Nos hospitais, o pessoal clínico muda a cada oito horas, enquanto nas casas de parto é sempre a mesma pessoa a assistir ao trabalho. Ainda nas casas, o recém-nascido nunca é retirado à mãe, enquanto nos hospitais há várias razões dadas para afastar o bebé da mãe.

 

A segurança das casas de parto para mulheres que não tiveram complicações durante a gravidez é uma questão chave. As casas de partro são uma grande ameaça para os médicos, hospitais e para a indústria de tecnologia obstétrica. Pelos custos elevados que envolve, os médicos e hospitais têm que convencer o público e os decisores de que a sua maneira de fazer as coisas é a única que é segura. Caso contrário, perderiam os seus financiamentos. Por isso, põem em causa a segurança das casas de parto.

Segundo um estudo oficial norte-americano em que foram analisadas 84 casas de parto, não houve um único caso de mortalidade materna e a taxa de mortalidade neonatal ou durante o parto foi de 1,3 por cada mil nascimentos, equivalente ao que se verifica nos partos hospitalares de baixo risco.

A taxa de mortalidade infantil e os índices de Apgar nas casas de parto também são comparáveis aos registados nos partos hospitalares de baixo risco.

Depois de experimentarem dar à luz em casas de parto, 99% das mulheres disseram que as recomendariam às suas amigas e 94% por cento disseram que regressariam para partos futuros. 63% das mulheres que deram à luz em casas de parto disseram que a experiência aumentou a sua auto-estima, uma afirmação feita por apenas 18% das mulheres que deram à luz no hospital.

Em estudos feitos nos Estados Unidos, Dinamarca e Suécia, verificou-se também que as taxas de amamentação bem sucedida foram mais altas entre mulheres que escolheram casas de parto.

De acordo com estatísticas australianas, 99% dos nascimentos em casas de parto foram vaginais, um número que nos partos hospitalares de baixo risco não foi além dos 18%. Nas casas de parto, menos de 4% dos nascimentos teve indução, rutura artificial das membranas e uso de oxitocina, enquanto nos hospitais, a taxa chegou a 50,8%. O uso de fórceps verificou-se em menos de 1% dos nascimentos em casas de parto mas nos hospitais, aqueles instrumentos foram usados em 33,9% dos casos. Ao olhar para estes números, põe-se em questão a segurança, não das casas de parto mas dos hospitais.

O nascimento é uma questão política. Os defensores do parto humanizado devem ser politicamente ativos. Os políticos e organismos governamentais tomam decisões cruciais sobre a maternidade e têm que ser educados e envolvidos na humanização do parto.

Os ativistas têm que alertar os políticos e decisores para as táticas de desinformação levadas a cabo pelos membros mais reacionários da classe médica, que fazem afirmações infundadas sobre os perigos do parto humanizado, alegando que as parteiras e os partos fora dos hospitais são inseguros.

Outro argumento alarmista comum dos obstetras é dizer que os nascimentos em casa que acabam no hospital são sempre casos gravíssimos, o que é óbvio. Uma parteira competente só encaminha para o hospital os casos em que há um problema grave que necessita de intervenção cirúrgica. Os obstetras que nunca acompanharam um parto fora do hospital concluem erroneamente que todos acabam da mesma maneira. É por isso que precisam de sair e ver com os seus próprios olhos como se fazem os partos em casa.

Alguns médicos tentam garantir que a assistência à maternidade é o seu feudo. Às vezes, usam linguagem técnica para confundir os legisladores. Os políticos e decisores precisam de exigir os dados científicos que sustentem os argumentos alarmistas e de perguntar aos obstetras se alguma vez assistiram a um parto fora do hospital.
Conclusão

A solução consiste em desenvolver novas abordagens políticas e sociais para a profissão médica e para os cuidados médicos. Os cuidados às grávidas e parturientes carecem de uma reviravolta para que, ao invés de se afastarem da fisiologia e dos contextos familiares e sociais, se avance no sentido do respeito e do trabalho com a natureza, com a mulher e a sua família.

A reviravolta necessária já começou em locais que decidiram implementar uma abordagem pós-moderna nos cuidados de saúde às grávidas e parturientes. Tudo no parto é cultural: a forma como a gravidez é entendida pela sociedade, a forma como as mulheres lidam com a dor de parto, a forma como os nascimentos são assistidos. A possibilidade de as mulheres tomarem decisões sobre a sua gravidez e o parto leva ao seu empoderamento, o que fortalece a sociedade. As mulheres precisam de dar à luz em “águas conhecidas”, nas suas comunidades.

As pessoas têm nadado no mar primordial, cultural, fisiológico e social há muito, muito tempo. Sabem reconhecer onde estão os tubarões e são capazes de encontrar o seu caminho no sentido de reivindicar a humanização do parto.

* Traduzido e adaptado por Bionascimento. Texto original em:  https://www.birthinternational.com/articles/birth/18-fish-cant-see-water, apresentado na Conferência sobre o Parto Domiciliar na Austrália, Noosa, Austrália, Novembro, 2000

** Marden Wagner (1930- 2014) foi um médico pediatra, neonatologista e epidemiologista perinatal no Estado da Califórnia, EUA, e depois na Dinamarca. Foi Diretor de Saúde Materna e Infantil na Organização Mundial de Saúde durante 15 anos.

(Resumo e tradução por Adriana Tanese Nogueira. Texto original em: Marsden Wagner. “Fish can’t see the water: the need to humanize birth”. In INTERNATIONA JOURNAL OF GYNECOLOGY & OBSTETRICS. International Conference on Humanization of Childbirth. 2-4 November 2000, Fortaleza, Brazil)